Juscelino Taketomi A lenta agonia da Praça da Polícia

A lenta agonia da Praça da Polícia

Uma crônica que transforma a decadência urbana em elegia moral, fazendo do velho coreto da praça um personagem silencioso da memória de Manaus

Foto: Divulgação/Acervo pessoal

Por Juscelino Taketomi

A praça amanhece antes da cidade. Há sempre um instante, quando o sol ainda não venceu de todo a névoa úmida que sobe do rio, em que o velho coreto da Praça da Polícia parece respirar sozinho. É um suspiro cansado, mas firme, desses que a gente escuta mais com a memória do que com os ouvidos. Ele continua de pé, como um sobrevivente educado de um naufrágio antigo.

Houve um tempo em que Manaus se reunia em torno daquele coreto como quem se reúne em torno de uma esperança. As bandas tocavam dobrados, as famílias passeavam devagar pelas alamedas, os homens ajeitavam o paletó mesmo no calor impossível da tarde, e as moças aprendiam a sorrir sob a vigilância discreta das mães. A cidade acreditava na elegância com a inocência das cidades que ainda não conhecem a própria decadência.

O historiador Otoni Mesquita escreveu sobre isso com a melancolia dos que sabem que toda grandeza tropical traz escondida alguma ruína futura. Em La Belle Vitrine, ele descreve a Manaus que quis ser Paris cercada de selva, uma cidade montada como vitrine de luxo no coração da floresta. O coreto da Praça Heliodoro Balbi nasceu dessa fantasia civilizatória. Não era apenas ornamento urbano. Era uma declaração de fé. E durante algum tempo funcionou.

A praça tinha música. Tinha debate. Tinha vaidade intelectual. Ali perto, o velho Café do Pina fervia entre cigarros, cafezinhos e discussões intermináveis sobre política, literatura e destino amazônico. Havia homens que acreditavam sinceramente que a palavra ainda podia salvar uma cidade.

Projeto Jaraqui

Depois vieram os sábados do Projeto Jaraqui, quando a praça deixou de ser paisagem e virou trincheira. Sob a voz inquieta de Fred Arruda e a inteligência cortante de Ademir Ramos, o verbo ocupava o espaço público com a coragem das coisas necessárias. E o coreto participava das lutas com ritmo solene.

Às vezes, subia ali o senador Evandro Carreira, inflamado em seu “Recado Amazônico”, falando da floresta, do caboclo, das fabulosas riquezas ameaçadas da região. O povo se apertava ao redor como quem ainda acreditava que um discurso pudesse alterar o rumo das águas.

Talvez o coreto permaneça de pé exatamente por causa disso: porque foi testemunha de uma cidade que um dia sonhou alto. Hoje, porém, ele olha em volta e encontra outra Manaus. Uma Manaus sem sorriso.

Os caminhos da praça foram tomados pela pressa, pelo improviso, pela sobrevivência. Camelôs espalham mercadorias onde antes se espalhavam conversas. Roupas coloridas balançam ao vento no mesmo lugar em que outrora circulava a brisa tranquila das tardes de concerto. Não há culpa em quem vende. Há culpa em quem se omitiu, negligenciou e desistiu da cidade.

Os monumentos parecem fatigados. O mármore escureceu. O chão acumula papéis úmidos, latas amassadas, restos de uma civilização distraída consigo mesma. À noite, a praça muda de rosto sem mudar de tristeza. Gente sem abrigo dorme nos bancos. Mulheres negociam o corpo sob a luz triste dos postes. Homens caminham como sombras procurando qualquer coisa que não sabem nomear.

 

O Colégio Estadual

E o coreto continua olhando. Há nele uma dignidade que comove. Como certos velhos professores que perderam os alunos, mas continuam corrigindo provas imaginárias.

Talvez por isso seja difícil olhar para a Praça da Polícia sem pensar também no velho Colégio Amazonense Dom Pedro II, o velho Colégio Estadual, que formou políticos, escritores, médicos, advogados, intelectuais e artistas de grande talento por mais de um século.

O colégio está ali, bem em frente, sobrevivendo como sobrevivem os grandes edifícios condenados pelo descaso: pela força da memória. Suas paredes ainda guardam ecos de gerações inteiras, mas o tempo já começou a mastigá-las devagar. As infiltrações descem pelas paredes como lágrimas antigas. As rachaduras avançam discretamente pelos corredores. O mofo cresce nos cantos com a paciência das coisas definitivas. Há ferrugem nas grades, madeira podre nos pisos, janelas que parecem piscar de fadiga para a cidade indiferente.

E, no entanto, o velho Dom Pedro II segue vivo. Ainda há alunos cruzando seus corredores. Ainda há vozes jovens ocupando salas ameaçadas pelo abandono. Ainda há a Cantata Gymnasiana, reunindo ex-alunos que retornam ao prédio como quem retorna à própria juventude. É talvez isso o mais desalentador, e também o mais belo. O edifício parece morrer lentamente enquanto a memória insiste em gritar dentro dele.

O Dom Pedro II e o coreto da Praça da Polícia se parecem. Ambos nasceram de uma Manaus que apostava no futuro. Ambos foram símbolos de refinamento, inteligência e ambição cultural numa cidade plantada entre rios e chuvas monumentais. Ambos resistem hoje não pela força do poder público, mas pela teimosia afetiva da memória do seu povo.

E não estão sozinhos nessa lenta resistência. Ali perto, o velho Palacete Provincial, uma das mais elegantes heranças arquitetônicas do ciclo da borracha, também parece sofrer da mesma enfermidade urbana que corrói desgraçadamente o Centro Histórico. O prédio ainda conserva parte de sua imponência, seus corredores ainda enfatizam passado, mas o entorno já não acompanha sua dignidade.

O estacionamento improvisado do Palácio, o pavimento desgastado, a circulação desordenada de veículos, ambulantes e flanelinhas, além da sensação recorrente de insegurança, transformam a chegada ao patrimônio numa experiência infeliz. Como acontece tantas vezes em Manaus, restaura-se a fachada da memória enquanto a cidade ao redor se deteriora lentamente. Amargamente.

Mulateiro à mercê dos cupins

O Mulateiro do Clube da Madrugada pede socorro no Centro Histórico de Manaus – Foto: Divulgação

A própria Praça da Polícia parece carregar essa contradição dolorosa: monumentos restaurados cercados por abandono cotidiano. O patrimônio resiste, mas o espaço urbano que deveria protegê-lo vai se desfazendo aos poucos, como reboco úmido em parede centenária.

Há cidades que demolimos com máquinas. Outras, como Manaus, nós demolimos pela indiferença.

O velho mulateiro do Clube da Madrugada ainda está ali pertinho do coreto, aparentemente esbelto, embora os cupins trabalhem em silêncio sob sua casca. Talvez Manaus inteira esteja assim: de pé por fora, corroída por dentro.

Otoni Mesquita, quem sabe, dissesse que toda cidade escolhe aquilo que deseja recordar. E provavelmente seja verdade. O abandono nunca chega de repente. Ele pinga vagarosamente, como infiltração em teto fatigado. Primeiro cai o reboco. Depois a tinta. Depois a memória.

O coreto continua esperando a próxima música. Como certos homens esperam uma carta que já não virá. O Dom Pedro II continua esperando a próxima restauração. O Palacete Provincial continua esperando que a cidade ao redor volte a merecê-lo. E os três permanecem ali, no sofrido coração de Manaus, como velhos aristocratas pobres tentando esconder a ruína com o resto de elegância que ainda possuem. É justamente por isso que doem tanto.

 

 

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