
Por Estagiário de Lara (*)
Se você ainda acredita que a função de um deputado ou senador é debater leis, fiscalizar o Executivo ou discutir os rumos da nação, sinto informar que seu conceito de política parou no século passado. Em 2026, o Congresso Nacional consolidou sua verdadeira vocação: transformar-se no maior balcão de negócios da República. As chamadas emendas parlamentares deixaram de ser um instrumento auxiliar para virar o prato principal, a sobremesa e o cafezinho do orçamento público.
Neste ano, a “brincadeira” vai custar nada menos que R$ 60 bilhões aos cofres da União. Desses, R$ 40 bilhões são de execução obrigatória. Ou seja, o governo paga ou paga. Não existe mais debate sobre prioridade nacional; existe o PIX orçamentário para o reduto eleitoral de quem gritar mais alto.
A inflação das emendas e o fim do debate legislativo
É curioso observar a evolução dos números. Em 2025, as emendas somaram R$ 50 bilhões. Aparentemente, não foi o suficiente para asfaltar todas as ruas que levam às fazendas de parentes ou para comprar todas as ambulâncias superfaturadas que o interior do Brasil “precisa”. Em menos de dez anos, os recursos quintuplicaram.
O resultado prático disso é o esvaziamento completo do Legislativo. Plenários vazios, comissões que não debatem nada e uma obsessão monomaníaca por liberar verbas. O mandato parlamentar virou uma espécie de despacho aduaneiro de luxo. A disputa eleitoral não é mais sobre ideias, mas sobre quem tem a caneta mais cheia de tinta para assinar convênios.
O “Centrão” não tem ideologia, tem conta bancária
Esse modelo criou o cenário perfeito para o fortalecimento do grupo político mais pragmático da história: o famoso “Centrão”. Sem identidade programática, sem cor ideológica definida e sem qualquer pudor, esse bloco difuso domina a Câmara e o Senado.
Eles não precisam ter propostas para o Brasil. Eles só precisam controlar o botão que libera o dinheiro. Com uma maioria folgada nas duas Casas, o “Centrão” decide o que anda e o que para. Se a pauta não envolve repasse financeiro ou barganha política, ela magicamente desaparece da ordem do dia. É a privatização silenciosa do Orçamento da União, fatiado em milhares de pedacinhos para garantir a reeleição eterna.
A farra da família e o freio do Supremo
A criatividade para gastar esse dinheiro é digna de prêmio. Vimos de tudo nos últimos anos: asfalto que liga o nada a lugar nenhum, kits de robótica para escolas sem água encanada e repasses generosos para cidades governadas por “coincidência” por parentes diretos dos parlamentares.
A situação chegou a um nível tão absurdo de descaramento que o Supremo Tribunal Federal (STF) precisou intervir. A Corte teve que impor limites para impedir que Organizações Não Governamentais (ONGs) ligadas a familiares de políticos fossem usadas como dutos de escoamento de verba pública. Quando o Judiciário precisa explicar que dar dinheiro para a ONG da esposa não é ético, sabemos que a moralidade pegou as malas e foi embora de Brasília há muito tempo.
Um legislativo caro, autocentrado e desconectado
Reportagens recentes, como a da revista “Oeste”, desenham o retrato fiel desse sistema: um Congresso que custa uma fortuna, decide pouco sobre o que realmente importa e responde apenas aos seus próprios interesses. O eleitor virou um mero detalhe, lembrado apenas a cada quatro anos ou quando é necessário justificar a compra de mais um trator para uma prefeitura aliada.
O que temos hoje não é uma democracia representativa clássica, mas uma “orçamentocracia”. Enquanto as emendas continuarem sendo a moeda de troca oficial, o Brasil seguirá com ruas mal asfaltadas, hospitais precários e políticos com sorrisos largos e bolsos cheios.
(*) Jornalista Independente
Fonte: https://revistaoeste.com/politica/emendas-parlamentares-tiveram-aumento-de-500-em-10-anos/










