
Entre os dias 15 e 19 de julho, a cidade de Lima, no Peru, sediou o 1º Congresso Internacional de Arqueologia Americana (CIAA 2026). O evento reuniu arqueólogos, pesquisadores e especialistas de diferentes países para discutir as interações socioculturais e espaciais das sociedades pré-hispânicas e originárias das Américas.
Entre os representantes do Brasil esteve a arqueóloga do Instituto Mamirauá, Geórgea Holanda. Convidada pela organização do evento, ela ministrou a palestra “Arqueologias no Médio Solimões: saberes construídos com as comunidades tradicionais”, na qual apresentou experiências e resultados de pesquisas arqueológicas desenvolvidas na região.
O congresso teve como principal objetivo fortalecer o diálogo e a cooperação científica entre pesquisadores do continente, incentivando estudos que ultrapassem as fronteiras nacionais e ampliem a compreensão sobre as conexões históricas, culturais e ambientais que marcaram a antiga América.
Pesquisa colaborativa
Para Geórgea Holanda, a oportunidade permitiu compartilhar experiências construídas coletivamente no Médio Solimões.

“A ideia central da apresentação foi mostrar que existem múltiplas arqueologias no Médio Solimões, desenvolvidas por uma equipe diversa, e destacar que nosso trabalho é construído de forma colaborativa com as comunidades tradicionais. São essas pessoas que identificam sítios arqueológicos, nos levam aos locais onde encontram vestígios e nos ensinam sobre como fazer arqueologia na Amazônia. É um trabalho profundamente ligado às pessoas da região e feito com elas”, afirmou Geórgea Holanda.
A pesquisadora reforçou que o modelo de estudo nasce da própria realidade regional e do respeito ao saber ancestral.
“Quis mostrar uma arqueologia construída de dentro para fora, com profissionais da própria Amazônia. Nosso trabalho é desenvolvido de forma colaborativa com as comunidades, que identificam sítios arqueológicos, compartilham seus conhecimentos e nos ensinam sobre como fazer arqueologia na Amazônia”, acrescentou Geórgea Holanda.

Visibilidade internacional
A arqueóloga enfatizou a relevância de projetar os achados amazônicos em debates internacionais sobre a história das Américas.
“Se a gente comparar a arqueologia do Médio Solimões com outras regiões do Brasil, percebemos que, apesar de mais de 40 anos de pesquisas, ela ainda é relativamente pouco conhecida. Por isso, é muito importante apresentar esse trabalho em um evento internacional, ultrapassando as fronteiras e mostrando para outros países o conhecimento que vem sendo produzido na região”, destacou a pesquisadora.
Nas últimas décadas, os estudos conduzidos junto às populações locais têm sido decisivos para comprovar a densidade histórica e a longevidade da ocupação humana na floresta. As evidências confirmam a presença de povos indígenas na Amazônia há milhares de anos, muito antes da chegada dos colonizadores europeus, redefinindo o entendimento sobre a história do Brasil.
Protagonismo ribeirinho
Muitos dos vestígios do passado permanecem sob o solo das comunidades habitadas atualmente. Por essa razão, os cientistas do Instituto Mamirauá atuam em parceria direta com ribeirinhos e povos indígenas, reconhecendo essas populações como detentoras e guardiãs do patrimônio cultural.
O trabalho conjunto garante que a preservação do patrimônio histórico traga os seguintes avanços para a região:
- Identificação precisa de novos sítios arqueológicos por meio do olhar de quem vive no local.
- Valorização da memória oral e do pertencimento das famílias em relação aos seus ancestrais.
- Reconhecimento dos moradores como agentes ativos e coautores das pesquisas científicas.
- Proteção comunitária dos artefatos e da história dos territórios habitados.
O arqueólogo Márcio Amaral, também do Instituto Mamirauá, explicou que os moradores já compreendem a dimensão ancestral dos achados.
“Das comunidades que escavamos aqui na região, muitas já sabiam da importância desses achados. Sabem que ali viveram seus avós, bisavós, tataravós, enfim, seus ancestrais. Então, essas pessoas acabam sendo as protagonistas de suas próprias histórias, porque são elas que encontram esses materiais, nos informam, e é nossa obrigação acolhê-las e valorizar o material encontrado nos sítios arqueológicos que elas chamam de lar”, afirmou Márcio Amaral.
Esse modelo de arqueologia colaborativa consolida a união entre a ciência de ponta e a sabedoria tradicional, transformando o modo de registrar e preservar a memória da Amazônia para o mundo.
Fonte: ASCOM | Instituto Mamirauá










