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Senado vira à direita em 2027 e resultado das urnas muda o equilíbrio de forças no Brasil

Plenário do Senado Federal - Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

O resultado das eleições de 2026 produziu uma mudança significativa no Senado Federal. A partir de fevereiro de 2027, a Casa terá uma presença muito mais forte da direita, especialmente do campo político ligado ao bolsonarismo, ao mesmo tempo em que partidos de centro e centro-direita continuarão desempenhando papel decisivo nas negociações.

Das 81 cadeiras do Senado, 54 foram colocadas em disputa neste primeiro turno. O resultado consolidou o Partido Liberal como a maior força da Casa e criou uma nova correlação de forças que poderá influenciar desde a escolha do próximo presidente do Senado até debates sobre o Supremo Tribunal Federal, economia, segurança pública, direitos trabalhistas e reformas constitucionais.

O dado mais expressivo é o avanço do PL. O partido conquistou 19 das 54 vagas em disputa e deverá chegar a 2027 com 28 senadores, formando a maior bancada da legenda desde a redemocratização. O PT, por sua vez, terá nove senadores, enquanto MDB, PP e União Brasil também terão papel importante na formação das maiorias.

Mais do que uma vitória partidária, o resultado revela uma mudança no humor político do eleitorado brasileiro.

O impeachment de ministros do STF

Um dos assuntos mais sensíveis da nova legislatura será a relação entre Congresso e Supremo Tribunal Federal.

A oposição já vinha pressionando pela abertura de processos de impeachment contra ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes. Em setembro, senadores de diferentes partidos defenderam publicamente o afastamento do ministro após a divulgação de informações relacionadas às relações entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O episódio elevou a temperatura política em Brasília e transformou o Senado em um dos principais campos de disputa institucional do país.

Mas existe uma diferença importante entre possuir votos para pressionar e possuir votos para condenar.

Para uma condenação em processo de impeachment de ministro do STF, são necessários dois terços dos 81 senadores, ou seja, 54 votos. A Constituição atribui ao Senado a competência para processar e julgar ministros do Supremo por crimes de responsabilidade.

Mesmo com uma bancada de direita estimada em 49 parlamentares, portanto, seriam necessários pelo menos mais cinco votos para alcançar o quórum constitucional de condenação.

Isso coloca o centro político em posição estratégica.

Centrão poderá decidir as grandes votações

A nova configuração do Senado pode produzir uma situação curiosa.

A direita terá mais força numérica do que nos últimos anos, mas os partidos que não se identificam integralmente com nenhum dos dois polos continuarão podendo decidir votações importantes.

Em uma PEC, por exemplo, são necessários 49 votos, equivalentes a três quintos dos 81 senadores, em dois turnos de votação. Já matérias que exigem maioria absoluta precisam de 41 votos.

A matemática demonstra que a direita terá capacidade para construir maiorias em determinados temas, mas não poderá simplesmente ignorar os demais grupos.

Na política brasileira, sobretudo no Senado, a quantidade de votos é importante. Porém, a capacidade de negociação pode ser ainda mais decisiva.

Alcolumbre terá de administrar um Senado diferente

A mudança também coloca o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, diante de um cenário politicamente mais complexo.

O senador do União Brasil deverá enfrentar uma disputa pela presidência da Casa em 2027 e terá de negociar com uma bancada do PL muito mais numerosa e com um campo conservador fortalecido pelas urnas.

Nos últimos meses, Alcolumbre adotou posições que desagradaram setores do bolsonarismo, inclusive ao resistir à pressão pelo impeachment de Alexandre de Moraes. Em setembro, diante das cobranças, lembrou que havia dezenas de pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e afirmou que a quantidade de solicitações não era algo normal.

Ao mesmo tempo, Alcolumbre se aproximou do governo Lula em pautas de interesse do Executivo.

Dois dias antes do primeiro turno, por exemplo, colocou na pauta do Senado a discussão da PEC que trata do fim da escala 6×1, uma das principais bandeiras do governo. A proposta prevê redução da jornada máxima semanal e dois dias de descanso remunerado.

O movimento foi interpretado politicamente como uma aproximação com o governo, mas também como uma estratégia de Alcolumbre para preservar espaço na disputa pelo comando do Congresso.

Agora, depois do resultado das urnas, a equação ficou mais difícil.

Amazonas também participa dessa mudança

O resultado no Amazonas ajuda a mostrar que a guinada nacional para a direita não significa necessariamente uma vitória uniforme do bolsonarismo em todos os estados.

No Amazonas, Eduardo Braga, do MDB, e Plínio Valério, do PSDB, foram eleitos para as duas vagas em disputa. Braga terminou em primeiro lugar, com 1.240.471 votos, enquanto Plínio alcançou 948.793 votos. Capitão Alberto Neto, do PL, terminou em terceiro lugar e não conquistou uma das cadeiras.

O resultado amazonense é particularmente relevante porque demonstra que o eleitor pode combinar escolhas diferentes em uma mesma eleição.

Enquanto o cenário nacional apontou forte crescimento da direita, o Amazonas reelegeu um político tradicional do MDB e reconduziu Plínio Valério, que possui trajetória de oposição ao governo federal em diferentes momentos.

É uma demonstração de que o mapa político brasileiro continua muito mais complexo do que simplesmente dividir o eleitorado entre esquerda e direita.

Uma nova direita

O fortalecimento da direita no Senado não deve ser analisado apenas como uma vitória eleitoral de um grupo político.

Ele representa também uma responsabilidade.

O eleitor que levou mais parlamentares conservadores ao Congresso poderá cobrar desses representantes resultados concretos em áreas como segurança pública, saúde, educação, infraestrutura, emprego, equilíbrio fiscal e desenvolvimento econômico.

A disputa ideológica pode mobilizar militantes, mas não resolve problemas cotidianos.

Para milhões de brasileiros, a pergunta mais importante continuará sendo muito mais simples.

O Congresso vai melhorar a vida de quem trabalha, paga impostos e enfrenta dificuldades todos os dias?

Essa será uma das principais cobranças sobre a nova composição do Senado.

O risco de transformar o Senado em arena

Existe ainda outro ponto que merece atenção.

A nova composição pode ampliar o enfrentamento entre Congresso e STF. O debate institucional é legítimo e faz parte da democracia. O Senado possui, inclusive, competência constitucional para julgar ministros do Supremo em processos de responsabilidade.

O problema surge quando a disputa política passa a substituir o debate jurídico.

Impeachment não deveria ser utilizado simplesmente como instrumento de retaliação contra decisões judiciais das quais determinado grupo político discorda. Da mesma forma, ministros do STF não estão acima de responsabilização quando houver fundamentos jurídicos previstos na legislação.

A democracia exige os dois lados.

Nem o Supremo pode se transformar em poder sem limites, nem o Congresso pode transformar mecanismos constitucionais de controle em instrumentos de guerra política.

A eleição mudou o Senado

O resultado de 4 de outubro estabeleceu uma nova correlação de forças, mas ainda não definiu completamente o comportamento político do Congresso que tomará posse em fevereiro de 2027.

Há senadores que mudam de posição conforme o tema. Há partidos que integram governos e oposição simultaneamente em diferentes estados. Há interesses regionais que frequentemente se sobrepõem às orientações das direções partidárias.

Por isso, projetar o Senado simplesmente como uma Casa dominada por um único grupo seria uma simplificação.

O PL chega fortalecido. A direita amplia seu espaço. O PT perde terreno relativo. O centro mantém capacidade de negociação. E nomes experientes continuam tendo peso significativo nas articulações.

O que mudou foi o ponto de partida.

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