Segurança Ofensiva militar dos Estados Unidos contra cartéis isola o governo brasileiro

Ofensiva militar dos Estados Unidos contra cartéis isola o governo brasileiro

Donald Trump disse que agora realizará operações terrestres contra o crime na América Latina - Foto: Bonnie Cash/ EFE/ EPA/ POOL

Os Estados Unidos preparam uma nova etapa na ofensiva contra organizações criminosas na América Latina. A campanha militar americana deve se expandir para operações terrestres em breve. Até o momento o foco mirava apenas embarcações no Caribe e no oceano Pacífico. A manobra atinge diretamente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Os dois grupos criminosos foram classificados por Washington como organizações terroristas em junho deste ano.

O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, confirmou na semana passada que o governo americano trabalha em conjunto com países da região para expandir o combate bélico. A iniciativa garante a continuidade dos ataques navais que já destruíram mais de 60 embarcações e resultaram na morte de cerca de 220 indivíduos descritos pela Casa Branca como narcoterroristas.

Hegseth comparou as facções da América Latina ao Estado Islâmico e à Al Qaeda. O secretário indicou que todas as organizações criminosas classificadas como terroristas passam a ser alvos legítimos. Ele garantiu que as táticas desenvolvidas durante décadas de combate ao terrorismo no Oriente Médio serão aplicadas contra as redes criminosas no Hemisfério Ocidental.

Ações em terra

As incursões terrestres já tiveram um evento prático e letal no continente. Em março deste ano militares americanos realizaram operações no Equador com o apoio logístico de forças locais. Um acampamento utilizado pelos Comandos de la Frontera, grupo formado por dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), acabou bombardeado perto da divisa colombiana. O governo equatoriano informou que o local possuía capacidade para abrigar cerca de 50 pessoas.

A ofensiva militar ganha musculatura com o apoio do atual presidente conservador da Colômbia. Abelardo de la Espriella autorizou operações conjuntas com os americanos e liberou ações mais amplas contra o Exército de Libertação Nacional (ELN) e outras dissidências das Farc presentes em seu território. Hegseth apontou a operação no Equador como o modelo do que Washington pretende executar nesta nova fase para obter o mesmo efeito destruidor alcançado nos mares.

Mudança de rota

Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, o movimento serve para combater o crime e reposicionar os americanos na geopolítica continental.

“Há uma guerra mais agressiva contra o crime organizado e há uma reconstrução da presença estratégica americana nas Américas”, afirmou Eduardo Galvão.

O professor avalia a medida como a maior transformação na política antidrogas americana desde o “Plano Colômbia”, grande programa lançado no ano 2000 focado em financiamento e inteligência para apoiar Bogotá. O modelo anterior liderado pela Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) cede espaço para a participação militar direta onde a fronteira entre o apoio e a execução começa a desaparecer.

Adesão dos vizinhos

A posse de Abelardo de la Espriella fortaleceu a “Coalizão Americana Contra os Cartéis”. O grupo integra o “Escudo das Américas”, programa criado por Donald Trump para coordenar ações conjuntas.

A aliança colombiana tem peso decisivo visto que o país lidera a produção mundial de cocaína. Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam a existência de 261 mil hectares de plantações da droga em solo colombiano no levantamento de 2024.

A organização também aponta a Colômbia como uma das principais rotas do tráfico internacional. O país vizinho não participava da iniciativa de segurança durante a gestão do antigo presidente esquerdista Gustavo Petro.

A coalizão de Trump conta hoje com a participação ativa da Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, El Salvador, Honduras, Panamá e Paraguai. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não colocou o Brasil na aliança internacional. O Departamento de Guerra americano informou que os países integrantes já dividem responsabilidades e discutem quais facções serão priorizadas.

Eduardo Galvão ressalta que os parceiros devem atuar na oferta de acesso territorial e capacidade naval além de autorizar missões conjuntas.

O Paraguai aprofundou sua relação de defesa com Washington no ano passado através do Acordo sobre o Estatuto das Forças (Sofa), estabelecendo as condições legais para a presença de militares e civis americanos.

A Argentina de Javier Milei também alinhou suas políticas ao classificar diversos grupos locais como terroristas.

Essa frente ampla permite aos americanos agir de forma coordenada evitando a imagem de intervenção unilateral e aumentando a pressão sobre governos que ficam fora do bloco.

Impacto no Brasil

A ausência oficial do Brasil na coalizão não blinda o país das consequências práticas. O enquadramento do PCC e do CV como grupos terroristas coloca o crime organizado nacional no alvo da nova estratégia aumentando a pressão sobre Brasília.

Como as duas facções mantêm estruturas logísticas, rotas e aliados nos países vizinhos, os operadores do crime brasileiro ficam expostos a prisões e sanções severas sem que os americanos precisem atuar dentro do Brasil.

“Para PCC e CV, fronteiras nacionais sempre foram oportunidades. Com a nova estratégia americana, elas podem começar a se transformar também em vulnerabilidades”, avalia Eduardo Galvão.

Apesar do cerco estruturado uma ação militar direta dentro do território brasileiro desperta cautela.

“Eu classificaria uma operação militar unilateral dos Estados Unidos dentro do Brasil como um evento de baixa probabilidade”, destaca Eduardo Galvão citando o alto custo político e diplomático de tal manobra sem a autorização do governo brasileiro.

Por outro lado o doutor em Direito e professor de Relações Internacionais da Universidade Positivo (UP), Fernando Villena Del Carpio, alerta para os riscos geográficos reais.

Operações americanas em áreas extensas de fronteira nos países vizinhos podem ultrapassar os limites do território brasileiro e provocar uma crise diplomática sem precedentes entre os governos Lula e Trump.

Eduardo Galvão acrescenta que o Brasil pode ficar isolado na área de segurança e sofrer cobranças pesadas por resultados.

“A pergunta seria se todo mundo está participando dessa operação por que o Brasil não faz junto?”, questiona Fernando Villena Del Carpio evidenciando a pressão regional iminente.

Origem da estratégia

A atual campanha militar começou através de uma manobra jurídica executada no início do atual mandato republicano. Em janeiro de 2025 Trump assinou uma ordem executiva classificando as facções criminosas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs) e Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs).

Organizações gigantes como o Cartel de Sinaloa, o Cartel de Jalisco Nova Geração (CJNG), o Cartel do Golfo, a MS 13, o Tren de Aragua e o Cartel de Los Soles entraram na lista prioritária de terrorismo meses depois.

Fernando Villena Del Carpio explica que a medida permitiu a Washington tratar as organizações como ameaças globais à segurança nacional mesmo sem a adoção das mesmas regras pelos governos locais.

O enquadramento abriu os caminhos legais para a entrada das Forças Armadas no combate transnacional. Os resultados práticos abrangeram a captura do ditador Nicolás Maduro na Venezuela, o aniquilamento das frotas navais e toda a preparação logística para a guerra terrestre que agora avança de forma implacável pela região.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/eua-preparam-nova-fase-da-guerra-contra-o-crime-organizado-e-pcc-e-cv-podem-entrar-na-mira/?ref=veja-tambem

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