Geral Enquanto a miséria grita, o ‘Calha Norte’ banca luxos e levanta suspeitas...

Enquanto a miséria grita, o ‘Calha Norte’ banca luxos e levanta suspeitas de uso político

Píer turístico de Macapá reformado e revitalizado com recursos do programa federal Calha Norte conta até com bondinho elétrico Pedro – Foto: Labigalini/Folhapress

Uma investigação detalhada divulgada pela Folha de S.Paulo expõe como os recursos do programa federal ‘Calha Norte’ estão sendo distribuídos de forma desigual na Amazônia Legal.

O caso que mais chama a atenção é o contraste entre Melgaço, no Pará, e Macapá, no Amapá. Enquanto o prefeito paraense Zé Viegas (MDB) questiona se o programa realmente atende todo o Brasil, a capital amapaense exibe obras luxuosas.

Melgaço detém o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país e convive com lixões a céu aberto, enquanto Macapá, com IDH alto, revitalizou um píer turístico com direito a bondinho elétrico.

O desvio da finalidade estratégica

Uma auditoria realizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) revela que o programa, criado em 1985 com fins de defesa nacional, tornou-se um duto de emendas parlamentares.

Entre 2015 e 2024, o montante movimentado ultrapassou R$ 4,5 bilhões. No entanto, os técnicos do tribunal apontam que 80% desse valor foi destinado a apenas 10% dos 783 municípios atendidos.

Mais grave ainda é o fato de que apenas 2,5% das localidades concentraram metade de todos os repasses realizados no decênio.

Os números da desigualdade são claros:

  • Municípios com IDH alto ou médio receberam quase 70% das verbas do programa.
  • Localidades com IDH baixo ou muito baixo tiveram uma cobertura de apenas 34,7%.
  • Cerca de 21,64% dos municípios situados na faixa de fronteira foram completamente ignorados pelo atendimento.
  • Das 783 cidades atuais, 589 foram incluídas apenas no período entre 2016 e 2022.

A farra das emendas em Macapá

A região metropolitana de Macapá, que inclui o município de Santana, lidera o ranking de recebimento de verbas, somando cerca de R$ 500 milhões em 215 convênios.

Esse valor representa 11% do total geral do programa. O investimento financiou a reforma do Píer Eliezer Levy, reduto político do senador Davi Alcolumbre (UB-AP).

Além da capital do Amapá, outras cidades foram amplamente beneficiadas: Boa Vista recebeu R$ 415 milhões, Porto Velho contou com R$ 235 milhões e Rio Branco obteve R$ 200 milhões.

O sofrimento real em Melgaço

Em Melgaço, a realidade é o oposto do brilho amapaense. O município ocupa a 5.203ª posição no Ranking de Eficiência dos Municípios da Folha entre os 5.276 avaliados. A cidade não possui nenhuma rede de esgoto e apenas 12% dos moradores contam com água encanada.

O lixo é despejado em uma área de mata cercada por lagoas, onde resíduos hospitalares e domiciliares são queimados em fogueiras improvisadas.

O prefeito Zé Viegas afirmou que a gestão adquiriu terrenos para aterros sanitários e espera iniciar a transferência do lixo a partir de julho.

A falta de critérios técnicos

O Ministério da Defesa, responsável pelo programa até o início de 2025, alega que a indicação dos municípios é prerrogativa exclusiva dos parlamentares. Segundo a pasta, não cabe ao governo selecionar as cidades com base em indicadores socioeconômicos.

A Câmara dos Deputados reforçou que a motivação da escolha deve ser buscada com os autores das emendas, enquanto o Senado não se manifestou.

O TCU concluiu que o programa sofre de falta de transparência, ausência de diagnósticos realistas e descontrole orçamentário, falhando em sua missão estratégica original.

“Nossa gestão começou agora em 2025. Até então não teve nenhum contato com a gente, muito menos alguma emenda”, lamentou o prefeito de Melgaço ao descobrir a existência das verbas.

O cenário desenhado pela reportagem é de um programa que privilegia redutos eleitorais em detrimento das populações que vivem em situação de vulnerabilidade extrema na Amazônia.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/04/emendoduto-na-amazonia-promove-desigualdade-e-descontrole-de-verbas.shtml

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.