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Amazonas mapeia potencial do hidrogênio de baixo carbono e mira novos usos para energia

Foto: Marivaldo Junior

O Amazonas deu mais um passo nas discussões sobre novas fontes de energia com a apresentação do Mapa do Hidrogênio de Baixo Carbono do Amazonas, estudo que identifica possibilidades de produção e utilização do combustível no estado.

O levantamento foi apresentado na terça-feira, 18 de agosto, durante o workshop “Perspectivas do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono no Estado do Amazonas”, promovido pela Eneva, em Manaus.

O estudo foi elaborado dentro do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e integra o projeto “Aproveitamento Energético de Plantas Oleaginosas na Região Amazônica”.

À frente da apresentação esteve Guilherme Dantas, sócio diretor da Essenz Soluções e responsável pelo estudo. O trabalho procura identificar onde o hidrogênio de baixa emissão pode fazer sentido dentro das características econômicas, industriais e geográficas do Amazonas.

O mapa aponta aplicações que vão além da produção de combustíveis. Entre elas estão o uso em empilhadeiras de operações industriais e logísticas, a geração de energia em localidades isoladas e alternativas para reduzir emissões nos setores de transporte e indústria.

Novo cenário

O lançamento ocorre em um momento de avanço da regulamentação brasileira para o setor. Em 12 de agosto, o governo federal regulamentou o marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono, criando regras para estimular o desenvolvimento dessa cadeia energética no país.

A legislação brasileira passou a tratar o hidrogênio de baixa emissão como parte de uma estratégia mais ampla de transição energética, com instrumentos voltados à pesquisa, produção e desenvolvimento industrial.

No Amazonas, a discussão ganha características próprias. As grandes distâncias, a presença de comunidades isoladas e a dependência de combustíveis fósseis em parte da geração de energia e do transporte tornam a busca por alternativas uma questão também logística e econômica.

Estudo regional

Guilherme Dantas – Foto: Divulgação

Durante a apresentação, Guilherme Dantas destacou a necessidade de pensar a transição energética levando em conta as particularidades da Amazônia.

O mapa desenvolvido pela Essenz Soluções procura justamente estabelecer essa relação entre tecnologia e território. Em vez de importar um modelo pronto de outras regiões, o estudo considera as atividades existentes no estado e as possibilidades de utilização do hidrogênio dentro dessa realidade.

A proposta envolve desde equipamentos utilizados na indústria até sistemas capazes de atender localidades afastadas dos grandes centros.

Diesel verde

Paralelamente ao mapa, a Eneva desenvolve um projeto para produzir HVO, sigla em inglês para Hydrotreated Vegetable Oil, conhecido no Brasil como “diesel verde”.

A pesquisa recebeu investimento de R$ 11,9 milhões e busca desenvolver uma rota tecnológica para transformar óleos extraídos de espécies amazônicas em combustível renovável.

O projeto envolve a Eneva, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a Essenz Soluções e o Instituto SENAI de Inovação. Ao todo, 15 oleaginosas amazônicas estão sendo analisadas.

Entre as espécies avaliadas estão açaí, buriti, bacaba, patauá, pupunha, piquiá, mari-mari e caiaué.

Pesquisa avança

Márcio Lira – Foto: Divulgação

O coordenador de Relações Institucionais da Eneva na Região Norte, Márcio Lira, fez uma ressalva importante sobre o estágio atual da iniciativa.

Segundo ele, o trabalho ainda está no campo da pesquisa e desenvolvimento. Ou seja, não se trata de um combustível produzido comercialmente em larga escala no Amazonas.

“Estamos falando de pesquisa e desenvolvimento. A gente não está falando ainda de uma solução comercial pronta”, afirmou Lira durante a apresentação do projeto.

A declaração ajuda a dimensionar o que está sendo desenvolvido. Antes de uma eventual produção comercial, os pesquisadores ainda precisam identificar quais espécies apresentam melhor desempenho, verificar a disponibilidade de matéria-prima e entender em quais regiões uma cadeia produtiva poderia funcionar.

Frutos testados

A pesquisa parte de uma característica que diferencia o Amazonas de outros mercados de biocombustíveis. A região possui uma grande variedade de espécies oleaginosas que podem fornecer matéria-prima.

Mas ter óleo disponível não significa, por si só, que uma produção industrial seja viável.

Os pesquisadores precisam analisar a produtividade das espécies, a quantidade disponível ao longo do ano, os custos de coleta e transporte, além da capacidade de manter o fornecimento necessário para uma operação contínua.

O caso do buriti é um exemplo. Uma eventual produção em escala exigirá estudos para determinar se a quantidade de frutos disponível é suficiente para atender à demanda sem comprometer a dinâmica natural da espécie.

