Santa Isabel do Rio Negro MP investiga abandono no atendimento de crianças Yanomami após alta hospitalar no...

MP investiga abandono no atendimento de crianças Yanomami após alta hospitalar no Amazonas

Foto: Paulo Desana/Amazônia Real

A crise humanitária que afeta o povo Yanomami ganha um desdobramento fiscalizatório no interior do Amazonas. O Ministério Público do Amazonas (MPAM) instaurou um inquérito civil para investigar a suposta omissão no atendimento nutricional e assistencial de crianças indígenas em Santa Isabel do Rio Negro.

A apuração foca em casos graves ocorridos entre os anos de 2025 e 2026, onde os menores dão alta dos hospitais mas acabam retornando ao mesmo ambiente de vulnerabilidade por falta de rastreio estatal.

A iniciativa partiu da Promotoria de Justiça local após relatórios médicos apontarem que o Hospital Irmã Edwiges Maria Sikorska (HIEMS) recebeu dezenas de pacientes infantis com desnutrição proteico-calórica severa. Muitas dessas crianças dão entrada na ala de urgência já com infecções respiratórias associadas, como pneumonia e bronquiolite, demandando transferência imediata para leitos de alta complexidade em Manaus.

Silêncio do DSEI

O avanço da investigação preliminar para a engrenagem de um inquérito civil ocorreu pela falta de cooperação dos gestores da saúde indígena federal. O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Yanomami ignorou os pedidos de esclarecimento enviados pela promotora Taize Moraes Siqueira.

O órgão federal deixou de responder aos ofícios oficiais emitidos nos meses de janeiro, março e maio deste ano. Essa ausência de dados técnicos impediu a checagem dos plantões médicos nas aldeias e obrigou o Ministério Público do Amazonas a endurecer as medidas de cobrança.

“Diante dos elementos já colhidos durante a investigação preliminar, o Ministério Público instaurou inquérito civil para aprofundar a apuração, verificar a eventual existência de falhas na assistência prestada pelos órgãos competentes e acompanhar as medidas adotadas para garantir a continuidade do cuidado dessas crianças e prevenir a ocorrência de novos casos”, destacou a promotora de Justiça Taize Moraes Siqueira.

Cobrança de relatórios

A portaria que abre o inquérito estabelece um prazo de 15 dias para que a direção do distrito sanitário envie documentos comprobatórios sobre a rotina de trabalho na calha do Rio Marauiá.

A promotoria exige respostas claras sobre os seguintes pontos:

  • Prontuários e fichas de evolução nutricional que mostrem o tratamento pós-alta.
  • O número exato de técnicos atuando na região e o plano de contingência para 2026.
  • A regularidade no estoque de fórmulas alimentares e suplementos de reidratação.
  • O calendário oficial de vistorias das equipes multiprofissionais nas comunidades.

A direção do hospital local e a Secretaria Municipal de Saúde também precisam atualizar os dados de internações registradas de março a julho de 2026. O objetivo é mapear se existe comunicação entre os médicos da cidade e os agentes que atuam dentro da floresta.

Apoio às famílias

A linha de investigação do Ministério Público do Amazonas indica que o maior problema está na descontinuidade do tratamento básico. Quando a equipe de saúde da área de origem não monitora o ganho de peso da criança após a saída do hospital, o paciente volta a emagrecer e adoece novamente.

Para tentar conter esse ciclo de internações repetidas, outros órgãos foram acionados para acompanhar a segurança alimentar e social dos indígenas. A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), o Conselho Distrital de Saúde Indígena (CONDISI) Yanomami e o Conselho Tutelar devem apresentar diagnósticos sobre a fome na região. A assistência social da prefeitura também recebeu ordens para abrigar os parentes que viajam com os doentes e ficam desamparados na capital ou na sede do município.

“Queremos assegurar que, após a alta hospitalar, essas crianças continuem recebendo supervisão nutricional e de saúde adequada, para que não retornem ao mesmo contexto de vulnerabilidade que ocasionou o adoecimento”, finalizou a promotora Taize Moraes Siqueira.

Fonte: ASCOM | Orlando Menezes

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