Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho A cruz da suástica no Jari

A cruz da suástica no Jari

A cobiçada Amazônia: ontem e hoje

Por Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho (*)

Há um túmulo no meio da selva que não deveria estar ali.

Para encontrá-lo é preciso subir o Rio Jari. Não o Jari largo dos mapas, mas o Jari magro, de pedras que rasgam cascos e corredeiras que engolem motores. Depois de horas de voadeira, quando o silêncio fecha, numa ilhota de pedras surge uma cruz negra de quase três metros. No topo, uma suástica ainda nítida, como ferida que não cicatrizou. Na madeira, o nome em grito: JOSEPH GREINER. Embaixo, a frase que o vento não apagou: morreu de febre em 2 de janeiro de 1936, a serviço da ciência alemã.

Não é lenda de internet. É o vestígio mais honesto da Expedição Alemã Amazonas-Jari, entre 1935 e 1937, quando a suástica tentou criar raiz na Amazônia. E é a partir dela que entendemos que a cobiça sobre a Amazônia nunca acabou. Só mudou de bandeira.

A chegada do grupo alemão e os preparativos

Tudo começou com perfume de modernidade em Belém. Em agosto de 1935, a Gazeta de Notícias anunciava o prodígio que vinha da Alemanha. Otto Schulz-Kampfhenkel tinha 24 anos, falava cinco línguas, trazia no olhar o brilho da Libéria que acabara de explorar e no bolso a carteirinha da SS. Vinham com ele o piloto Gerd Kahle e o engenheiro Gerhard Krause. No Rio de Janeiro recrutaram o quarto, Joseph Greiner, alemão criado no Brasil, o único capaz de traduzir não apenas palavras, mas a mata: terçado, pororoca, malária.

Trouxeram 11 toneladas de futuro: barracas à prova d’água, um fonógrafo para engarrafar cantos Aparai e Wayana, lentes Zeiss e um hidroavião Heinkel He 72 Kadett com flutuadores de compensado, um pássaro de madeira que nunca deveria ter pousado ali. Numa das canoas, a bandeira da suástica tremulava como se a floresta fosse avenida em Berlim.

O financiamento vinha do Ministério da Propaganda de Goebbels e do Instituto Kaiser Wilhelm. No Brasil, o carimbo vinha do Palácio do Catete e do Museu Nacional. Os militares torceram o nariz para um avião estrangeiro rondando a fronteira com a Guiana Francesa, mas Getúlio Vargas liberou. O historiador da Fiocruz, André Felipe Cândido da Silva, resume que Alemanha, Estados Unidos e França disputavam o coração dos intelectuais brasileiros, e filmar melhor o inferno verde era fazer política.

Só que o Jari não leu o roteiro de Berlim. Raso e bravo, quebrou o Heinkel nas primeiras semanas. O pássaro de compensado bateu em troncos e voltou rebocado. Ali o futuro acabou e começou o passado: pé na lama, canoa nas costas, braço caboclo. Vinte e um homens de Arumanduba, que sabiam ler a água, fizeram o que a engenharia alemã não fez. E um guia Aparai, que Schulz-Kampfhenkel apelidou com arrogância de Winnetou, personagem de faroeste de Karl May, mostrou o caminho.

Então a mata cobrou. A malária pegou todos. A difteria pegou o chefe. Em 2 de janeiro de 1936, a febre levou Greiner. Longe de tudo, cortaram a árvore mais reta, fizeram a cruz, pintaram de preto, pregaram a suástica e deixaram o amigo guardando o rio.

Ainda assim ficaram mais dezesseis meses. Filmaram, gravaram, coletaram peles e 1.500 objetos sagrados que hoje dormem nas gavetas frias do Museu de História Natural de Berlim. Voltaram em maio de 1937 com 2.700 metros de filme e a certeza da vitória. Em Berlim, viraram livro e filme de sucesso: “Rätsel der Urwaldhölle” ou “O Enigma do Inferno na Selva”.

O plano secreto revelado em arquivos

A parte mais sensível só veio à tona décadas depois. O jornalista Jens Glüsing, da Der Spiegel, encontrou nos arquivos militares de Freiburg um memorando secreto. Em 1939, já oficial da SS, Schulz-Kampfhenkel propôs ao Alto Comando o “Das Guayana-Projekt”, para ocupar as três Guianas e entrar pela porta que ele mesmo abrira, o Jari. Para ele, era questão de primeira importância estratégica.

O historiador da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Edivaldo Nunes, que há vinte anos segue o rastro dessa cruz, explica que a França era a inimiga mortal e a Guiana era a França na Amazônia. O plano nunca saiu da gaveta. Hitler preferiu a África. A cruz ficou.

E é aqui que ontem encontra hoje. O que era a Guiana para os nazistas é hoje a Amazônia para o mundo. Mudou o uniforme, não o endereço.

Ciclos de exploração na região

Depois dos alemães veio o americano Daniel Ludwig com o Projeto Jari, a maior tentativa de transformar selva em fábrica de celulose. O geógrafo Aziz Ab’Saber já alertava que a Amazônia é antes de tudo uma fantástica reserva mineral cuja exploração intensiva está apenas começando. O historiador Cristovão Lins, em “Jari, 70 anos de História”, mostra que cada ciclo prometeu progresso e deixou buraco.

Hoje vivemos a corrida dos minerais da transição energética. Ontem era o látex e o mapa da fronteira. Hoje é o nióbio de São Gabriel da Cachoeira, o cobre de Carajás, o lítio, o potássio, o ouro do garimpo ilegal e o grafeno. Como aponta o estudo “A Amazônia na geopolítica mundial dos recursos estratégicos do século XXI”, a Amazônia detentora do maior estoque de recursos estratégicos, água, minério e biodiversidade, voltou ao centro das atenções internacionais. China, Canadá, Estados Unidos e Índia disputam o subsolo, enquanto a mineração ilegal polui rios e fortalece grupos armados.

Pressão internacional e biopirataria

A tese da Escola de Guerra Naval, “A Amazônia Legal: a cobiça internacional”, mostra que a cobiça hoje se disfarça de discurso humanitário. Autoridades estrangeiras já declararam que a Amazônia pertence à humanidade e que o Brasil precisaria aceitar soberania relativa. É a mesma lógica de 1935, agora de terno em fórum climático, alimentando a ideia de que a floresta é grande demais para ser de um só povo.

Ontem o fonógrafo queria gravar o canto Aparai. Hoje laboratórios querem patentear o princípio ativo da planta que o Aparai conhece há séculos. Ontem levavam peles. Hoje levavam sequências genéticas. Ontem era a suástica na popa. Hoje é a logomarca de mineradora ou o carimbo de ONG sem controle.

Por isso a cruz do Jari importa. Como lembra o jornalista Agnaldo Rodrigues, de Macapá, nossos historiadores nem sempre gostam de olhar, mas os rastros estão lá. A Amazônia nunca foi vazia, nunca foi inferno, nunca foi terra de ninguém.

O Jari ainda corre encachoeirado, recusando quem chega com bandeira errada. Recusou o hidroavião alemão em 1935. Recusa hoje a draga do garimpo. E nos lembra, em cada pedra, que não basta GPS e satélite. É preciso pedir licença à mata e ao povo que a guarda.

A cruz continua lá, preta contra o verde, teimosa, para que não esqueçamos que quando a ciência vem sem ética, vira projeto de invasão. E quando a cobiça vem sem limite, seja com suástica ou com planilha em dólar, a Amazônia cobra.

(*) é professor Emérito de Língua Portuguesa.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.