
Por Moisaniel Filho (*)
Quem começa no rádio quase sempre convive com uma mistura de entusiasmo e insegurança. A falta de experiência, tão natural nos primeiros passos da profissão, cria situações que parecem muito maiores do que realmente são. A cada desafio, surgia a dúvida: será que vou dar conta?
Comigo não foi diferente.
Meu sonho era ser locutor. Queria estar diante do microfone apresentando programas, anunciando músicas e conversando com os ouvintes. Mas, quando entrei na Rádio Nacional de São Gabriel da Cachoeira (RNSGC), não havia vaga para locução. A oportunidade que surgiu foi como operador de áudio e da transmissora.
Aceitei sem pensar duas vezes. Quem ama o rádio sabe que nenhuma função é pequena. Cada aprendizado representa um degrau.
Foi então que começaram a surgir algumas missões diferentes. Quando chegava uma autoridade à cidade, ou quando havia alguma inauguração, eu era escalado para fazer as reportagens externas. O curioso é que eu continuava sendo operador de áudio. Repórter era apenas uma função que surgia quando necessário.
Até que um dia o gerente entrou na sala e disse:
“Você vai ao aeroporto entrevistar a comitiva do governo”.
Naquele momento meu coração disparou.
Era o início da década de 1980. A comitiva era composta pelo governador Paulo Pinto Nery, governador do Estado do Amazonas entre 15 de maio de 1982 e 15 de março de 1983, tendo assumido o cargo na condição de vice-governante após a renúncia do então governador José Bernardo Cabral, pelo então candidato ao governo do Estado, professor Gilberto Mestrinho, além de Amazonino Mendes que não concorreria a cargo eletivo, mas foi designado no próximo ano a Prefeito de Manaus por Mestrinho e outras lideranças políticas. Também estava presente Josué Cláudio de Souza Filho, um dos grandes comunicadores do Amazonas, que nesse ano também concorreria ao governo estadual e que muitos anos depois viria a ser meu patrão na Rádio Difusora FM.
Ao lembrar daquele dia, faço aqui um pequeno parêntese.
Entre os integrantes da comitiva estava também José Maria Monteiro, um dos nomes mais respeitados do rádio amazonense. Muito antes de conhecê-los pessoalmente, eu já era ouvinte fiel. Na década de 1970, passava muitas noites acompanhando o programa “Boa Noite, Motorista”, na Rádio Difusora AM, apresentado por Jurandir Vieira e “O Corujão da Madrugada”, com o importante publicitário Edmar Costa. Eram vozes marcantes, inesquecíveis. Ainda hoje consigo lembrar de músicas que embalavam aquelas noites/madrugadas, como “Olho nos Olhos”, de Maria Bethânia, e “Meu Mundo e Nada Mais”, de Guilherme Arantes. São lembranças que permanecem vivas na memória.
Mas voltemos ao aeroporto.
Quando recebi a missão, surgiu um problema inesperado. Eu não tinha roupa adequada. Naquela época eu só usava calça jeans, camiseta e tênis. Às vezes até camiseta cavada. Roupa social simplesmente não fazia parte do meu guarda-roupa.
Comentei isso com o gerente. Ele respondeu sem hesitar:
“Vá de roupa social. Você vai entrevistar o governador”.
Fiquei olhando para ele e pensando:
“Roupa social? Eu não tenho”.
A solução foi recorrer ao Bazar Fortaleza, de propriedade do amigo senhor Moisés. Quem me atendeu foi o também amigo Cizinho, um dos filhos da família. Expliquei minha situação e ele, gentilmente, vendeu-me fiado uma calça social bege e uma camisa branca com detalhes em bege.
Saí dali feliz da vida.
Peguei meu único sapato social, coloquei um cinto e, pela primeira vez, senti-me vestido como um repórter.
Ou quase.
Porque continuava existindo um detalhe muito mais complicado. Eu não fazia ideia do que perguntar.
Nunca havia prestado atenção em como os repórteres conduziam uma entrevista. Não sabia como começar nem como desenvolver uma conversa diante de uma autoridade.
Voltei ao gerente e perguntei:
“Mas o que é que eu pergunto?”.
Ele pensou por alguns segundos e respondeu:
“Primeiro dê as boas-vindas. Depois faça esta pergunta… e depois esta outra”.
Anotei tudo num pequeno pedaço de papel.
Minha primeira famosa cola.
Seguimos para o aeroporto, distante cerca de quatorze quilômetros da cidade. Fui acompanhado pelo motorista da rádio, Francisco Sales, a quem mais tarde apelidamos carinhosamente de Charlie Brown.
O sufoco
Mal chegamos e o avião pousou.
As autoridades desceram rapidamente.
Todos tinham pressa.
Respirei fundo, liguei o gravador e fui em direção ao governador.
Consegui dar as boas-vindas.
Ele começou a responder.
Foi ali que descobri uma das grandes lições do jornalismo político.
Político não precisa de muito incentivo para falar.
Basta abrir o microfone.
Ele faz o restante.
Quando chegou a hora da segunda pergunta…
Veio o desespero.
Meu braço direito já estava cansado de segurar o gravador.
Resolvi passá-lo para a mão esquerda.
Foi exatamente nesse instante que lembrei de um pequeno detalhe.
Minha cola estava no bolso esquerdo.
Como tirar aquele papel dali sem interromper a entrevista? Até hoje não sei como consegui resolver aquele problema. Só sei que meu braço tremia tanto que precisei segurá-lo com a outra mão para tentar esconder o nervosismo. Não adiantou muito. Meu joelho parecia um motor desregulado. Tremia sem parar. Eu suava. As palavras insistiam em fugir.
Naquele momento, fazer duas perguntas parecia muito mais difícil do que entrevistar o Presidente da República.
Mesmo assim… Consegui.
A lição
Terminada a entrevista, voltamos para a rádio.
A reportagem foi ao ar.
E o mundo não acabou.
Muito pelo contrário.
Durante a viagem de volta, Charlie Brown percebeu meu estado de tensão. Em vez de fazer qualquer crítica, colocou a mão no meu ombro e disse com a maior naturalidade:
“É assim mesmo. Todo mundo passa por isso”.
Aquelas palavras me tranquilizaram profundamente.
Hoje, olhando para trás, percebo que aquela manhã representou muito mais do que minha primeira reportagem. Foi o dia em que aprendi que coragem não é a ausência do medo. Coragem é fazer a reportagem mesmo com as pernas tremendo.
E também compreendi outra lição que a vida me daria anos depois. Naquele aeroporto eu via Josué Filho, José Maria Monteiro e tantas outras personalidades apenas como figuras importantes da política e da comunicação. Jamais poderia imaginar que, algum tempo depois, dividiria o ambiente de trabalho com alguns deles.
Naquele dia, eu acreditava estar apenas cumprindo uma missão dada pelo gerente da rádio.
Hoje sei que estava dando um dos primeiros passos para me tornar, de fato, um jornalista.
(*) Os próximos artigos desta coluna serão publicados todos os sábados, trazendo novas histórias, memórias e bastidores marcantes do rádio e do jornalismo. Não perca!
LWIA TAMBÉM:
Tecnologia para extração de ouro sem mercúrio avança com visita técnica ao Rio Madeira






