Apuí Apuí dá lição de preservação e mostra quem realmente protege a Amazônia

Apuí dá lição de preservação e mostra quem realmente protege a Amazônia

Foto: Divulgação/Sema

O que aconteceu nesta semana no Mosaico do Apuí, com a soltura de mais de 2,5 mil filhotes de quelônios, é um daqueles eventos que a mentalidade urbana, viciada em asfalto e telas, dificilmente consegue processar em sua real dimensão.

Não se trata apenas de “soltar bichinhos” no rio. É a execução de uma engenharia de preservação que coloca o homem ribeirinho como o guardião biológico de uma Amazônia que muitos fingem proteger, mas poucos conhecem.

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) deu um passo concreto na manutenção da vida em uma região que é o epicentro de pressões ambientais brutais.

A soltura de tartarugas-da-amazônia e tracajás nas reservas Aripuanã e Guariba é o ápice de um ciclo de paciência e rigor técnico. O projeto não nasce no gabinete, ele nasce na areia dos tabuleiros, onde a sobrevivência de cada ovo depende da vigilância constante das comunidades locais.

Ciência comunitária

O uso da metodologia do projeto Pé-de-Pincha, desenvolvido pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), é o grande diferencial positivo dessa ação. Em vez de uma intervenção externa e artificial, o processo utiliza o saber tradicional aliado ao método acadêmico.

O comunitário não é um espectador, ele é o monitor que coleta, “replanta” os ovos em chocadeiras e protege os ninhos contra predadores.

O ciclo de proteção dos quelônios segue etapas fundamentais para garantir o sucesso da soltura:

  • Identificação: localização dos ninhos nos tabuleiros naturais às margens dos rios.
  • Manejo: coleta e transferência dos ovos para áreas protegidas que simulam o habitat.
  • Monitoramento: acompanhamento diário para evitar a ação de predadores e interferência humana.
  • Fortalecimento: os filhotes permanecem em tanques até que o casco endureça para suportar a vida selvagem.

“Trabalhar com a soltura de quelônios dentro do Mosaico é garantir a preservação dessas espécies e o fortalecimento de um modelo de conservação”, afirmou Aldeíza Lago, gestora do Mosaico do Apuí.

Financiamento estratégico

Nada disso seria possível sem uma estrutura financeira que funcione na ponta. O apoio do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) é o que sustenta essa logística em 24 Unidades de Conservação no Amazonas. Com o Funbio na gestão financeira e a Sema na execução, o recurso chega onde o bicho está. É a prova de que o dinheiro internacional, quando bem gerido, pode sim criar uma barreira real contra a degradação no chamado “arco do desmatamento”.

O Mosaico do Apuí, instituído em 2005, cobre cerca de 2,6 milhões de hectares. Ele não foi colocado ali por acaso. Sua função é ser uma muralha verde contra o avanço predatório na região meridional da Amazônia.

Manter os rios povoados por quelônios é manter a saúde de todo esse ecossistema, garantindo que a fauna continue a cumprir seu papel na dispersão de vida.

Legado vivo

A atividade realizada entre as comunidades Bela Vista do Guariba e Aruanã reforça o sentimento de posse e cuidado com o território. Quando o ribeirinho vê o quelônio ganhar o rio, ele entende que aquela floresta em pé é o que garante o seu futuro e o de sua família.

O sucesso da soltura desses 2.528 indivíduos é uma vitória da inteligência aplicada sobre a força bruta do desmatamento.

O Amazonas mostra, com ações desse porte, que a preservação sustentável não é um conceito abstrato, mas uma prática que exige bota na lama e compromisso com o resultado. Que os filhotes soltos no Aripuanã e no Guariba sejam o símbolo de uma Amazônia que, apesar de todas as ameaças, ainda sabe como arquitetar o próprio renascimento através da cooperação entre ciência e povo.

Fonte: https://www.agenciaamazonas.am.gov.br/noticias/sema-realiza-soltura-de-mais-de-25-mil-quelonios-no-sul-do-amazonas/

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