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O futuro não é a IA sozinha, é a orquestração entre humanos e máquinas

Por Fabio Caversan (*)

Muito se fala sobre inteligência artificial como uma ameaça aos empregos, especialmente no desenvolvimento de software. Mas, quando olhamos para o que está acontecendo de forma prática, o efeito é exatamente o oposto. A IA está prestes a provocar uma explosão na demanda por software.

E não estamos falando apenas de softwares que “têm IA”. Estamos falando de desenvolvimento de software tradicional.

As ferramentas de IA avançaram a ponto de acelerar etapas que sempre tornaram o desenvolvimento caro, demorado e dependente de talentos escassos. Código, documentação, testes e estruturação de soluções passaram a ser gerados com muito mais velocidade. Ainda assim, o fator humano segue no centro do processo. É o desenvolvedor que revisa, decide, ajusta e realiza a implementação.

Fator humano central

Isso cria uma barreira natural para limitações conhecidas da IA, como alucinações e inconsistências. A inteligência artificial não entrega software sozinha. Ela amplia a capacidade humana. E, uma vez que o software está rodando em um site ou aplicativo, pouco importa se parte do código foi gerada por uma pessoa ou por uma máquina. O que importa é que ele funcione, seja mantido e gere valor.

Esse avanço está destravando uma demanda que sempre existiu, mas era reprimida. Durante anos, muitas empresas deixaram projetos de lado porque o custo não se justificava. Muitos empreendedores abandonaram ideias de aplicativos e soluções digitais pela dificuldade de execução. Agora, esse cenário muda radicalmente.

Projetos mais viáveis

Com mais produtividade, mais projetos se tornam viáveis. Com mais viabilidade, a demanda cresce. E, quando a demanda cresce, o déficit de profissionais, que já é enorme, não desaparece. Pelo contrário. A IA ajuda a cobrir parte desse déficit, ao mesmo tempo em que impulsiona um volume ainda maior de iniciativas digitais.

O resultado é claro. O software vai estar em tudo. No produto, no serviço, no processo, no sofá da sua casa. Esse movimento não é futuro distante. É um efeito imediato.

Ascensão da IA agêntica

Quando olhamos especificamente para produtos baseados em IA, o próximo passo é inevitável. A ascensão da IA agêntica. Agentes virtuais capazes de executar tarefas, tomar decisões e interagir com sistemas já são uma realidade. Mas aqui também vale um alerta importante. Não existe mágica.

As empresas estão percebendo rapidamente que não basta conectar uma IA genérica aos seus dados e esperar que tudo funcione perfeitamente. Para lidar com imprevisibilidade, segurança e confiabilidade, esses sistemas precisam combinar inteligência artificial com elementos determinísticos, como automações tradicionais, regras de negócio e fluxos bem definidos.

Software exige engenharia

Isso significa que cada agente precisa ser pensado, desenhado e desenvolvido para cada empresa e para cada contexto. Mais uma vez, voltamos ao ponto central. IA é software. E software exige engenharia, arquitetura, testes e pessoas qualificadas. O mesmo raciocínio se aplica ao próximo território que começa a ganhar forma. A IA física.

Robôs, drones e agentes do mundo real tendem a seguir o mesmo caminho da IA agêntica. A ideia de um humanoide genérico, capaz de realizar qualquer tarefa, esbarra rapidamente na realidade. O avanço mais consistente virá por aplicações específicas, desenhadas para funções bem definidas, muitas delas nem sequer terão forma humanoide.

Orquestração de agentes

No futuro próximo, o papel das pessoas será o de grandes orquestradoras de agentes virtuais, que operam na nuvem, e de agentes físicos que atuam no ambiente real. Enquanto um agente gera um software, outro pode buscar um objeto físico e um terceiro ajuda a revisar um texto ou analisar dados.

Essa orquestração, no entanto, não é trivial. Exige novas habilidades, novas formas de pensar e uma reeducação coletiva sobre como trabalhar com múltiplas inteligências ao mesmo tempo.

É aí que a discussão sobre hype ganha maturidade. O mercado já entendeu que investir em IA não garante, por si só, retorno. O desafio agora é transformar entusiasmo em resultado, tecnologia em valor real e experimentação em impacto concreto.

Quem conseguir fazer essa transição, com visão estratégica, foco em negócio e engenharia sólida, não estará apenas usando IA. Construirá o futuro do software.

(*) é CTO do Grupo Stefanini, consultoria tech global com mindset AI-First.

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