Fátima Guedes Ponte Invisível

Ponte Invisível

Eu não entendo como uma pessoa que enxerga o País a volta, vivesuas desigualdades e sabe a causa de suas misérias pode não serdeesquerda - (Luís Fernado Veríssimo - O Condomínio. 1982)

Proletários reagiam ao direitismo burguês, assumindo-se radicais opositores e ocupavam o outro lado da história - Foto: Floriano Lins

Por Fátima Guedes (*)

Vivências e intervivências entre 10.000 e 8.000 (AEC) manifestavam-se de forma acolhedora e pluriversal. As dinâmicas adotadas naquelas sociedades de cunho matrifocal afirmavam que o Ventre da Mãe Terra é Abrigo Ímpar, é Colo Sagrado de acolhimento, sobrevivência e harmonia cósmica. Não havia divisão de pessoas em classes sociais. As decisões eram tomadas coletivamente em assembleias tribais. Inicia-se aí a evolução de sabedorias e culturas intimamente relacionadas a modos de vida dignos e sustentáveis entre a diversidade das espécies, sendo o berço da agricultura e de relações indistintas e legitimamente solidárias.

O tempo físico avançara. Nas contribuições de Sramana*:

“A humanidade moderna evoluiu intelectualmente, aprendeu a produzir, competir, acelerar, mas desaprendeu a sentir e a ouvir os chamados da própria alma.”

E, assim, mudanças estruturais invisibilizaram, entorpeceram consciências e impuseram o memoricídio*, resultando em conflitos sociais, ambientais, econômicos, religiosos; em uma barbárie planetária multifacetada a sobrevivências justas e dignas. Olhares críticos e leituras aprofundadas sobre o ontem e o hoje nos atiçam a consciência, cobrando-nos justas intervenções e possíveis diálogos fundamentados no Bem-Viver*.

No real-concreto da travessia entre os dois tempos (antigo e moderno), são claros e evidentes os bloqueios sistêmicos a percepções e leituras problematizadoras, bem como a uma comunicação clara e acessível à diversidade de grupos sociais, culturais e, principalmente, desvalidos históricos. Os atuais códigos linguísticos impostos em redes ditas de “comunicação”, em teorias acadêmicas, em instituições estatizadas ou não e em propagandas comerciais, amordaçam práticas, jeitos e modos simples de sábias convivências ancestrais, fazendo-se controladores das gerações atuais via alucinógenos alienantes à morte cultural, política e existencial.

Meia palavra basta

Entre as populações antigas, o conceito “alfabetização” relacionava-se ao domínio da leitura das palavras. Era o termo usado na época. Os métodos de ensinar o alfabeto, a leitura e a escrita seguiam a Cartilha do ABC* e o aperfeiçoamento da grafia fazia-se através do Caderno de Caligrafia*. Quem concluía o ensino da Cartilha do ABC era declarado alfabetizado.

Com o sutil avanço da ponte entre os tempos históricos, as palavras e os vocábulos perdem a originalidade e passam ao domínio acadêmico-mercadológico. Alfabetização virou Letramento. Do lado de baixo, enfrentando barrancas institucionais, resistem os alfabetizados; do lado de cima, sob rédeas teórico-burocráticas, o público letrado comanda a história a partir de códigos verbais e não verbais, como visuais, sonoros, místicos etc. Em nossa visão alfabetizante, todo esse emaranhado intelectualista vem produzindo uma outra categoria social: os analfabetizados em contraponto aos analfabetos. Os analfabetizados se vestem de titularidades, tornando-se iscas fáceis do sistema dominante; já os analfabetos, em sua maioria, embora sem “letramentos” ou titularidades, têm mais leitura crítica da própria realidade, reafirmam-se no lado oposto do controle e reagem a trancos e barrancos.

A abordagem nos permite compartilhar memórias sobre os conceitos pautados.

Nos anos 1990, o município de Parintins, no Amazonas, fora contemplado com a digna competência do Dr. Jorge Alberto Mendes, Juiz de Direito, amado por desvalidos e suportado pelas elites. Em um dos encontros com militâncias populares, ele quebrara paradigmas classistas ao reafirmar o real sentido da alfabetização, deixando seu sábio e justo recado:

“No sistema em que vivemos há três tipos de sujeitos: os analfabetos, os alfabetizados e os ligeiramente alfabetizados. Eu, oficialmente, tenho título de Doutor. Sou ligeiramente alfabetizado.”

Na mesma pegada da alfabetização, chegam-nos lembranças do companheiro Eduardo Áureo dos Santos, o Engole Cobra*, trabalhador braçal, brincante original do Boi-Bumbá Garantido e membro do Sindicato dos Estivadores* de Parintins. As frequentes reflexões críticas do companheiro sobre a realidade da classe trabalhadora e do próprio sindicato impactavam grupos técnicos e categorias letradas e graduadas. Por conta desse perfil, fora questionado sobre a própria formação escolar. O companheiro foi claro e preciso:

“Só estudei a primeira folha da Cartilha do ABC. Não tinha tempo nem paciência. Trabalhei desde criança. Se eu tivesse terminado a cartilha toda, acho que hoje eu era um grande ladrão.”

Contestar o quê?!… O dito popular amarra a tese: ao bom entendedor, meia palavra basta!

