
Enquanto a maioria se prepara para os blocos de rua e desfiles, moradores e lideranças de comunidades ao longo da Rodovia Manoel Urbano (AM-070) escolheram um enredo bem diferente para este domingo de carnaval. A folia dará lugar à luta pela sobrevivência ambiental e econômica de uma das regiões mais promissoras do estado. O movimento “Lixão, não; vida, sim!”, que já resiste há quase cinco anos, convocou uma grande manifestação para as 8h30, no quilômetro 19 da estrada que liga Manaus a Iranduba e Manacapuru.
Não se trata apenas de um ato simbólico. É um grito de socorro contra o projeto da empresa Norte Ambiental, que pretende instalar um aterro sanitário de proporções gigantescas na área. O medo de quem vive ali é que o progresso sustentável seja soterrado por toneladas de detritos.
O protesto
A concentração está marcada para começar cedo e deve paralisar as atenções na rodovia até o meio-dia. Moradores entre os quilômetros 13 e 25, além de áreas adjacentes, prometem ocupar a via pública pacificamente, mas com firmeza. O objetivo é claro e não deixa margem para dúvidas: barrar a construção do empreendimento que ameaça mudar radicalmente o perfil da região.
O projeto
Os números do projeto da Norte Ambiental assustam. Com um investimento previsto superior a R$ 200 milhões, a intenção é criar um local capaz de receber cerca de três mil toneladas de lixo diariamente. Esses resíduos viriam de várias cidades da Região Metropolitana de Manaus, transformando o coração da estrada turística em um depósito regional de rejeitos.
Riscos reais
Para quem vive da terra e do turismo, a conta não fecha. Lideranças locais apontam que a instalação do aterro é uma sentença de morte para cerca de 70 nascentes de água que irrigam a vida na região. Além do desastre hídrico, há o impacto direto na agricultura familiar e nos atrativos turísticos que geram renda para centenas de famílias.
Outro ponto crítico levantado é a segurança aérea. A decomposição de lixo a céu aberto ou em aterros inevitavelmente atrai urubus. Como a região é rota de aviões, o risco de acidentes aéreos causados por colisão com aves, o chamado “bird strike”, torna-se uma ameaça real e iminente.
Vitória temporária
A mobilização já mostrou força nesta semana. Denúncias do movimento “Lixão, não; vida, sim!” apontaram que mais de 40 hectares de mata nativa estavam na mira das motosserras para dar lugar ao lixo. O desmatamento chegou a começar, mas a pressão popular surtiu efeito rápido. A Prefeitura de Iranduba, através da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semas), embargou a obra, garantindo um fôlego extra para a mata e para os manifestantes.
Ecos da COP 30
A batalha da AM-070 já ultrapassou as fronteiras do Amazonas. Em novembro de 2025, durante a 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30), realizada em Belém, no Pará, representantes das comunidades entregaram uma carta diretamente à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a assessores do presidente Lula. O documento detalha os riscos irreversíveis do projeto.
A manifestação deste domingo é a prova de que a população não vai esperar sentada pelas decisões de gabinetes. Como dizem os organizadores: “nossa vida vale mais que o lixo de R$ 200 milhões”.
Erro estratégico
A polêmica ganhou reforço de peso com a análise de especialistas. O professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), André Costa, doutor em administração, classificou a ideia como um equívoco grosseiro. Ele relembra a expectativa positiva da população com o desenvolvimento da região, mas alerta para o retrocesso.

“Surge em Iranduba ideia de ‘jerico’ que ameaça estragar uma das principais chances da Região Metropolitana de Manaus provar sua capacidade de gestão ambiental: Fazer aterro concorrente ao de Manaus, logo após a Ponte do Rio Negro”, disparou o professor.
Ameaça logística
A crítica de André Costa recai pesadamente sobre a logística do projeto. A intenção de receber lixo de diversos municípios, como Itacoatiara, Presidente Figueiredo e Rio Preto da Eva, implicaria em caminhões de lixo cruzando áreas turísticas e a própria Ponte Rio Negro.
Para o especialista, essa movimentação coloca em risco o solo rico da região, conhecido pela terra preta e fundamental para o abastecimento de alimentos. Isso contradiz a lógica de integração metropolitana. Ele sugere que, se os municípios querem soluções próprias, deveriam transformar seus lixões em aterros menores e modernos, em vez de exportar o problema.
Alternativa econômica
Como solução ao aterro de lixo comum, o professor propõe que a área em Iranduba tenha uma destinação mais nobre e rentável, focada no Polo Industrial de Manaus (PIM).
“Faça naquele terreno o maior projeto de economia circular da região, tratando especificamente de insumos e produtos do PIM. São bens duráveis valiosos, fáceis de serem retornados ao mercado, e com empresas multinacionais ávidas para demonstrarem ganhos ambientais às suas matrizes no Primeiro Mundo”, sugeriu Costa.
Ele conclui com um conselho direto aos empreendedores sobre a possibilidade de lucrar sem destruir a reputação.
“Ou seja, dá para ganhar dinheiro fazendo o certo, dormindo bem à noite com a consciência tranquila, e sem reforçar na população o sentimento de ojeriza à sua marca”, finalizou.











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