
A saúde pública no Brasil enfrenta um desafio constante no discernimento entre procedimentos estéticos e intervenções reparadoras essenciais para o bem-estar físico e psicológico.
A hipertrofia mamária, caracterizada pelo crescimento excessivo e desproporcional do volume das mamas, ilustra com clareza essa fronteira. Longe de ser uma preocupação fútil, o excesso de peso sobre a estrutura corporal provoca lesões físicas graves, altera a postura e impõe limitações que paralisam a rotina de inúmeras mulheres.
Quando o Sistema Único de Saúde (SUS) viabiliza a mamoplastia redutora, o benefício concedido ultrapassa a cirurgia plástica, entregando a restauração da dignidade humana e o direito de viver sem dor.
O peso invisível da hipertrofia
A hipertrofia mamária acarreta desdobramentos corporais e emocionais profundos. Conforme destaca a cirurgiã plástica Raquel Magalhães, responsável técnica pela “II Jornada de Cirurgias Mamárias”, a mamoplastia redutora lidera atualmente a demanda represada na fila do serviço de Cirurgia Plástica do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV-Ufam).
A médica reforça que a condição precisa ser encarada como uma questão de saúde pública complexa, pois envolve sintomas incapacitantes como:
- Dores crônicas e intensas nas costas, na região cervical e nos ombros;
- Alterações severas na postura e o aparecimento de lesões cutâneas e alergias de pele;
- Limitações severas para a prática de rotinas e exercícios físicos diários;
- Comprometimento direto do desempenho profissional e da qualidade de vida.
Duas décadas de dor silenciada
A trajetória da técnica de enfermagem e socorrista Degeanne Ferreira reflete o drama vivenciado por mulheres que aguardam anos por uma solução médica. Aos 20 anos, Degeanne notou que o tamanho de suas mamas não guardava proporção com seu porte físico, quadro que se intensificou após a maternidade.
Servidora pública e mãe de um adolescente de 13 anos, ela atua diariamente no atendimento de ambulância, atividade que exige movimentação constante no manejo e remoção de pacientes. O impacto em seu cotidiano manifestava-se em dores físicas contínuas e na perda gradual da autoestima.
“São dores constantes nos ombros, cervical e costas, além de dores de cabeça e alergias entre as mamas. Até as atividades físicas de alto impacto ficam prejudicadas, porque o peso e o balanço fazem com que as alças do sutiã machuquem meus ombros”, relata Degeanne Ferreira.
O desconhecimento sobre os direitos assistenciais no próprio setor de saúde retardou seu acesso ao tratamento adequado.
“Era uma realidade distante para mim. Apesar de ser da área da saúde, eu não sabia que poderia realizar essa cirurgia pelo SUS no HUGV”, revela a socorrista, ao externar o sentimento de ver sua demanda finalmente acolhida: “Hoje me sinto abraçada e preparada para ser cuidada. Há 20 anos tenho aguentado calada as minhas dores”.
Mutirão e alívio na fila
Para mitigar a espera das pacientes cadastradas, o Hospital Universitário Getúlio Vargas promove entre os dias 7 e 9 de outubro a “II Jornada de Cirurgias Mamárias do HUGV”, inserida nas ações da campanha “Outubro Rosa”. A mobilização cirúrgica beneficia 12 mulheres diagnosticadas com hipertrofia mamária que já constavam na fila de espera da Cirurgia Plástica e foram encaminhadas por meio do sistema de regulação. A organização enfatiza que a ação não contempla oferta de vagas ou atendimento por demanda espontânea.
A médica Raquel Magalhães ressalta que a iniciativa utiliza a força mobilizadora do “Outubro Rosa” para lançar luz sobre a saúde integral das mamas e fortalecer a rede de apoio assistencial.
“Aproveitamos o conhecido impacto das campanhas do Outubro Rosa para fortalecer uma rede de apoio e informação sobre a importância da saúde das mamas”, explica a cirurgiã plástica Raquel Magalhães.
A conquista do procedimento renova a perspectiva de trabalho e vida de quem atuava limitada pelo sofrimento físico.
“Fazer essa cirurgia é ganhar qualidade de vida. Imaginar que não terei mais essas dores e desconfortos diários me dá alegria, ânimo e liberdade. Inclusive para exercer minha profissão, que exige uma rotina longa e muita mobilidade”, comemora Degeanne Ferreira.
Ensino e cuidado integrado
A programação da “II Jornada de Cirurgias Mamárias” estende o atendimento para o campo preventivo e educativo. Durante o evento, são oferecidos aproximadamente 100 exames diagnósticos direcionados exclusivamente a pacientes previamente agendadas pela regulação pública.
A assistência inclui a realização das seguintes modalidades médicas:
- Mamografias preventivas;
- Ultrassonografias das mamas;
- Ultrassonografias transvaginais.
O encontro cumpre ainda papel crucial na formação acadêmica, reunindo estudantes de medicina e médicos residentes das especialidades envolvidas. O modelo integra a prestação de serviços à comunidade com o aprimoramento prático dos futuros profissionais de saúde do país.
Gestão e rede hospitalar
O suporte institucional que possibilita a realização da jornada decorre da estrutura administrativa dos hospitais universitários federais. O Hospital Universitário Getúlio Vargas faz parte da Rede HU Brasil desde o ano de 2013. A estatal foi criada por meio da Lei nº 12.550/2011, sob a denominação oficial de Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), e atua vinculada ao Ministério da Educação (MEC). Atualmente, a entidade é responsável pela gestão unificada de 47 hospitais universitários distribuídos em 25 unidades da federação.
Serviço do evento
- O quê: “II Jornada de Cirurgias Mamárias do HUGV”
- Quando: 7 a 9 de outubro de 2026
- Onde: Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV-Ufam)
- Atividades: realização de palestras, exames preventivos e cirurgias de redução de mama
Fonte: ASCOM: Anik Espara e Emiliana Monteiro/ HUGV










