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Mistério, fé e dor coletiva marcam estreia de filme sobre Santa Etelvina no São João Batista

Foto: Valdo Leão/ Semcom

A linha tênue entre a dor histórica e a devoção mística ganhou um capítulo marcante na noite de sexta-feira, 15 de maio, no cemitério São João Batista, localizado na zona Centro-Sul de Manaus.

Dezenas de pessoas, entre fiéis convictos, curiosos e admiradores da cultura local, se reuniram em uma atmosfera de forte emoção para assistir à exibição pública do documentário “Etelvina – A Ressignificação da Tragédia”. O evento contou com o apoio operacional da Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp).

A obra foi viabilizada pelo edital de audiovisual da “Lei Paulo Gustavo”, gerido pelo Conselho Municipal de Cultura (Concultura) com recursos do Governo Federal.

Mais do que registrar a tradição religiosa em torno da figura conhecida popularmente como Santa Etelvina, o filme propõe uma análise profunda sobre como a memória coletiva ressignifica episódios de violência extrema, transformando uma vítima de feminicídio em um símbolo eterno de esperança e acolhimento.

Fé que cura a dor

O longa-metragem mergulhou diretamente na intimidade dos devotos que frequentam o espaço sagrado para buscar conforto espiritual.

A construção desse registro histórico e humano foi estruturada com base em detalhes minuciosos de produção:

  • Tempo de desenvolvimento conduzido ao longo de dois anos de intensa pesquisa.
  • Gravações realizadas dentro do próprio cemitério durante os Dias de Finados de 2024 e 2025.
  • Entrevistas em profundidade com mais de 60 pessoas que afirmam ter alcançado graças atribuídas à jovem.

A força dessas narrativas paralelas ajuda a compreender a dimensão de um fenômeno que transforma o luto em uma ferramenta de cura psicológica para os sobreviventes de suas próprias tragédias diárias.

“Eu tinha perdido meus bebês e vivia muito abalada emocionalmente. Foi quando comecei a frequentar o túmulo da Etelvina, fazer minhas orações e pedir força. Depois disso consegui seguir em frente e formar minha família. Hoje, tenho meus três filhos”, relatou emocionada a aposentada Yolanda Moraes.

Esse sentimento de amparo diante do sofrimento também se repete em relatos que envolvem a superação de diagnósticos médicos complexos e a busca por respostas que a ciência não conseguiu dar de imediato.

“A saúde da minha mãe estava muito debilitada e os médicos já não davam muitas esperanças. Eu vim aqui, fiz minhas orações, acendi uma vela e pedi com muita fé. Depois disso ela apresentou melhora e conseguiu se recuperar. Desde então nunca deixei de vir agradecer”, contou a aposentada Cristiane Ladislau.

Espaço de reflexão social

A exibição projeta uma ótica importante sobre a utilização e a ressignificação dos espaços públicos na capital amazonense. Transformar um local tradicionalmente associado à dor em um polo de debate civil e cultural demonstra maturidade social e sensibilidade coletiva.

“Foi mobilizada toda uma estrutura de limpeza, organização e cuidados para receber o público da melhor forma possível. É um documentário que fala de fé, memória e também da nossa história. O cemitério se transformou em um espaço cultural e de reflexão com esse filme”, afirmou o gerente do cemitério São João Batista, Gilmar Farias.

Contudo, o ponto mais sensível e crítico da produção cinematográfica reside no resgate histórico do crime cometido em 1901. Etelvina de Alencar foi brutalmente assassinada pelo ex-namorado, em um episódio violento que culminou na morte de outras quatro pessoas e marcou para sempre a história de Manaus.

Trazer essa memória à tona não serve apenas para alimentar o misticismo, mas para estabelecer um espelho incômodo e necessário sobre a persistência da violência contra as mulheres na sociedade contemporânea.

A devoção popular, sob essa lente analítica, atua quase como uma reparação histórica coletiva diante de uma justiça institucional que falhou no passado.

“O documentário também busca provocar um posicionamento social sobre a violência contra a mulher e como tragédias podem atravessar gerações e ganhar novos significados na memória coletiva”, destacou o diretor do documentário, Cleinaldo Marinho, que fez questão de agradecer à população que prestigiou o evento e abriu o coração para compartilhar histórias tão pessoais.

Ao conectar o passado violento de 1901 com as dores e a religiosidade que atravessam as décadas, a obra consolida-se como um documento essencial.

Ela prova que a fé do povo manauara não é alienante, mas sim uma forma de resistência, justiça poética e preservação de identidades que o tempo jamais conseguirá apagar.

ASCOM: Deborah Azevedo/ Semcom

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