Transportes O fantasma da paralisação dos caminhoneiros assombra o governo em ano eleitoral

O fantasma da paralisação dos caminhoneiros assombra o governo em ano eleitoral

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O Brasil pode reviver um dos momentos mais tensos de sua economia recente. Entidades que representam os caminhoneiros autônomos em todo o país decidem nesta quinta-feira, 19/3, se irão cruzar os braços e iniciar uma greve nacional. O clima de insatisfação, que vinha sendo abafado, explodiu com a recente disparada no preço do óleo diesel e a denúncia generalizada de que as transportadoras não estão respeitando a tabela do piso mínimo do frete. Com a memória ainda fresca do colapso de 2018, o governo corre contra o tempo para desmobilizar a categoria e evitar um desastre logístico em pleno ano eleitoral.

O peso do óleo diesel

A raiz da atual crise está a milhares de quilômetros do Brasil. O conflito armado entre Estados Unidos e Irã forçou o fechamento do Estreito de Ormuz, uma rota vital por onde escoa cerca de 20% do petróleo bruto mundial. Esse choque externo foi imediatamente sentido nas bombas de combustível brasileiras. Dados do Índice de Preços Edenred Ticket Log (IPTL) revelam que, apenas na primeira semana de março, o diesel S 10 saltou quase 8% na média nacional, com picos assustadores de 17,45% no estado do Piauí.

Para o transportador autônomo, esse aumento é fatal. Segundo Wallace Landim, presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), as transportadoras estão se recusando a repassar esses novos custos para o valor do frete.

“O transportador não pode absorver esse alto custo. A contratação de caminhoneiros por preços abaixo do valor mínimo estabelecido pelo órgão regulador faz com que os custos com aumento nos preços dos combustíveis sejam assumidos pelo trabalhador”, afirmou Wallace Landim.

Pressão nos estados

A mobilização não é apenas retórica e já possui bases sólidas em estados estratégicos para o escoamento da produção nacional. Na Baixada Santista, em São Paulo, o Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens (Sindicam) convocou uma assembleia decisiva. O apoio também vem com força da região Sul.

As entidades que já confirmaram adesão prévia ao movimento grevista são as seguintes:

  • Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava).
  • Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens da Baixada Santista e Vale do Ribeira (Sindicam).
  • Sindicato dos Transportadores Autônomos de Cargas e Contêineres de Navegantes (Sinditac), em Santa Catarina.
  • Associação Nacional dos Transportadores Autônomos de Carga (ANTC), com sede em Itajaí.

A ANTC foi incisiva em seu último comunicado, exigindo que os profissionais deixem de carregar seus veículos a partir do meio dia desta quinta-feira.

“Diante da situação insustentável que estamos enfrentando, com diesel nas alturas, fretes defasados e total falta de respeito com a categoria, chegou o momento de dar uma resposta firme”, diz a nota da ANTC.

Resposta do governo federal

Ciente do risco de desabastecimento de alimentos, remédios e combustível, que poderia paralisar a economia e disparar a inflação, o governo federal montou uma operação de contenção de danos. O ministro dos Transportes, Renan Filho, e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) anunciaram que a fiscalização do piso do frete passará a ser eletrônica e que empresas reincidentes serão proibidas de contratar serviços de transporte.

“A multa, em alguns casos, virou custo operacional. Multa isoladamente não resolve”, admitiu o ministro Renan Filho.

As medidas emergenciais adotadas por Brasília incluem os seguintes pontos:

  • Isenção de impostos federais (PIS e Cofins) sobre o óleo diesel, anunciada pelo presidente Lula e pelo ministro Fernando Haddad.
  • Criação de uma Medida Provisória (MP) com subsídios para produtores e importadores do combustível.
  • Reajuste da tabela de fretes pela ANTT, com aumentos que variam de 4,82% a 7%.
  • Abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar postos de combustíveis por aumento abusivo e especulação.

O fantasma de 2018

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, não poupou críticas aos empresários do setor de combustíveis, acusando-os de usar o conflito no Oriente Médio como pretexto para lucrar.

“Os especuladores estão aproveitando esse clima tenso em função da guerra para tirar proveito da situação, prejudicando a economia popular. Isso é grave”, disparou Fernando Haddad.

A assembleia desta quinta-feira definirá se essas promessas governamentais são suficientes para acalmar a categoria. Se a greve for deflagrada, o Brasil corre o risco de repetir o trauma de 2018, quando 10 dias de bloqueios geraram prejuízos bilionários, afetando desde a indústria até o agronegócio. Em um ano onde a economia tenta se estabilizar e a política ferve, uma paralisação nas rodovias é o cenário que o Palácio do Planalto quer evitar a qualquer preço.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/greve-caminhoneiros-alta-diesel/?ref=veja-tambem

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