Hidrogênio

O hidrogênio também aparece diretamente ligado ao projeto do diesel verde.

Na produção do HVO, o óleo vegetal passa por um processo de hidrotratamento que utiliza hidrogênio para promover as reações químicas necessárias à transformação da matéria-prima em combustível.

É justamente nesse ponto que os dois projetos apresentados pela Eneva se encontram. O mapa procura identificar possibilidades para a produção e utilização do hidrogênio, enquanto a pesquisa do diesel verde avalia como óleos de espécies amazônicas podem ser transformados em combustível.

Cadeia produtiva

A proposta não se resume ao desenvolvimento de uma tecnologia dentro de um laboratório.

Existe também a tentativa de estruturar uma cadeia que envolva produtores rurais, comunidades, universidades, centros de pesquisa e empresas.

O aproveitamento de sistemas agroflorestais já existentes pode permitir que agricultores tenham uma fonte adicional de renda sem que seja necessário abrir novas áreas para ampliar a produção.

Nesse modelo, o valor econômico estaria não apenas no combustível final, mas também na coleta, no beneficiamento da matéria-prima, na pesquisa e nas etapas industriais.

Comunidades

Uma das aplicações consideradas para os novos combustíveis está nos sistemas isolados de geração de energia.

O Amazonas possui comunidades distantes da rede convencional de transmissão e distribuição. Em muitos desses locais, a geração de eletricidade depende de combustíveis transportados por longas distâncias.

Uma alternativa produzida a partir de matérias-primas regionais poderia reduzir parte dessa dependência, caso os estudos comprovem viabilidade técnica, econômica e logística.

O hidrogênio também aparece no mapa como possibilidade para sistemas de geração de energia em localidades isoladas.

Transporte fluvial

O transporte pelos rios é outro setor que pode ser alcançado pela pesquisa.

O diesel verde estudado pela Eneva poderá, caso a tecnologia avance para a etapa comercial, ser aplicado em embarcações, transporte pesado e outras atividades que atualmente dependem de combustíveis fósseis.

Para o Amazonas, essa possibilidade tem peso especial. A malha hidroviária é fundamental para o deslocamento de passageiros, alimentos, mercadorias e insumos entre municípios e comunidades.

Também estão entre as aplicações estudadas os equipamentos industriais e logísticos, como empilhadeiras.

Participação estadual

Marco Antônio – Foto: Marivaldo Junior

O secretário executivo de Energia e Gás do Amazonas, Marco Antônio de Oliveira Villela, também participou das discussões sobre o futuro energético do estado.

Para Villela, as novas tecnologias podem contribuir para ampliar as possibilidades de desenvolvimento econômico do Amazonas sem deixar de lado a busca por fontes de energia de menor emissão.

A participação do poder público no debate mostra que o tema começa a ganhar espaço para além das empresas e instituições de pesquisa.

Pesquisa

O investimento de R$ 11,9 milhões mostra a dimensão do esforço para desenvolver uma rota tecnológica própria para o diesel verde a partir de espécies amazônicas.

A pesquisa está vinculada ao Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da ANEEL e reúne diferentes áreas de conhecimento.

O objetivo, neste momento, é produzir dados suficientes para responder às principais dúvidas sobre a tecnologia e sua aplicação regional.

Entre elas estão a qualidade dos óleos, o rendimento das espécies, os custos envolvidos e a possibilidade de formar uma cadeia de fornecimento regular.

Próximos passos

O lançamento do mapa não significa que o Amazonas já tenha uma indústria de hidrogênio de baixa emissão ou uma produção comercial de diesel verde.

O trabalho apresentado funciona como uma ferramenta de planejamento e identificação de oportunidades.

A próxima etapa será aprofundar os estudos, testar as matérias-primas e avaliar as condições necessárias para transformar os resultados da pesquisa em projetos economicamente viáveis.

A própria fala de Márcio Lira reforça essa diferença entre pesquisa e mercado. A tecnologia ainda precisa vencer etapas antes de chegar a uma escala comercial.

Futuro energético

O que está sendo estudado no Amazonas coloca a biodiversidade no centro de uma discussão que envolve energia, indústria e geração de renda.

O desafio será encontrar uma forma de aproveitar os recursos da região sem transformar a floresta em simples fornecedora de matéria-prima.

Se os testes confirmarem a viabilidade das rotas pesquisadas, o estado poderá criar novas possibilidades para o transporte, a indústria e a geração de energia em localidades isoladas.

Mais do que produzir hidrogênio ou diesel verde, a questão será saber se o Amazonas conseguirá construir uma cadeia produtiva própria, com participação de pesquisadores, empresas, produtores rurais e comunidades.

É essa combinação entre tecnologia, biodiversidade e economia regional que pode definir o alcance do projeto nos próximos anos.

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