
A exposição das relações familiares no meio artístico frequentemente transita entre o espetáculo e a busca genuína por maturidade. A recente reaproximação entre a atriz e cantora Cleo Pires, de 43 anos, e o cantor Fábio Jr., de 72 anos, seu pai biológico, traz à tona a complexidade dos laços afetivos sob os holofotes da fama.
Durante participação no quadro “Pode Perguntar?”, exibido no programa “Fantástico” no último domingo (2/8), a artista abriu o jogo sobre a reconstrução da convivência com o músico e a importância do acolhimento sem máscaras.
Reencontro e humildade
A conversa foi conduzida por um grupo de pessoas no espectro autista, criando um espaço de escuta direta. Na sabatina, a filha de Gloria Pires pontuou que o retorno do contato só ocorreu porque o cantor assumiu uma postura de reflexão sobre os erros do passado.
“A gente nunca sabe qual foi a questão que fez as pessoas se afastarem. Mas eu acho que, no meu caso, o meu pai teve a humildade e a sabedoria de reconhecer coisas que, pra mim, eram importantes que ele reconhecesse”, disse Cleo Pires ao avaliar que uma reaproximação sem essa etapa seria apenas para manter aparências.
A artista ressaltou a necessidade de validar as próprias dores e sentimentos, sem deixar de compreender as limitações do outro.
“Eu acho que sempre começa por, claro, validar suas dores, validar seus pensamentos, seus sentimentos, mas também entender que a outra pessoa tem várias questões, dificuldades, limitações, e o quanto vale a pena ter aquela pessoa de volta na sua vida. Vai pelo amor e vai pela compaixão, que vai dar tudo certo”, pontuou Cleo Pires.
Apesar das antigas divergências, a atriz destacou que sempre admirou a integridade do pai biológico ao longo da carreira.
Afeição sem rótulos
Paralelamente, a declaração de Cleo reacendeu a discussão sobre a coexistência de figuras paternas na vida adulta. A cantora voltou a exaltar o papel do músico Orlando Morais, casado com sua mãe desde a década de 1980, como uma referência central de paternidade saudável.
“Ah, eu acho que preencheu muitas lacunas. O meu pai Orlando sempre foi um cara muito amoroso. Eu acho que a linguagem de amor dele é atos de serviço. Ele não é muito de pegar, de abraçar, beijar. Ele é aquele cara de quem você não tem dúvida de que te ama, quando ele te ama. E acho que me mostrou também que existem homens legais”, acrescentou a intérprete.
A preferência por chamar Orlando Morais de pai costuma provocar reações acaloradas no ambiente digital. Sobre essa pressão contínua do público, a atriz demonstrou cansaço diante de dogmas sociais.
“Olha, eu não sei por que se tornou uma polêmica. Eu realmente não sei. Tem coisas que estão fora da minha compreensão. E, quanto mais eu tento entender, mais eu me torno alguém que pensaria esse tipo de coisa, e eu não quero ser essa pessoa. Então, eu prefiro não entender”, declared Cleo Pires.
Liberdade e machismo
A entrevista também abordou o período em que Cleo acompanhou a trajetória de seu irmão, o cantor Fiuk, durante a participação dele no programa “Big Brother Brasil” (BBB). Outro ponto marcante da conversa foi a honestidade com que a artista tratou a exposição de sua própria sexualidade ao longo dos anos na mídia, enfrentando julgamentos morais rígidos.
“Eu pensava que falar abertamente sobre o que era natural para mim seria algo libertador. Não para mim, mas para o pensamento que a sociedade tem da mulher, de que ela tem que ser a desejada, mas não pode ter desejo. A gente vive numa sociedade bem reducionista, preconceituosa e machista”, afirmou a cantora.
Ao questionar regras sociais impostas, a cantora finalizou o encontro visivelmente emocionada com as manifestações do público presente na atração.
“Vocês são tão queridos e generosos”, disse Cleo Pires ao agradecer o carinho e a homenagem recebida ao término do programa.
O depoimento reafirma como a superação de ruídos familiares exige coragem, superando a superficialidade de controvérsias virtuais.










