Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho A mesma palavra, outro mundo

A mesma palavra, outro mundo

Crônica do português que se desencontra e se reconhece

Por Rev. Prof. Francisco A.C. Pinho

Outro dia, na fila do mercado aqui em Blumenau, fiquei pensando na própria palavra fila. Eu estava escrevendo sobre o português entre Brasil, Portugal e Amazônia e percebi que estava dentro do assunto. O que aqui é fila, em Lisboa é bicha, e na beira do Solimões pode ser cobrinha.

A língua não é um bloco fechado. Ela se move com as pessoas. A mesma palavra pode organizar a espera em Lisboa, criar constrangimento no Rio e virar nome de doença no interior do Amazonas. Para entender isso, ajudam duas ideias antigas da filosofia.

A primeira é transcendência. Vem do latim transcendere, ir além. É o que fica fora e acima do que vemos. Platão, Agostinho e Kant falaram disso. Na língua, a transcendência aparece quando a palavra vale mais que o dicionário, como em pátria, justiça, saudade e Deus.

A segunda é imanência. Vem de immanere, ficar dentro. É o que mora e age por dentro. Espinosa dizia Deus sive Natura. Na língua, imanência é o sentido que nasce no dia a dia, no balcão, na fila do posto, no porto. Antenor Nascentes lembrava que a língua guarda memória de um povo. Mattoso Câmara Jr. dizia que língua é sistema e também é uso.

Também é bom separar três coisas. Transliteração é trocar letra de um alfabeto para outro, como do cirílico para o latino. Não traduz sentido, só troca a forma. Transcrição tenta copiar o som. Tradução tenta levar o sentido. Evanildo Bechara explica isso na Moderna Gramática Portuguesa para não confundir forma com conteúdo.

O sentido das palavras é estudo da semântica. Ela vê o que a palavra quer dizer e que história carrega. Celso Cunha e Lindley Cintra mostram na Nova Gramática do Português Contemporâneo que Brasil e Portugal têm a mesma base, mas vocabulários que se afastaram.

A ciência dos signos é a semiologia, nome usado na Europa com Saussure, ou semiótica, nome usado nos Estados Unidos com Peirce. O signo junta significante, que é som e escrita, e significado, que é a ideia. Barthes mostrou que fila, roupa e comida também são signos. Umberto Eco lembrou que todo fato cultural pode ser lido como signo. É aqui que o nosso tema se encaixa.

Em Portugal ouvi muitas vezes: “Entre para a bicha”. Todos entram tranquilos, porque lá bicha é fila, palavra comum e neutra. No Sul e no Sudeste do Brasil a palavra seguiu outro rumo e virou ofensa para homossexuais, além de indicar lombriga.

No interior da Amazônia o sentido é mais antigo. No Amazonas, Pará, Acre e Rondônia, em comunidades ribeirinhas, bicha é verme de intestino. Diz-se “o menino está com bicha” e “remédio para bicha”. Vem de bicho, de parasita, Ascaris lumbricoides. Esse uso está em glossários de regionalismos anotados por José Veríssimo e em pesquisas da Fiocruz Amazônia e da UFPA. Não é gíria, é diagnóstico popular. Serafim da Silva Neto explicava que o interior guarda sentidos antigos que a capital esqueceu.

Fila é simples. Gente uma atrás da outra esperando vez. Palavra neutra nos dois países, só que em Portugal no dia a dia bicha é mais comum.

Cobrinha é diminutivo de cobra. Pode ser desenho de criança, ferramenta de encanador e jogo de celular antigo. Na Amazônia, cobrinha é fila pequena que faz curva e se adapta ao espaço. Ouve-se “faz a cobrinha” e “a cobrinha dobrou a esquina”. A fila imita a cobra que contorna barraca e barranco. Se bicha em Portugal é a fila reta, cobrinha na Amazônia é a fila que se molda. José Alves de Freitas registra esse uso como metáfora da forma, mas é também um jeito carinhoso de falar da espera.

