
Por Thelma Valverde (*)
Há cerca de 15 anos, a transformação digital ainda era um conceito amplo, quase uma pergunta em aberto. Em 2014, um estudo publicado pela “MIT Sloan Management Review” descrevia esse movimento a partir do uso de analytics, mobilidade, redes sociais, dispositivos inteligentes e sistemas de gestão para transformar a experiência do cliente, os processos internos e os modelos de negócio. Naquele momento, o desafio era compreender o que significava, de fato, tornar uma empresa digital.
Desde então, não atravessamos uma única transformação, mas várias. A computação em nuvem modificou a infraestrutura das organizações. Os smartphones mudaram a relação com clientes e equipes. Dados e ferramentas de inteligência de negócios tornaram a gestão mais mensurável. A automação assumiu tarefas repetitivas. O trabalho remoto reorganizou operações. Mais recentemente, a inteligência artificial generativa alterou a maneira como produzimos e acessamos conhecimento.
Fronteiras e evolução
Durante boa parte dessa trajetória, as empresas identificaram uma necessidade e recorreram a equipes especializadas para traduzi-la em software. Esse desenvolvimento podia, e muitas vezes precisava, ser vivo, acompanhando continuamente a evolução do negócio. Ainda assim, novas respostas costumavam passar por ciclos de análise, desenho, programação, integração e implantação. Ainda que os projetos fossem complexos, existia uma fronteira mais definida entre quem construía a tecnologia e quem a utilizava.
A peculiaridade da era dos agentes de inteligência artificial não está em tornar a tecnologia dinâmica. Está em permitir que diferentes recursos tecnológicos sejam combinados com o contexto e com as necessidades concretas da operação no momento em que elas surgem. Dados, sistemas, regras, ferramentas e conhecimento podem ser articulados por agentes para apoiar ou executar uma ação específica, sempre sob direção humana.
Mudança no trabalho
Isso muda o papel das pessoas. Em muitas situações, o profissional deixa de apenas descrever uma necessidade e aguardar sua transformação em software. Ele passa a pensar o objetivo, mobilizar os recursos disponíveis, definir limites e orquestrar, ali e agora, como agentes, sistemas e pessoas devem atuar para produzir um resultado. O desenvolvimento não desaparece, ganha uma nova camada de composição, adaptação e governança.
Por isso, implementar tecnologia já não basta. A adoção de agentes precisa ser acompanhada pela capacitação das pessoas que irão orientá-los, supervisioná-los e decidir seus limites. Um agente pode executar uma tarefa, mas não assume a responsabilidade institucional por ela. Cabe às equipes definir objetivos, permissões, critérios de qualidade, situações de exceção e os pontos em que a decisão deve permanecer humana.
Papel da liderança
Essa é a transformação mais profunda: não apenas a dos sistemas, mas a das capacidades humanas e organizacionais. Profissionais precisam aprender a formular problemas com clareza, delegar trabalho à inteligência artificial, avaliar resultados, identificar riscos e questionar recomendações automatizadas. Quanto mais autonomia a tecnologia recebe, maior precisa ser o discernimento de quem a governa.
A mudança também alcança a liderança. O gestor deixa de coordenar somente pessoas e passa a orquestrar processos híbridos, nos quais parte do trabalho é realizada por profissionais e parte por agentes especializados. Não se trata de equiparar sistemas a funcionários, mas de reconhecer que funções, acessos, indicadores de desempenho e limites de atuação também precisam ser definidos para a camada digital da operação.
Nova era digital
O estudo “Work Trend Index 2025”, da Microsoft, realizado com 31 mil profissionais em 31 países, ajuda a dimensionar essa transição. O levantamento mostrou que 81% dos líderes esperavam integrar agentes de forma moderada ou ampla à estratégia de inteligência artificial de suas empresas nos 12 a 18 meses seguintes. Além disso, 46% afirmaram que suas organizações já utilizavam agentes para automatizar fluxos ou processos completos. A gestão de operações híbridas, portanto, deixou de ser uma hipótese distante.
É essa nova etapa que proponho chamar de transformação digital 2.0. Se a primeira fase ensinou as empresas a digitalizar processos e utilizar tecnologia, a atual exige que elas desenvolvam capacidade própria para trabalhar com sistemas inteligentes. A tecnologia não transforma a empresa sozinha, ela obriga a organização a aprender novamente.
Na era dos agentes, a transformação digital sem capacitação humana é apenas instalação de tecnologia. A vantagem competitiva não estará em possuir mais ferramentas, mas em preparar pessoas para orientar, supervisionar e evoluir a inteligência artificial com segurança, responsabilidade e propósito.
(*) é co-fundadora da Cerebelo.Ai e da eMiolo.com, a empreendedora Thelma Valverde atua em inteligência artificial, softwares e automação para otimizar rotinas e decisões corporativas.










