
A decisão de diversas prefeituras gaúchas de reduzir a frota de ônibus para preservar estoques de combustível acende um alerta que vai além das fronteiras do Rio Grande do Sul. O cenário atual, marcado pela incerteza no abastecimento e pela disparada dos preços internacionais, revela o quanto a mobilidade urbana no país é vulnerável a fatores externos. Embora o governo federal negue o desabastecimento, a cautela dos gestores municipais reflete o medo de um colapso em serviços essenciais, como o transporte de pacientes e estudantes.
Impacto municipal
O levantamento da Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) aponta que 142 cidades já enfrentam problemas para garantir o diesel. O corte na frequência das linhas de ônibus, principalmente nos horários de menor movimento e aos finais de semana, é a primeira barreira encontrada pelas prefeituras para evitar a paralisação total.
- Rio Grande: A empresa Transpessoal ampliou os intervalos de 15 para até 25 minutos desde o dia 10 de março.
- Bento Gonçalves: A operação será suspensa aos domingos e reduzida aos sábados na segunda quinzena de março.
- Novo Hamburgo: A partir deste sábado, 21 de março, 29 linhas passarão por readequação de horários.
“Essa situação tende a se agravar se nenhuma medida de garantia do abastecimento for tomada. Temos o risco de que isso afete o transporte escolar e o transporte de pacientes para outras cidades”, afirmou Adriane Perin de Oliveira, presidente da Famurs.
Pressão internacional
A raiz do problema está a milhares de quilômetros de distância, nos conflitos no Oriente Médio. O bloqueio ou instabilidade no Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, causou um choque de oferta global. O preço do barril saltou de US$ 60 para US$ 115, o que pressiona as distribuidoras brasileiras a racionarem o envio de produtos aos postos para evitar prejuízos ou quebra de estoque.
A Petrobras (PETR4), que deixou de atuar na distribuição direta em 2021, esclareceu que sua parcela no preço final é limitada e segue indicadores globais. Já a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) monitora a situação, mas mantém o discurso de que não há falta de combustível em nível nacional, classificando a crise atual como uma limitação logística temporária.
Respostas políticas
O governo federal tentou conter a alta dos custos com a proposta de zerar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a importação de diesel, mas encontrou resistência dos governadores. Diante do impasse, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a isenção de impostos federais e uma subvenção financeira para importadores, tentando aliviar a ponta do consumo.
A realidade nas ruas gaúchas mostra que medidas burocráticas demoram a chegar ao tanque dos ônibus. O desafio da gestão pública em 2026 é equilibrar as contas diante de um mercado global volátil, enquanto o cidadão comum, que depende do transporte coletivo para trabalhar ou buscar atendimento médico, é quem paga a conta da espera.
A crise gaúcha é um sintoma de que a matriz de transporte brasileira, extremamente dependente do diesel, precisa de alternativas mais resilientes para evitar que a população fique parada a cada nova tensão internacional.










