Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho A Politicalha Velhaca: Quando o Favor Substitui o Direito

A Politicalha Velhaca: Quando o Favor Substitui o Direito

Por Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho

No Brasil, a relação entre quem manda e quem precisa não surgiu por acaso. Ela é antiga e muito bem armada. De um lado, o político que usa o cargo para se manter no poder. De outro, o eleitor que, no aperto, troca o voto pela chance de sobreviver mais um mês. Quando a vida aperta, a cidadania enfraquece e o voto vira moeda.

É preciso falar claro: isso não é apenas um defeito de uma pessoa. É um sistema que funciona há séculos. É o que chamo aqui de velhaca e empodrecida politicalha.

A expressão é forte, mas verdadeira. Ela descreve uma política envelhecida nos vícios, pobre em valores e esperta em se manter no poder. Não falamos da Política com letra maiúscula, aquela que cuida do bem de todos. Falamos da sua versão doente, a do balcão, do favor no gabinete, do carimbo que só sai com padrinho, da promessa que só aparece em época de palanque.

Essa prática vem do coronelismo e do curral eleitoral. Mas sua raiz mais profunda é outra ferida do país: o patrimonialismo. Esse câncer da vida pública, já mostrado por Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda, é a mistura entre o que é público e o que é privado. Nele, quem governa não cuida do que é do povo; age como dono. O Estado vira fazenda, o cargo vira herança, o dinheiro público vira bem de família. É dessa história torta que nasce a politicalha.

A troca da cidadania pela sobrevivência

A lógica é perversa: pegar o que é direito do cidadão e entregar como se fosse presente do político. Quem faz isso é a politicalha, herdeira direta dos donos do poder.

Ainda hoje, em muitos lugares onde o poder público não chega, conseguir um remédio, uma consulta, um saco de cimento, uma vaga na creche ou água com o caminhão-pipa depende de pedir a um padrinho político. O voto deixa de ser livre e vira troca pela sobrevivência. O eleitor não escolhe um representante; tenta garantir o mínimo para a família.

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostra que milhões de brasileiros ainda vivem sem segurança para comer e morar. Quando a necessidade aperta, qualquer ajuda na hora parece valer mais que um plano de governo. É nessa ferida que a velhaca politicalha se alimenta.

Assim nasce um ciclo vicioso. Manter a pobreza passa a ser útil para quem não quer libertar ninguém, mas prender o eleitor na dependência. Em vez de garantir saneamento, escola que alfabetize, emprego e renda firme, essa politicalha entrega paliativos: cesta básica na véspera da eleição, conta de luz paga, material de construção na porta de casa.

Quanto mais dependente o cidadão, melhor funciona o favor. E quanto melhor funciona o favor, menor a vontade de mudar o sistema. Essa politicalha, sustentada pelo patrimonialismo, não tem projeto de país; tem projeto de ficar no poder e guardar seu espólio.

O ponto central é este: não é só pobreza que existe, é miséria administrada por quem lucra com ela.

A urgência de romper a dependência

Sem investimento sério e fiscalizado em escola de qualidade, em cursos que gerem trabalho, em infraestrutura e em geração de renda, as pessoas ficam reféns dos favores. Se a escola não ensina, se o posto fica sem médico e se o jovem não vê futuro no trabalho honesto, o vazio será ocupado pelo político que se apresenta como benfeitor, o operador dessa engrenagem.

Como já disseram Jessé Souza e José Murilo de Carvalho, a desigualdade no Brasil não é só de dinheiro. É de acesso, de respeito e de cidadania.

O efeito mais grave é a sobrevivência sem ar. Quando essa politicalha controla o essencial — a ambulância, a lista do benefício, o alvará —, ninguém fiscaliza. Quem depende para viver tem medo de reclamar, de denunciar e de cobrar. O medo de perder o pouco que tem cala a consciência. A cidadania fica sufocada. O patrimonialismo, ao transformar o público em privado, sufoca o povo.

O preço que a democracia paga é alto.

Vem a crise de confiança. As instituições perdem crédito e cresce a ideia de que política é só negócio. Esse descrédito aumenta a polarização, alimenta o cinismo e faz muita gente deixar de votar. É nesse chão que surgem salvadores da pátria e soluções mágicas, que no fundo são a mesma politicalha com roupa nova.

Para sair disso, não basta ficar indignado. É preciso mudar estruturas.

Primeiro, garantir renda e oportunidade de verdade, para que ninguém precise trocar o voto por comida.

Segundo, romper com o patrimonialismo, com transparência total no orçamento, nas emendas e nos programas sociais, com controle digital e fiscalização independente. É preciso tirar o balcão de negócios da sombra e devolver o que é público ao povo.

Terceiro, investir em educação cívica, em autonomia e em organização da comunidade. Cidadania deve ser vivida como direito, nunca como esmola de coronéis de terno e gravata que se acham donos do Estado.

Em resumo, o Brasil só deixará de ser refém do clientelismo quando o Estado parar de ser tratado como fazenda particular e parar de produzir órfãos para que essa velhaca politicalha os adote de quatro em quatro anos. Enquanto o favor valer mais que o direito, não haverá democracia plena, mas um teatro caro, pago com a miséria e dirigido pelos mesmos donos do poder.

Oremos – Deus salve o Brasil

Oremos. Deus Todo-Poderoso, Pai de misericórdia, olhai por esta Nação. Quebrai as correntes da dependência e curai nossa terra da chaga do clientelismo e do patrimonialismo.

Dai-nos governantes justos, prudentes e tementes a Vós, que cuidem do que é público com responsabilidade e não como donos, e um povo desperto, livre e consciente de seus deveres e direitos.

Que não nos falte o pão, a justiça e a liberdade. Que o direito vença o favor e que a dignidade volte a morar em cada lar.

Deus salve o Brasil.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

Amém.

(*) é professor Emérito de Língua Portuguesa.

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