
Por Estagiário De Lara (*)
Uma reportagem divulgada pela Folha de S.Paulo trouxe à tona um debate que coloca a nossa região em um cenário de pavor mundial. Um grupo de 20 pesquisadores de instituições renomadas publicou uma carta na revista “Science” alertando que a pavimentação da BR-319 pode ser o gatilho para uma nova crise sanitária global.
Como jornalista e defensor do desenvolvimento do nosso estado, vejo esse alerta com seriedade científica, mas não posso ignorar a forma como o mundo nos enxerga apenas como um reservatório biológico, esquecendo as vidas humanas que dependem dessa estrada.
O estudo aponta que a rodovia corta um local com mais de 18 mil patógenos, entre vírus e bactérias desconhecidos. A preocupação dos cientistas é que o asfalto conecte esse ecossistema selvagem diretamente a aeroportos internacionais, facilitando a propagação de doenças em uma velocidade sem precedentes.
Perigo global
O documento assinado por especialistas da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) afirma que o desmatamento no centro da floresta intocada é um risco real. Diferente das áreas de borda, o interior da Amazônia guarda microrganismos que o corpo humano nunca enfrentou.
Os grandes rios da nossa região sempre funcionaram como barreiras naturais para essas comunidades microscópicas. Com a pavimentação definitiva, essas barreiras deixam de existir.
O biólogo Lucas Ferrante, autor principal do artigo, reforça que estamos lidando com um perigo invisível que pode escapar para o mundo em poucas horas através do fluxo de veículos e pessoas.
Prejuízo econômico
A carta na “Science” também toca em um ponto sensível para o Brasil. Alguns dos vírus encontrados podem afetar diretamente grandes plantações de cana-de-açúcar e soja, além de atingir rebanhos bovinos. Para os pesquisadores, uma falha na biossegurança da estrada poderia quebrar a economia nacional caso uma praga rural saia do controle.
Eles lembram que surtos zoonóticos já ocorrem por aqui. A nova linhagem do vírus Oropouche surgiu no trecho central da rodovia e já alcançou outros países da Europa e da América. O exemplo da variante Gama do coronavírus, identificada primeiro em Manaus, é usado como prova de que a nossa logística influencia a saúde de todo o planeta.
Nossa realidade
Entendo perfeitamente o rigor científico e a necessidade de proteger o mundo de novas pandemias, mas precisamos falar sobre a realidade do povo amazonense.
Não podemos aceitar que o Amazonas continue sendo tratado como uma ilha isolada sob o pretexto do medo global.
Manter a BR-319 em estado de abandono é condenar milhões de brasileiros a um isolamento que encarece a comida, dificulta o transporte de oxigênio e impede o crescimento básico.
O asfalto não é um inimigo, desde que venha acompanhado de uma governança de excelência. A solução não deve ser o veto à obra, mas sim a aplicação rigorosa do “Programa Saúde-Única”.
Precisamos de tecnologia e fiscalização para monitorar o trecho e evitar invasões ilegais ou riscos sanitários.
Futuro viável
O Ibama informou que está analisando os dados enviados pelos cientistas. Atualmente, o governo federal utiliza as novas regras da lei de licenciamento de 2025 para tentar agilizar a manutenção da via.
Minha posição é clara, a ciência deve nos guiar para uma obra segura, mas nunca para a paralisia total.
O direito de ir e vir por via terrestre é uma necessidade vital e um direito constitucional que não pode ser negado ao povo do Norte.
O mundo que tanto se preocupa com os nossos vírus deveria também se preocupar com as soluções tecnológicas que permitam o nosso desenvolvimento sem isolamento.










