
Por Nuno Vasconcellos (*)
A eleição não está decidida e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, reúne condições de, no sprint final, conquistar o direito de ficar mais quatro anos no Palácio do Planalto. Pelo menos, é isso que se pode concluir a partir da leitura dos resultados eleitorais. Os eleitores que não apareceram para votar no dia 4 de outubro, aqueles que votaram nulo ou branco e os que escolheram outros candidatos no primeiro turno somam quase 50 milhões de votos. Muitos podem mudar de ideia e passar a apoiá-lo no segundo turno.
Possível é, mas não é fácil. Ainda que Flávio permaneça onde está e não acrescente um único voto aos 56.104.503 que obteve no primeiro turno — hipótese que, convenhamos, não passa do sonho de uma noite de verão petista —, a missão de tirar os 2,2 milhões de votos que os separam é para lá de espinhosa.
De qualquer forma, votos existem. O que se discute é a possibilidade de o candidato conquistá-los. A pergunta a ser feita neste momento é: que motivo levaria alguém que negou o voto ao presidente há apenas duas semanas a mudar de ideia e digitar o 13 no domingo que vem? Esse é o xis da questão.
Suco de populismo
Ninguém parece ter a resposta para essas perguntas e, pelo que se viu nos últimos dias, os estrategistas do PT não parecem seguros quanto ao caminho capaz de conduzir o partido à vitória. A semana passada foi repleta de ações marcadas pelo improviso e pela utilização de cartas sacadas repentinamente da manga, nas quais o atual mandatário parece penhorar a chance de buscar a virada. O problema é que, por mais que faça para tirar a desvantagem, ele parece não ter uma noção muito coerente do que precisa fazer.
A aprovação e promulgação, na semana passada, da PEC que pôs fim à jornada de trabalho 6 por 1, aplaudida pelos correligionários como um movimento capaz de levar o governo à vitória, é um exemplo dessa falta de rumo. Conduzida em ritmo acelerado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, a tramitação da matéria demonstrou que o Executivo não parece preocupado com o efeito que suas ações podem gerar no futuro. O que importa é utilizá-las para tentar conquistar o eleitor que não o apoiou até aqui. O objetivo principal parece ser oferecer benefícios sobre benefícios, ainda que as medidas não tenham coordenação umas com as outras. E, assim, tentar demonstrar que o governo ainda tem o que oferecer ao trabalhador caso ganhe mais quatro anos.
No final, o fim da escala seis por um se resumiu a uma ação eleitoreira entre as muitas que têm marcado o safári petista de caça predatória aos votos. Foram prometidos, ainda, o perdão das dívidas dos microempreendedores e o transporte público gratuito nos domingos, de norte a sul do Brasil. Nada disso havia aparecido antes nos compromissos eleitorais — mas o resultado adverso do primeiro turno parece ter despertado a equipe de campanha para a necessidade de correr atrás do prejuízo enquanto ainda há tempo de revertê-lo.
Promessas não cumpridas
Esse movimento, visto com o olhar de quem valoriza a estratégia, remete ao hábito de oferecer doces a crianças indóceis para conquistar sua simpatia. Se será bem-sucedido ou não, é algo que se descobrirá no próximo domingo. A verdade por trás dessa decisão é uma só: parece que o PT, de uma hora para outra, acordou para a realidade de que os argumentos que lhe deram a vitória em cinco das seis eleições presidenciais realizadas neste século no Brasil, hoje se mostram, como se viu no primeiro turno, incapazes de render os votos necessários para garantir um novo mandato.
A impressão que se tem é a de que o Lula de hoje, além de enfrentar Flávio Bolsonaro, tem como adversário o seu próprio passado. Na quinta-feira passada, em entrevista à TV Globo, o presidente justificou a decisão de aumentar o valor do Bolsa Família, o principal programa social do governo, às vésperas do primeiro turno. Com um ar de indignação, ele disse que “não sabia” que o benefício tinha passado anos sem reajuste.
Atitudes como essa geram mais desconfiança do que votos. Mas têm sido recorrentes e ajudam a explicar por que o PT hoje não é visto como uma opção de futuro por uma sociedade que, sim, quer benefícios, mas não pensaria duas vezes antes de decidir se preferiria o dia adicional de folga prometido pelo fim da jornada seis por um, ou preços mais em conta e estáveis no supermercado.
Uma sociedade que, pelo que mostram as pesquisas, trocaria tranquilamente o perdão de dívidas feito em vésperas de eleições por condições econômicas mais robustas, que permitissem às famílias fazer um crediário que fossem capazes de pagar com os próprios recursos. Consultas informais também revelam que, no atual cenário, a sociedade teria trocado de bom grado o rigor excessivo das penas aplicadas aos manifestantes do 8 de janeiro por mais rigor contra as facções do crime organizado.
Plural e inclusiva
No entanto, o que se viu foi o contrário: a criminalidade parece ter ampliado seu poder diante das atitudes tíbias de uma gestão que acordou tarde para a necessidade de combatê-la. E aqueles que passaram quatro anos calados com medo de sofrer as mesmas consequências dos que ousaram se expressar no dia 8 de janeiro, hoje parecem dispostos a dar sua opinião por meio do voto.
Ou seja, o candidato que irá às urnas no domingo terá como principal adversário o governante dos últimos quatro anos. Um líder que, ao invés de conduzir as ações de sua gestão na direção de uma sociedade mais plural e inclusiva, intensificou políticas cada vez mais orientadas para a esquerda e desprezou todas as oportunidades que teve para ampliar sua base de apoio social com a atração dos grupos que agora tenta seduzir com políticas improvisadas de última hora.
Ao insistir na política do “nós contra eles” e não se empenhar em programas que contemplassem toda a sociedade, o presidente, sem perceber o que estava acontecendo, acabou alimentando a escalada de seu opositor. Quando Flávio se apresentou como o candidato por escolha de seu pai, Jair Bolsonaro, muitos encararam o gesto como piada. Com o passar do tempo, ele passou a ser visto como um concorrente fácil de ser batido. Depois, como um nome viável. Hoje, sem que a ala governista se desse conta disso, tornou-se o favorito para ser o próximo presidente do Brasil.
Há uma diferença considerável entre ser favorito e ser vencedor. Ainda mais quando se percebe que a oposição parece movida pela confiança na vitória, um sentimento que agora contamina as hostes adversárias. A resposta virá no próximo domingo — depois de mais uma semana repleta de emoções.
(*) Empresário luso-brasileiro
Fonte: https://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/um-olhar-sobre-o-rio/2026/10/7313357-lula-versus-lula.html









