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Programa de Lula para motoristas de aplicativo fracassa e libera só 13% da meta

Foto: Gerada pó IA

Criado pelo governo federal para injetar 30 bilhões de reais na compra de veículos novos por taxistas e motoristas de aplicativo, o Move Brasil completa pouco mais de três meses de operação sem conseguir atingir os objetivos iniciais. Com uma liberação de crédito que não alcançou nem 15% da meta prevista, a iniciativa expõe um descompasso evidente entre o discurso oficial de incentivo e a realidade financeira enfrentada pelos trabalhadores da categoria.

Regras e números

Gerenciado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a proposta determina que as linhas de crédito sejam concedidas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ou por instituições financeiras credenciadas, que assumem integralmente o risco de inadimplência.

O financiamento possui condições que pareciam atrativas no papel. Ele cobre até 100% do valor do automóvel, oferece carência de seis meses e limita a taxa de juros a 12,6% ao ano para homens e 11,5% ao ano para mulheres, valores que representam menos da metade das taxas médias cobradas no mercado convencional.

Apesar dessas vantagens, os resultados apresentados pelo secretário do MDIC, Uallace Moreira, ao jornal Valor Econômico, mostram o ritmo lento do programa. Em dois meses de funcionamento, foram comercializados 40 mil veículos, totalizando 4 bilhões de reais liberados, volume equivalente a apenas 13,3% do total de 30 bilhões de reais disponibilizados até o prazo final de 15 de setembro.

Barreiras do crédito

A própria gestão federal reconhece que a medida, criada por meio da Medida Provisória 1.359/2026, enfrenta travamentos operacionais, alta taxa de reprovação no crédito e baixo engajamento de bancos privados. Um dos gargalos centrais foi o atraso na entrada em vigor do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), ferramenta criada para diminuir o risco das instituições financeiras.

O FGI começou a funcionar em 2 de julho, duas semanas após o início efetivo do Move Brasil, ocorrido em 19 de junho. Essa demora provocou receio no mercado financeiro e atrasou a concessão dos financiamentos.

Outra crítica recorrente envolve o favorecimento a veículos importados, principalmente de origem chinesa. O regulamento do programa não exige produção nacional nem impõe restrições a carros trazidos do exterior. Dessa forma, a linha financia tanto modelos montados fora do país quanto aqueles produzidos no Brasil com peças importadas em kits, modelo adotado por marcas como a BYD.

Críticas da categoria

Lançado em ano eleitoral como uma tentativa do presidente Lula de reaproximação com os motoristas de aplicativo, o programa pretendia suprir a falta de avanços na promessa de campanha de 2022 sobre a regulamentação do trabalho autônomo nas plataformas.

Na prática, o impacto para quem precisa trabalhar foi considerado nulo pelas lideranças da classe. O presidente da Associação de Motoristas de Aplicativo de São Paulo (Amasp), Eduardo Lima de Souza, que representa cerca de 44 mil profissionais, destaca que 92% da categoria possui restrições no CPF e continua sem acesso ao crédito.

Na avaliação da entidade, o aumento do limite de financiamento para 200 mil reais e a inclusão de modelos híbridos, medida publicada pelo governo no dia 18 para tentar destravar as adesões, não trazem efeito prático. A Amasp aponta que o programa atende somente a parcela de profissionais que já tinha margem financeira, deixando de fora os trabalhadores que pagam valores altos pelo aluguel de veículos por falta de opção.

A liderança também relata falhas na interlocução com o governo. Segundo Eduardo Lima de Souza, propostas para aceitar o histórico de seis meses de pagamentos em dia do aluguel de carros como garantia para negativados foram enviadas a Guilherme Boulos, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, mas não houve resposta. O representante critica o fato de o governo dialogar apenas com sindicalistas que não atuam como motoristas no dia a dia. Procurados para comentar as críticas, o MDIC e a Secretaria-Geral não enviaram respostas.

Análise técnica

Análises econômicas reforçam que a frustração com a medida decorre de lacunas no planejamento inicial e da criação de falsas expectativas em relação à análise bancária.

O professor de Finanças do Ibmec, Samuel Barros, ressalta pontos que explicam a baixa adesão e atuações que poderiam ter corrigido o rumo da proposta:

  • A criação da falsa impressão de que haveria liberação de dinheiro para pessoas negativadas, mensagem indireta absorvida pela população nas divulgações;
  • A ausência de incentivos com capital de baixo risco para atrair a participação ativa dos bancos privados;
  • A falta de um programa paralelo para regularização de CPFs, o que ajudaria na adequação do perfil do trabalhador às exigências bancárias;
  • A necessidade de separar a elegibilidade do programa da análise de crédito propriamente dita, evitando expectativas irrealistas;
  • A oferta tardia de um sistema de garantias mais robusto para os agentes financeiros.

Queda de interesse

A trajetória do Move Brasil repete o padrão de baixo desempenho registrado pelo programa Voa Brasil, lançado em julho de 2024 para oferecer passagens aéreas com desconto a aposentados do INSS sem viagens nos últimos 12 meses. O projeto de passagens aéreas comercializou aproximadamente 52 mil bilhetes até o início de 2026, número que não alcançou 2% da meta original de três milhões de assentos.

O desinteresse do público também fica evidente nos dados de acompanhamento de pesquisas do Google Trends. O termo de busca “Move Brasil” atingiu o topo das consultas na semana do lançamento, entre 13 e 20 de junho, atingindo a pontuação máxima de 100. Nos meses seguintes de julho e agosto, o volume de interesse despencou entre 70% e 80%, estabilizando-se em patamares baixos, entre 20 e 30 pontos, refletindo o esvaziamento da procura pelo incentivo federal.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/automoveis/move-brasil-governo-motoristas-aplicativo-fracassa/

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