
Lembra daquela “operação militar rápida” que duraria apenas algumas semanas? Pois é, o despertador mundial acaba de marcar exatos quatro anos do início de um pesadelo que parece não ter botão de desligar. No dia 24 de fevereiro de 2022, a Rússia iniciava a sua invasão em grande escala, prometendo uma resolução relâmpago que, ironicamente, se transformou num dos conflitos mais arrastados e devastadores do século.
Enquanto a comunidade internacional coleciona discursos bonitos, a Ucrânia coleciona escombros e uma resistência que surpreendeu até o mais otimista dos analistas.
A miragem diplomática
Se existe algo mais lento do que o avanço das tropas no inverno rigoroso do leste europeu, são as negociações de paz. As últimas conversações, que tiveram a mediação dos Estados Unidos (EUA), terminaram na “estaca zero” exatamente uma semana antes deste trágico aniversário. O tabuleiro político continua travado na teimosia: Moscovo exige que os ucranianos entreguem a região do Donbass, e Kiev, com razão, recusa-se a embrulhar o seu território para presente.
A exaustão de quem vive sob os mísseis fala por si.
“Eu ouvi uma frase de uma mãe que dizia que nós estamos a morrer pela nossa terra, estamos a morrer pela Ucrânia, a derramar sangue por este território. Não é justo agora cedê-lo ao inimigo, que até há quatro anos era um vizinho nosso. Não aceitamos”, relata Ângelo Neto, vice-presidente da instituição HelpUA.PT, resumindo o sentimento de uma nação que prefere a resistência à rendição.
O império do atraso
Para quem acompanha o conflito desde o primeiro estrondo, a ilusão de um cessar-fogo iminente já foi desfeita há muito tempo. O problema central nunca foi um simples desentendimento fronteiriço, mas sim um projeto de poder com ares de czarismo moderno.
“Acho que este problema está longe de se resolver, porque a sua origem é a própria estratégia de Putin e dos políticos à sua volta, que concebem o país como um império, um regime que quer crescer através da ocupação de outras terras”, pontua Pavlo Sadokha, presidente da Associação dos Ucranianos em Portugal.
Com as perspetivas de fim de guerra cada vez mais fracas, o mundo já começa a entender que o autocrata russo não tem pressa.
O escudo da Europa
A ironia maior recai sobre as grandes potências vizinhas, que assistem ao conflito de camarote, enviando armamentos enquanto a Ucrânia cede o sangue. O perigo de ceder território não afeta apenas o mapa ucraniano, mas a estabilidade de todo o continente.
“Se a Ucrânia cair, o que vai ser da Europa? Porque Putin não vai parar. Quem está a defender os jardins europeus hoje é a Ucrânia”, questiona Ângelo Neto, dando um choque de realidade em quem ainda acha que o problema está muito longe de casa.
O peso silencioso
Por trás das estatísticas frias de tanques destruídos e bilhões de euros gastos em munição, estão as vidas que precisaram de se reinventar da noite para o dia. A cozinheira Mariya Velihotska, que viu o seu negócio em Kharkiv ser engolido pelo caos, resume a ironia cruel do tempo que passou. Ela, como muitos, achava que a insanidade duraria apenas um mês.
“Quatro anos depois, encaro a guerra de forma diferente. Não mais como um choque, e sim como um peso silencioso no meu coração. Ela mudou-me. Tornou-me mais atenta ao tempo, às pequenas alegrias, às coisas simples”, reflete Mariya.
O balanço trágico
Para entender o tamanho do buraco que quatro anos de guerra cavaram no leste europeu, basta olhar para os números que a diplomacia tenta, sem sucesso, resolver:
- Início: a invasão russa completa quatro anos redondos nesta data (24/02).
- Trauma: estima-se quase um milhão de viúvas e órfãos na Ucrânia lidando com depressão e perdas irreparáveis.
- Êxodo: são cerca de 4,3 milhões de ucranianos refugiados apenas na União Europeia (UE).
- Burocracia: programas como o “Título de Proteção Temporária” foram estendidos até (04/03) de 2027 para garantir alguma dignidade aos deslocados.
Fique por dentro
Quatro anos após as primeiras sirenes soarem em Kiev, o conflito russo-ucraniano tornou-se o grande elefante na sala da geopolítica mundial. Entre sanções que parecem não surtir o efeito desejado e promessas de apoio inabalável do Ocidente, o povo ucraniano segue segurando as trincheiras daquilo que muitos consideram ser a principal linha de defesa da democracia na Europa moderna.










