Política As mulheres na política amazonense: maioria nas urnas, minoria no poder

As mulheres na política amazonense: maioria nas urnas, minoria no poder

Maria de Miranda Leão, Léa Alencar, Maria do Socorro Dutra Lindoso, Eunice Michiles, Beth Azize, Conceição Sampaio, Therezinha Ruiz, Alessandra Campêlo, Joana Darc e Vanessa Grazziotin – Fotos: Divulgação

Por Adria Albuquerque

Há uma contradição que atravessa a história política do Amazonas: as mulheres são maioria entre os eleitores, mas continuam ocupando uma parcela reduzida dos cargos de poder.

Em 2026, o Estado tem mais de 2,8 milhões de eleitores. Desse total, 51,43% são mulheres, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Elas representam, portanto, mais da metade das pessoas responsáveis por escolher os representantes políticos do Estado.

Essa maioria, porém, ainda não se reflete na composição dos principais espaços de decisão.

Para entender essa diferença, é preciso voltar à história.

De Maria de Miranda Leão às seis deputadas atuais

A participação feminina na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) tem um marco em 1935, quando Maria de Miranda Leão foi eleita deputada estadual e participou da Constituinte Estadual. Ela é reconhecida como a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Parlamento amazonense.

Desde então, outras mulheres construíram suas trajetórias na política estadual. A galeria histórica da Aleam reúne nomes como Léa Alencar, Maria do Socorro Dutra Lindoso, Eunice Michiles, Beth Azize, Conceição Sampaio, Therezinha Ruiz, Alessandra Campêlo, Joana Darc, Dra. Mayara, Mayra Dias, Débora Menezes e Professora Jacqueline, entre outras.

Em 2026, Brena Dianná também passou a integrar essa história ao assumir uma cadeira na Assembleia.

Atualmente, a Casa conta com seis deputadas entre 24 parlamentares, o equivalente a 25% do Legislativo. É a maior presença feminina simultânea já registrada na Assembleia.

O avanço é significativo, mas os números também revelam o tamanho da distância que ainda existe até uma representação proporcional.

Três mulheres no Senado

A história se repete, em proporção ainda menor, no Senado Federal.

Em 1979, a amazonense Eunice Michiles assumiu uma cadeira após a morte do senador João Bosco de Lima, de quem era suplente. Com isso, tornou-se a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Senado durante a República.

Mais de três décadas depois, o Amazonas voltou a ter mulheres na bancada.

Vanessa Grazziotin foi eleita senadora pelo Estado para o período de 2011 a 2019. Na mesma legislatura, Sandra Braga exerceu o mandato como suplente do senador Eduardo Braga.

Ao todo, portanto, três mulheres já ocuparam uma cadeira no Senado representando o Amazonas: Eunice Michiles, Vanessa Grazziotin e Sandra Braga.

Desde então, nenhuma outra mulher voltou a ocupar uma cadeira de titular pelo Estado.

Um cargo ainda inédito

Se no Legislativo a presença feminina cresceu lentamente, no Executivo estadual o cenário é ainda mais restrito.

O Amazonas nunca elegeu uma mulher para governadora.

Mulheres já disputaram eleições, exerceram mandatos parlamentares e ocuparam diferentes funções públicas, mas nenhuma chegou ao comando do Governo do Estado por meio de uma eleição direta.

O dado ganha peso quando comparado ao perfil do eleitorado: as mulheres são maioria entre os amazonenses aptos a votar, mas ainda não tiveram uma representante eleita para o principal cargo do Executivo estadual.

Onde está o obstáculo?

A baixa representação feminina não pode ser explicada por um único fator.

Estudos sobre participação política apontam obstáculos relacionados ao acesso a recursos de campanha, às estruturas partidárias, à divisão das responsabilidades familiares e a uma cultura política historicamente marcada pela predominância masculina.

No Amazonas, pesquisas acadêmicas também identificam a importância das redes familiares e sociais na entrada das mulheres na política. Para algumas, essas redes podem facilitar o acesso à vida pública; para outras, a ausência delas pode representar uma barreira adicional.

Há ainda a questão do financiamento.

A legislação eleitoral estabelece regras para ampliar a participação feminina nas candidaturas e prevê mecanismos relacionados à distribuição de recursos. Mas ser candidata não significa necessariamente disputar uma eleição nas mesmas condições que os demais concorrentes.

Por isso, analisar a presença feminina exige olhar para toda a trajetória: quem consegue se candidatar, quem recebe recursos, quem ocupa espaços de destaque dentro dos partidos e, finalmente, quem consegue transformar candidatura em mandato.

Desigualdade nas urnas

Os números ajudam a mostrar que o problema não está na falta de participação eleitoral.

As mulheres votam, candidatam-se e participam da vida pública. O que permanece desigual é a chegada aos espaços institucionais de decisão.

Um levantamento da Procuradoria da Mulher do Senado, com dados das eleições de 2022, registrou 129 mulheres entre 758 cargos eletivos analisados no Amazonas, aproximadamente 17% do total.

A diferença entre esse percentual e a participação feminina no eleitorado evidencia uma questão que ultrapassa uma eleição específica: a presença das mulheres nas urnas não se converte automaticamente em representação política.

Uma questão de representação

Discutir a presença feminina na política não significa defender que mulheres devam ser eleitas simplesmente por serem mulheres.

A questão é compreender por que uma parcela majoritária do eleitorado ainda aparece de maneira tão reduzida entre aqueles que ocupam os cargos públicos.

A trajetória amazonense mostra avanços importantes.

Maria de Miranda Leão abriu caminho na Assembleia em 1935.

Eunice Michiles entrou para a história nacional em 1979 como a primeira mulher a ocupar uma cadeira no Senado durante a República.

Outras amazonenses chegaram ao Legislativo estadual e federal nas décadas seguintes.

Em 2026, a Assembleia alcançou seu maior número simultâneo de deputadas.

Mas o Governo do Amazonas continua sem uma mulher eleita.

É justamente nessa diferença que o debate deixa de ser apenas sobre números e passa a envolver a própria representação democrática.

Se as mulheres são maioria entre quem vota, por que ainda são tão poucas entre quem ocupa os espaços de poder?

A resposta envolve partidos, financiamento eleitoral, oportunidades, estruturas sociais e cultura política. Não há uma única causa, mas os números mostram que existe uma distância histórica entre a participação das mulheres como eleitoras e sua presença nas instituições.

Talvez o primeiro passo para diminuir essa distância seja justamente deixar de tratar o assunto como tabu.

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