O português tem muitos falsos amigos internos. Rapariga, no Norte de Portugal, é moça jovem, trabalhadora, sem ofensa. Miguel Torga usa assim. No Sudeste do Brasil ganhou sentido pejorativo para prostituta. Um elogio lá pode ser insulto aqui.

Puto, em Portugal, é menino. “Os putos da escola”. No Brasil é homem bravo ou xingamento. Silveira Bueno já citava esse caso como tabu.

Rabo, em Portugal, é palavra comum e infantil para nádegas. No Brasil é baixo calão. Pica, em Portugal, é injeção, “levar uma pica”. No Brasil é palavrão. Propina, em Portugal, é mensalidade da faculdade que se paga em Coimbra. No Brasil é suborno. Apelido, em Portugal, é sobrenome de família, “qual é o seu apelido?”. No Brasil é apelido mesmo, alcunha.

O mesmo vale para autocarro que é ônibus, camisola que é suéter de lã, fato que é terno, cueca que pode ser calcinha, fixe que se lê fiche e quer dizer legal, e telemóvel que é celular. Vasco Botelho de Amaral tratou disso no Dicionário de Dificuldades e Sérgio Rodrigues no site Sobre Palavras. Não há certo e errado, há normas diferentes.

Há palavras só da Amazônia. Panema não é preguiça. É azar na pesca e na caça, espantar o peixe. “Está panema”. Dalcídio Jurandir usa em Chove nos Campos de Cachoeira como condição do caboclo e Eduardo Galvão explica em Santos e Visagens como quebranto. Vem do tupi e não tem tradução simples na cidade. Panemão é ainda mais forte.

E tem igarapé, que é caminho de canoa, de ygara mais apé, curumim, várzea, pororoca, tacacá, jambu, matapi, paneiro. Sem isso não se vive por lá. Ferreira de Castro, em A Selva, precisou fazer glossário para o leitor de Portugal entender o português do Brasil.

Para explicar tudo isso precisamos de digressão e excurso, que são desvios para mostrar o contexto. Quando digo bicha como verme preciso falar de saneamento, água de rio e falta de esgoto. A palavra vira denúncia social. Quando digo cobrinha como fila preciso falar de espaço público sem asfalto e sem guichê, com espera na sombra da mangueira.

Também precisamos de conexões e intersecções, que são os pontos onde os sentidos se encontram ou se chocam no tempo. O português de 1500 encontrou tupi e línguas africanas aqui. Lá encontrou francês e inglês. Na Amazônia encontrou nheengatu. Cada região guardou um pedaço. Gladstone Chaves de Melo dizia que o Brasil guardou arcaísmos que Portugal perdeu e vice-versa. Bicha guardou fila lá e verme cá. Mesma árvore, galhos diferentes.

Assim, Portugal ficou com palavras velhas que deixamos, a Amazônia criou vocabulário de rio e floresta, e nas margens, no interior do Nordeste, nos Açores, na Madeira, no interior de Santa Catarina e nas comunidades ribeirinhas, ficaram fósseis linguísticos, como vosmecê que virou você e o tu que ainda resiste. Marcos Bagno lembra em Preconceito Linguístico que chamar isso de erro é preconceito. É história viva.

Volto à fila do mercado. A língua tem transcendência quando diz com Pessoa “Minha pátria é a língua portuguesa” e tem imanência quando vive agora na bicha de Lisboa, na cobrinha do Solimões, no puto que corre na escola e na rapariga que trabalha no Minho.

A transliteração leva letra de um alfabeto a outro tentando não perder a forma. A semiologia tenta entender por que, no mesmo alfabeto, a mesma palavra organiza fila em Lisboa, ofende no Rio, indica doença em Parintins, faz curva no porto, cobra mensalidade em Coimbra e denuncia corrupção em Brasília.

No fim, palavra nunca é só palavra. É história, geografia, saúde, gente e afeto. É transcendência que desce e vira vida no beiradão.

(*) é professor Emérito de Língua Portuguesa.

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