
Por Aldenor Ferreira* e Marcos Maurício**
Cantada em “versos e prosas”, a rodovia BR-319 nunca deixou de ocupar o palco das ambições e artimanhas políticas e, atualmente, dos drones “supervoadores”.
A torneira, quando jorra água, é em conta-gotas. Afinal, o que são dez ou vinte quilômetros de asfalto, se comparados ao lamaçal dos outros 405 do “trecho do meio”? E o que são três anos de espera para a construção de uma ponte de concreto armado, se há mais de quarenta pontes de madeira no mesmo trecho? Estão reclamando de quê?
Ironias à parte, chegou o momento de desfilar na avenida, em um ano que, coincidentemente, é de eleições gerais. Em 2026, a BR-319 completa 50 anos de existência oficial, meio século. Cair em ano eleitoral não foi artimanha; foi uma bênção sob medida. Então, já que é assim, vamos à avenida do samba, ou melhor, à estrada.
Antes disso, é preciso dizer que o carnaval, como festa popular, é também um espaço de resistência e deve ser respeitado. Isso é fato. Mas é necessário estar atento ao papel do enredo. A reivindicação do asfaltamento da BR-319 é legítima e imprescindível.
No entanto, assim como a visão romantizada de uma Amazônia intocada é claramente contaminada por um viés colonial, a indignação seletiva, ao chamar atenção unicamente para a precariedade dessa rodovia federal (BR-319), e esquecer de criticar a falência do modelo de gestão rodoviária estadual, acaba por empobrecer o debate, reduzindo seu espectro de abrangência, sua importância política e sua relevância social.
A extinção do DER-AM
É importante reiterar que o Estado do Amazonas, desde a extinção do Departamento de Estradas de Rodagem do Amazonas (DER-AM), em 1995, por iniciativa do chefe do Poder Executivo à época, vem ocupando poções entre as piores rodovias do Brasil, conforme dados amplamente divulgados pela Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Nosso patrimônio rodoviário está sendo destruído em razão da omissão contumaz do poder público estadual. Basta citar os casos de abandono das rodovias AM-364 (Ramal de Democracia), AM-329 (Envira), AM-254 (Autazes), AM-363 (Estrada da Várzea), AM-454 (Anori-Codajás), além do descaso com o cumprimento de prazos nas obras de reconstrução das rodovias AM-010 (Manaus-Itacoatiara) e AM-352 (Novo Airão).
E aqui vão algumas perguntas: não há vagas para essas rodovias nesse samba-enredo? Afinal, assim como na BR-319, há também populações que dependem dessas outras rodovias, ramais e vicinais. O que leva certos políticos profissionais — ou aqueles que pretendem sê-lo — a focar apenas no discurso em torno da BR-319 e silenciar sobre as demais?
Como explicar que os dedos estejam, na maioria das vezes, apontados apenas para o Governo Federal? Estariam nossas rodovias estaduais como um tapete? Longe disso. Então, por onde andam os críticos do abandono rodoviário estadual? Qual é a razão dessa indignação seletiva? Ora, se não há vaga como destaque, que exista ao menos um lugar na velha-guarda.
A rodovia AM-010
É bom lembrar que a rodovia AM-010, por exemplo, foi inaugurada em 1965, e a “BR-319”, em 1976. Se antiguidade não é posto — e aqui não é —, que se reserve ao menos um lugar para essa veterana (AM-010), assegurando-lhe o direito de desfilar juntamente com a “BR-319” e de cobrar, no samba-enredo, providências do governo do Amazonas.
As obras de reconstrução da AM-010 deveriam ter sido entregues no primeiro semestre de 2023 e, até agora, passados quase três anos do prazo inicial, ainda se vê muita lama e precariedade na estrada, sobretudo ao longo da primeira frente de obras, que se inicia no quilômetro 13 e vai até o quilômetro 76,8.
Considerações finais
“O Brasil precisa de povo, não de plateia”, conforme defendo. Que esse grito de resistência não seja seletivo e possa se estender às demais rodovias do Amazonas, abandonadas pelo poder público estadual. Não se trata de escolher entre uma estrada e outra, entre uma esfera de governo e outra, mas de exigir responsabilidade integral sobre a infraestrutura que sustenta a vida econômica e social do Estado.
É muito importante também enfrentar um discurso recorrente que, sob a aparência de identidade regional, acaba por naturalizar a precariedade: o de que o Amazonas não precisa de rodovias porque “suas rodovias são seus rios”.
É verdade que somos privilegiados por termos uma vasta rede de rios navegáveis, fundamentais para o transporte de cargas e passageiros. Eles são estruturantes para nossa história, cultura e economia. Mas não é verdade que, sozinhos, deem conta de toda a dinâmica de mobilidade contemporânea.
Existem municípios, comunidades, cadeias produtivas e serviços públicos que dependem de integração multimodal fluvial e terrestre. Transformar os rios em justificativa para a precariedade das estradas é criar um falso dilema que, no fundo, apenas mascara a omissão.
Concluímos afirmando que infraestrutura não é luxo; é condição para desenvolvimento econômico, acesso a políticas públicas, circulação de bens, fortalecimento da produção regional e até mesmo para a preservação ambiental, que exige presença efetiva do Estado.
O Amazonas precisa de rios fortes e estradas dignas. Precisa de planejamento, capacidade técnica e compromisso político. E precisa, sobretudo, que a indignação deixe de ser seletiva e passe a ser coerente com a dimensão real dos seus desafios.
*O autor é sociólogo | **O autor é advogado e engenheiro civil.
Fonte: https://bncamazonas.com.br/br-319-e-a-indignacao-seletiva-o-enredo-da-omissao/










