
Por Nico Valente
A Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (AADESAM) volta ao centro do debate político amazonense. E não é por apresentar um grande programa de desenvolvimento ou por anunciar resultados extraordinários. Mais uma vez, a agência desperta atenção por questionamentos sobre transparência, volume de recursos públicos e formas de contratação.
A mais recente ofensiva partiu do pré-candidato ao Governo do Amazonas, David Almeida, que anunciou uma ação judicial para exigir, com base na Lei de Acesso à Informação, a divulgação da lista nominal de todos os contratados da AADESAM em 2026, indicando funções, lotações e locais de trabalho.
O ex-prefeito afirma querer verificar se houve utilização da estrutura da agência para fins eleitorais. Trata-se de uma denúncia grave, que ainda dependerá da apresentação de provas e da atuação dos órgãos de controle.
Independentemente do desfecho dessa iniciativa, um fato é incontestável: a AADESAM não aparece pela primeira vez no noticiário em razão de suspeitas ou investigações.
Nos últimos anos, a agência foi alvo de representações no Tribunal de Contas do Estado, de questionamentos sobre processos de contratação, de auditorias que apontaram falhas administrativas e de manifestações do Ministério Público de Contas. Em 2025, por exemplo, o MPC-AM questionou processos seletivos simplificados por possível utilização de vínculos temporários para funções permanentes, situação que pode contrariar a regra constitucional do concurso público.
Também vieram a público auditorias que identificaram indícios de irregularidades em procedimentos administrativos da própria agência, além de apontamentos do TCE-AM relacionados à fiscalização de contratos e programas executados pela instituição.
Agora, a denúncia apresentada por David Almeida acrescenta um novo ingrediente ao debate: o crescimento expressivo dos recursos destinados à AADESAM durante os governos de Wilson Lima.
Segundo levantamento divulgado pelo ex-prefeito, entre 2019 e 2025 foram repassados aproximadamente R$ 1,775 bilhão à agência, com picos justamente em anos eleitorais. Em 2022, os repasses saltaram de R$ 149,5 milhões para R$ 437,7 milhões. Em 2024, chegaram a R$ 358,5 milhões.
É evidente que aumento de orçamento, por si só, não caracteriza qualquer ilegalidade. Governos ampliam investimentos por diversas razões. Da mesma forma, a existência de contratações temporárias não significa automaticamente desvio de finalidade. Mas exatamente por envolver cifras bilionárias e um período eleitoral, a transparência deixa de ser uma opção para se tornar uma obrigação.
Quem administra recursos públicos deve satisfação permanente à sociedade. Quanto maior o volume de dinheiro movimentado, maior deve ser o nível de publicidade, controle e prestação de contas.
Se a AADESAM atua dentro da legalidade, a divulgação da relação de contratados, dos projetos executados e dos resultados alcançados apenas fortalecerá sua credibilidade. Se houver irregularidades, caberá aos órgãos competentes identificá-las e responsabilizar quem for de direito. A pior resposta possível seria o silêncio.
No Amazonas, a sociedade já assistiu a escândalos suficientes envolvendo recursos públicos para compreender que transparência não pode depender da boa vontade dos governantes. Ela deve ser uma regra permanente.
A ação anunciada por David Almeida provavelmente inaugura uma nova frente de embate político na corrida eleitoral de 2026. Mas, acima da disputa entre adversários, permanece uma pergunta que interessa a todos os amazonenses: como está sendo aplicado cada centavo dos quase R$ 1,8 bilhão destinados à AADESAM?
Essa resposta não pertence aos políticos. Pertence ao povo.










