
O colapso do Banco Master, inicialmente tratado como mais um episódio do turbulento histórico financeiro envolvendo o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, ganhou contornos muito mais graves ao atingir diretamente o coração do serviço público do Amazonas.
No centro do escândalo está o Amazonprev, fundo de previdência dos servidores estaduais, que pode ter perdido ao menos R$ 50 milhões em aplicações de alto risco feitas pouco antes da quebra da instituição financeira.
As revelações mais recentes indicam que o banco utilizou terrenos atribuídos a Ronaldinho, em Porto Alegre, como lastro para a emissão de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) que somariam R$ 330 milhões.
Esses papéis, baseados em empreendimentos que nunca saíram do papel, foram usados para atrair grandes investidores institucionais — entre eles, o fundo previdenciário do Estado do Amazonas.
A “caixa preta”
De acordo com investigações conduzidas pelo Ministério Público do Amazonas (MP-AM) e pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), o Amazonprev aplicou pelo menos R$ 50 milhões em Letras Financeiras (LFs) do Banco Master. O detalhe mais grave: esse tipo de aplicação não conta com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Na prática, isso significa que o fundo previdenciário dos servidores amazonenses ocupa uma das últimas posições na fila de credores da massa falida do banco — com chances reais de não recuperar praticamente nada.
Auditorias do TCE-AM também investigam uma verdadeira “caixa-preta” envolvendo outros R$ 250 milhões aplicados de forma indireta, por meio de fundos de terceiros.
Segundo os órgãos de controle, essas decisões teriam sido tomadas sem a devida aprovação do Conselho de Administração do Amazonprev, configurando falhas graves de governança e possível violação das normas que regem a gestão de recursos previdenciários.
Rombo gigante
O impacto do escândalo vai muito além do mercado financeiro. Caso os valores investidos não sejam recuperados, o Governo do Amazonas poderá ser obrigado a cobrir o rombo com recursos do Tesouro Estadual, conforme entendimento do Governo Federal sobre a garantia do pagamento de aposentadorias e pensões.
Em outras palavras, o prejuízo pode recair diretamente sobre os cofres públicos, afetando investimentos em áreas essenciais e pressionando ainda mais as contas do Estado — tudo para assegurar que os benefícios dos servidores não sejam atrasados.
Enquanto a defesa de Ronaldinho Gaúcho sustenta que o ex-jogador jamais autorizou o uso de seus imóveis como garantia — alegando inclusive que os terrenos enfrentam dívidas de IPTU e entraves ambientais —, o funcionalismo amazonense observa com apreensão o avanço das investigações.
O escândalo do Banco Master conecta dois Brasis profundamente distintos: o do glamour do futebol e o da dura realidade fiscal das previdências estaduais.
No meio desse caminho, ficaram ativos “fabricados”, decisões de investimento temerárias e um risco bilionário que ameaça recair sobre o contribuinte amazonense.
A pergunta que não quer calar agora não é apenas onde está o dinheiro, mas quem autorizou, quem se beneficiou e quem vai pagar a conta no Amazonas.










