
Por João Chebante (*)
Quando uma empresa quebra, a narrativa que estamos acostumados a ouvir é relacionada a questões financeiras (falta de caixa, fim do acesso ao crédito, sem margem de lucro). Mas há um tipo de falência que vem antes disso, mais silenciosa e mais difícil de reverter. É a falência tecnológica, e ela já está em curso em boa parte do mercado brasileiro.
Um levantamento da Galileo Financial Technologies ouviu 600 CTOs e CIOs de empresas de médio e grande porte, e o dado que mais chamou minha atenção é que 79% das companhias brasileiras ouvidas perdem negócios por não terem tecnologia adequada. Não estou falando somente de Inteligência Artificial, mas adoção de sistemas até mais pretéritos, como um CRM, uma ferramenta de gestão de projetos, soluções para promoção da marca, cuidado com os funcionários e prospecção comercial. É um número expressivo, mas o que realmente preocupa não é o tamanho, mas a naturalização.
A urgência ignorada pela diretoria
A maioria das empresas sabe que tem um problema tecnológico, mas pouquíssimas tratam isso como urgência estratégica. O que mais vemos por aí é a “adoção decorativa”, onde a empresa fala em transformação digital nas reuniões de diretoria e segue operando com sistemas fragmentados, dados inconsistentes e processos que dependem apenas de planilhas e de memória humana. Não há a devida inserção tecnológica na cultura do time. No dia a dia, isso significa decisões tomadas no escuro, oportunidades perdidas sem registro e riscos que só aparecem quando já é tarde demais.
O mesmo estudo revela que cerca de 65% dos líderes brasileiros admitiram que lançar um novo recurso tecnológico seria difícil ou impensável no momento por causa de problemas de integração entre sistemas existentes, o que mostra que a limitação não é só de ferramentas, mas de arquitetura. Dados presos em silos não geram inteligência operacional, geram ruído.
O custo da resistência
Tenho visto que as empresas que mais resistem ao investimento tecnológico são justamente as que mais sofrem com ineficiência operacional (a grande maioria por achar que a tecnologia está longe do seu negócio principal, logo é gasto, não investimento), ciclos de venda longos e dificuldade de reter clientes, levando até uma defasagem irreversível.
O que falta, em geral, não é tecnologia, mas disposição para investir de forma estruturada, integrando fontes de dados, garantindo a qualidade da informação e construindo uma base que oriente decisões de verdade. Empresas que operam dessa forma têm ciclos mais curtos, retenção mais alta e capacidade de identificar oportunidades que passariam invisíveis em um modelo analógico, e o retorno desse investimento é mensurável.
Finalizo destacando que o mercado já oferece recursos necessários para automatizar processos, integrar dados e tomar decisões com mais precisão, e o custo de não fazer isso cresce a cada mês. As empresas e gestores que ainda operam com tecnologia superficial estão acumulando uma dívida competitiva que, em algum momento, vai cobrar seu preço.
(*) é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital.





