
O tratamento de transtornos psiquiátricos complexos ganha novos horizontes com iniciativas que desafiam o modelo tradicional de internação e medicação. No complexo hospitalar de Ville Evrard, localizado na região leste de Paris, um programa pioneiro utiliza burros como mediadores no processo de reabilitação de pacientes com depressão, autismo e esquizofrenia.
A iniciativa joga luz sobre a necessidade de humanizar o atendimento de saúde mental e desperta discussões sobre a eficácia e o reconhecimento científico dessas práticas no sistema público.
Embora a medicina convencional priorize as abordagens farmacológicas, a chamada terapia assistida por animais demonstra resultados práticos que vão muito além do relaxamento, promovendo a reinserção social e o resgate da autonomia dos indivíduos.
Zooterapia na França
O projeto começou de forma experimental idealizado pela enfermeira psiquiátrica Ermelinda Hadey e seu marido François Hadey. A iniciativa partiu da percepção de que o comportamento naturalmente dócil e sociável dos burros poderia estabelecer canais de comunicação com pacientes que não respondem bem aos tratamentos de consultório.
Os animais adotados para a função frequentemente possuem histórico de abandono ou maus-tratos, passando por um treinamento específico antes de entrarem nas sessões. Atualmente, cinco burros integram a equipe terapêutica do hospital francês, convivendo com os pacientes em rotinas de cuidados que envolvem alimentação, escovação e caminhadas guiadas.

Efeito espelho
O progresso observado pelos profissionais de saúde envolve a quebra do isolamento social causado pelas patologias e pelos efeitos colaterais de sedativos potentes. O convívio com os animais exige dos pacientes uma postura ativa, estimulando funções motoras e emocionais que costumam ficar anestesiadas pela rotina hospitalar.
A coordenação do programa baseia a dinâmica no chamado efeito espelho, onde o ato de zelar pelo bem-estar de outro ser vivo desperta no paciente o desejo de cuidar de si mesmo.
- Estímulo para a higiene: A tarefa de escovar o animal e limpar os cascos reflete diretamente na percepção do paciente sobre os seus próprios hábitos de higiene pessoal.
- Organização da rotina: O compromisso com os horários de alimentação dos bichos ajuda a reestruturar a noção de tempo e de responsabilidade diária.
- Desenvolvimento da mobilidade: Pacientes com dificuldades físicas ou severa falta de motivação encontram no deslocamento com o bicho um motivo para caminhar.
- Redução do isolamento: As atividades em grupo ao ar livre estimulam a verbalização e a troca de experiências entre os internos, diminuindo a sensação de solidão.
Consciência e medicação
A resposta dos internados aponta para uma redução imediata nos níveis de ansiedade. Relatos dos frequentadores comparam o alívio provocado pelo contato com a natureza e com os animais ao efeito de tranquilizantes, ressaltando o ganho na qualidade de vida fora das paredes dos quartos.
Uma das pacientes atendidas pelo projeto sintetiza o impacto da atividade ao afirmar que quando tomamos medicação ajuda a relaxar e que é exatamente a mesma coisa, conforme declarou Nathalie. Outro participante do projeto reforça que falar com pessoas e participar de atividades ajuda no dia a dia, segundo explicou Jérôme.
Falta de validação
O programa alcançou o status oficial de unidade de saúde pelo governo local, o que garantiu o financiamento público integral e a contratação de profissionais dedicados. A estrutura foi expandida com a chegada de animais menores, como coelhos e aves, levados até os leitos dos pacientes impossibilitados de caminhar.
Apesar dos benefícios evidentes no cotidiano hospitalar, a zooterapia ainda enfrenta resistência para ser integrada à psiquiatria formal de forma ampla. A falta de pesquisas acadêmicas em larga escala impede que a prática seja adotada como protocolo padrão em outros centros de saúde do continente.
Os idealizadores ressaltam que a atividade não visa substituir as consultas médicas ou as prescrições farmacológicas indispensáveis, mas atua como um acelerador na recuperação da autoestima e da dignidade humana. O desafio atual reside em converter os relatos positivos de melhora em dados científicos capazes de convencer a comunidade médica global.










