Voz Sideral Carlos Mendes partiu, mas deixou perguntas que a Operação Prato jamais respondeu

Carlos Mendes partiu, mas deixou perguntas que a Operação Prato jamais respondeu

Por Juscelino Taketomi

Na manhã de segunda-feira (1º/6), fui surpreendido pela notícia que jamais gostaria de saber. Desencarnou o jornalista Carlos Mendes.

A notícia interrompeu um artigo que eu acabara de concluir sobre a Operação Prato. O texto estava praticamente pronto quando soube da partida daquele que talvez tenha sido o mais persistente e profundo investigador civil dos acontecimentos que marcaram o Pará e o Maranhão entre 1977 e 1978.

Percebi, então, que o artigo precisava ser reescrito. Precisava porque eu teria que falar da Operação Prato, mas agora, acima de tudo, teria que falar muito de Carlos Mendes.

Durante mais de quatro décadas de jornalismo, Carlos construiu uma carreira baseada na apuração rigorosa, na independência intelectual e na defesa intransigente do direito à informação. Porém, nenhuma pauta o acompanhou por tanto tempo quanto a Operação Prato.

Se muitos tratavam os acontecimentos como folclore, superstição ou curiosidade, Carlos percorreu comunidades isoladas, entrevistou dezenas de testemunhas, confrontou autoridades militares do governo autoritário da época e registrou histórias que permanecem sem explicação até hoje.

Desmascarando a mentira

Nos últimos anos, Carlos passou a sustentar uma tese incômoda: os documentos já divulgados pela Força Aérea Brasileira não contam toda a história. Maquiam coisas. Mentem.

Em uma de suas últimas grandes exposições públicas sobre o tema, no Youtube, o jornalista destacou três casos que considerava emblemáticos e que, segundo suas investigações, não receberam o devido registro nos relatórios oficialmente divulgados da Operação Prato.

O primeiro ocorreu na Fazenda Jeju, em São Domingos do Capim, no Pará.

De acordo com Carlos Mendes, o episódio aconteceu após o encerramento oficial da Operação Prato, em dezembro de 1977. O principal personagem era um trabalhador conhecido como Expedito, que levou militares até um local onde, conforme seu relato, um objeto teria pousado durante a noite.

No terreno foram encontradas marcas profundas no solo e vegetação queimada. Fotografias foram produzidas pelos militares e atribuídas ao então sargento Nascimento, que teria assumido investigações posteriores ao afastamento do capitão Uyrangê Holanda.

Para Carlos Mendes, a questão central nunca foram apenas as fotografias. O que o intrigava era a ausência dos depoimentos completos de Expedito, dos empregados da fazenda, do proprietário da área e de moradores vizinhos que também teriam presenciado o fenômeno.

Existiriam relatos muito mais detalhados do que aqueles que acabaram chegando ao Arquivo Nacional.

Às margens do Guajará-Mirim

Outro caso ocorreu em uma olaria localizada às margens do rio Guajará-Mirim, na região metropolitana de Belém. Ali surgiu um dos relatos mais extraordinários de toda a Operação Prato.

O protagonista foi Luís Rodrigues, trabalhador da olaria. Ele contou que, ao entrar na mata para verificar armadilhas de caça, observou uma intensa luminosidade entre as árvores. Em seguida, teria visto descer daquela luz uma figura humanoide com aproximadamente um metro e meio de altura.

Assustado, correu pela mata enquanto era perseguido pela entidade. Caiu, feriu-se e só conseguiu escapar ao esconder-se entre arbustos. O episódio mobilizou repetidas visitas da equipe do capitão Uyrangê Holanda à região.

Além de Luís Rodrigues, foram ouvidos pelos militares o gerente da olaria, Paulo Bordalo, o proprietário Paulo Kifer e outras testemunhas ligadas ao empreendimento. Carlos Mendes questionava repetidamente onde estariam esses depoimentos integrais e por que tão pouco material relacionado ao caso foi tornado público.

Para ele, o episódio da Olaria Kifer foi um dos mais impactantes de toda a investigação militar.

O terceiro caso citado por Carlos Mendes ocorreu na Fazenda Fortaleza, no nordeste paraense. Seu principal protagonista era o médico e professor Pedro Rosado, uma das figuras mais respeitadas da comunidade acadêmica do Pará.

Segundo Carlos, Rosado procurou pessoalmente os militares após observar acontecimentos incomuns na propriedade, incluindo relatos de ataques a trabalhadores e animais da fazenda.

Os militares colheram seu depoimento e ficaram impressionados com o nível de detalhamento apresentado. Pedro Rosado teria fornecido fotografias e indicado a existência de registros visuais produzidos na região.

Apesar disso, a Fazenda Fortaleza aparece apenas de forma marginal nos documentos divulgados da Operação Prato. Para Carlos Mendes, esse era um dos exemplos mais claros da distância entre aquilo que foi efetivamente investigado e aquilo que acabou sendo tornado público.

A Ilha dos Caranguejos

Mas a inquietação de Carlos não se limitava ao Pará. Ele costumava lembrar que os acontecimentos começaram ainda no Maranhão, especialmente na Ilha dos Caranguejos, onde a morte do pescador Apolinário e os relatos envolvendo o morador Firmino marcaram os primeiros episódios associados ao fenômeno que posteriormente ficaria conhecido como “chupa-chupa”.

Carlos destacava que esses fatos antecederam a mobilização militar no Pará e jamais receberam o mesmo grau de esclarecimento oficial.

Ao longo de toda a vida, Carlos Mendes insistiu em uma ideia simples: não era necessário aceitar qualquer explicação extraordinária para reconhecer que havia perguntas legítimas sem resposta.

Para ele, a Operação Prato não era só uma discussão sobre objetos voadores não identificados. Era um episódio histórico documentado pelas próprias Forças Armadas brasileiras, envolvendo civis, militares, fotografias, relatórios, investigações de inteligência e centenas de testemunhos espalhados pelo Maranhão e pelo Pará.

Carlos não defendia conclusões prontas. Defendia transparência. Defendia acesso à documentação completa. Defendia o direito de a sociedade conhecer integralmente aquilo que seus próprios órgãos de Estado investigaram.

Carlos Mendes partiu, mas permanecem a Fazenda Jeju, a Olaria Kifer e a Fazenda Fortaleza. Permanecem os nomes de Expedito, Luís Rodrigues, Paulo Bordalo, Paulo Kifer, Pedro Rosado, Uyrangê Holanda, Camilo Ferraz de Barros e Nascimento. Permanecem também as histórias da Ilha dos Caranguejos, de Apolinário e Firmino, no Maranhão. E permanecem, sobretudo, as perguntas.

Creio ser essa a maior herança de um jornalista. Não entregar todas as respostas, mas impedir que as perguntas importantes sejam esquecidas. Carlos Mendes passou a vida fazendo exatamente isso. Agora, cabe aos que ficaram continuar procurando as respostas.

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