Volver…

Com a instrumentalização e os avanços tecnológicos, a produção se expande paralelamente a processos de exploração sobre o trabalho humano. Surge o “Estado de Direito” impondo separatismos classistas aos modos de vida trazidos das antigas sociedades: burgueses e proletários. Os proletários reagiam com firmeza e determinação ao direitismo burguês, assumindo-se radicais opositores e ocupando o outro lado da história, a esquerda.

O “Estado de Direito” assumira o comando da vida, dos direitos e dos deveres dos povos. O letramento político-ideológico fluíra como estratégia burguesa dominante: uma ponte invisível de capturação de grupos vulneráveis, tanto em leitura crítica quanto em condições produtivas e opções políticas como esquerda, direita e extrema-direita. Na posição de alfabetizados políticos, insistimos em decodificar a engenharia e a estruturação dessa ponte separatista e, ao mesmo tempo educionista.

Tornou-se fala repetitiva o conceito de “extrema-direita”. Na condição de alfabetizada, nosso entendimento segue as trilhas da problematização: se há extremos, há meios; há pontes que facilitam acessos e fortalecem interesses autocráticos. Sabe-se que a construção de uma ponte necessariamente exige engenharia técnica e apoio estrutural. Em se tratando de alcançar a extrema do lado direito, o que se tem de concreto são pilares invisíveis, estratégicos, artefatos manipuladores de empoderamento, de autosustentação e de autobeneficiamento.

Na condição de alfabetizada, nosso entendimento segue as trilhas da problematização – Arte: Nilson Azevedo

Instigações não param! Que valores ideológicos (políticos, culturais e religiosos), financeiros, tecnológicos e de entretenimento são investidos em máscaras sedutoras para que a burguesia use desvalidos como suporte e base de sustentação para chegar segura, firme e forte à extremidade da ponte? Após a ditadura civil-militar, no final dos anos 1980, Frei Betto trouxe uma análise de conjuntura mostrando a fragilização da esquerda, referindo-se a segmentos ditos progressistas que, após a barbárie militar experienciada no Brasil, não retornaram ao trabalho com as bases populares iniciado pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs)*, por terem se acomodado às regras do poder.

Na mesma frequência, há outros pilares invisíveis influenciando analfabetizados políticos e até segmentos ditos opositores. Intencionalmente, ignoram as engenhosidades da ponte até o extremo. Na sequência, templos invadem periferias sob o alucinógeno “deus, pátria e família”. E, no extremo da ponte, a divina picaretagem oficializa o hospício democrático político-religioso.

São grandes os riscos desta travessia! Vigiai, companheirada! Olhos abertos! Atenção plena!

Nas pegadas de Benjamin Franklin:

“A democracia são duas mucuras* e uma galinha votando para decidir o que será a janta, e a galinha, armada, preparada para contestar o resultado da votação.”

Falares da Casa

  • AEC – Antes da Era Comum. O mesmo que a.C (antes de Cristo). Aneline De Carli e Sílvia Zonatto. Intenção da autoria: utilizar uma expressão neutra em referências religiosas. Mandala Lunar. IPSIS Gráfica e Editora Primavera de 2025. RS.
  • Bem-Viver – Significa Sumak = plenitude; Kawsay = viver, dos falares quíchua, idioma tradicional dos Andes. É usada como referência ao modelo de desenvolvimento que se intenta aplicar no Equador, em longo prazo, e implica um conjunto organizado, sustentável e dinâmico dos sistemas econômicos, políticos, socioculturais e ambientais. A constituição do Equador, (2008), reconhece o direito da população viver num ambiente são e, ecologicamente, equilibrado que assegure sustentabilidade e o bom-viver, sumak kawsay.
  • CEBs– Comunidades Eclesiais de Base – Grupos católicos voltados a vivências cristãs e à luta por justiça e igualdade influenciados pela Teologia da Libertação. Surgiram no Brasil e na América Latina em 1960 e 1970.
  • Engole Cobra –(In Memorian) Autodenominação. Estratégia de autoproteção. Em suas narrativas, trazia relatos de que se alimentava de cobras para ganhar força, resistência e autoproteção.
  • Estivadores – Trabalhadores portuários responsáveis pelamovimentação, arrumação de mercadorias nas embarcações.
  • Cartilha do ABC – Pequeno livro didático usado para ensinar os primeiros passos da leitura e da escrita.
  • Caderno de Caligrafia– Caderno escolar usado para treinar e aprimorar a escrita.
  • Memoricídio – Estado patológico de amnésia coletiva oumemoricídio biocultural, constante na Obra A Memória Biocultural (TOLEDO e BARRERA-BASSOLIS, 2015)
  • SRAMANA, Akaiê. Totem Xamânico. Juquitiba, SP: Ed. do Autor, 2026
  • Mucura – Gambá

(*) é Caboca das Terras Baixas da Amazônia. Educadora popular, pesquisadora de saberes popular/tradicionais da Amazônia. Licenciada em Letras pela UERJ (Projeto Rondon/1998). Com Especialização em Estudos Latino-americanos pela Escola Nacional Florestan Fernandes/ UFJF. Fundadora da Associação de Mulheres de Parintins, da Articulação Parintins Cidadã, da TEIA de Educação Ambiental e Interação em Agrofloresta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular em Saúde (ANEPS). Autora das obras, Ensaios de Rebeldia, Algemas Silenciadas, Vestígios de Curandage, Retalhos de Cidadania e Organizadora do Dicionário – Falares Cabocos.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.