
O lançamento de novos programas sociais em períodos que antecedem disputas eleitorais costuma atrair olhares atentos tanto de aliados quanto de oponentes políticos. Nesta quinta-feira, 2 de julho de 2026, a Prefeitura de Manaus deu início ao projeto “Jaraqui da Gente”, uma ação que distribui peixe de forma gratuita na periferia da capital.
O início dos trabalhos ocorreu nos bairros Cidade de Deus e Jorge Teixeira, integrado à força-tarefa de serviços urbanos batizada de “Manaus que a Gente Cuida”. A medida atende a uma parcela da população exposta à insegurança alimentar, mas levanta debates sobre a sustentabilidade e o real impacto de longo prazo de doações com caráter assistencialista.
Por um lado, a iniciativa injeta recursos na cadeia da pesca artesanal ao adquirir a produção diretamente das comunidades do entorno. Por outro, analistas de gestão pública apontam que a distribuição em massa de alimentos, embora traga alívio imediato para as famílias carentes, funciona como uma resposta temporária que não resolve as causas estruturais da pobreza urbana. O desafio do município reside em transformar ações emergenciais em políticas integradas que promovam a emancipação econômica dos beneficiários.
Estrutura e metas
O planejamento coordenado pela Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (SEMASC) prevê um volume robusto de entregas para abastecer as zonas norte e leste da capital amazonense.
- Volume distribuído: Meta de entregar entre 15 e 20 toneladas de pescado em cada comunidade selecionada.
- Famílias alcançadas: Expectativa de atender cerca de 2 mil núcleos familiares a cada etapa do mutirão.
- Cota individual: Fornecimento de sacolas plásticas contendo de seis a dez jaraquis por residência cadastrada.
- Ações agregadas: Execução paralela de tapa-buracos, varrição, poda de árvores, iluminação pública e atendimentos básicos de saúde.
Economia e safra
A escolha do jaraqui como base do programa ocorre em um momento estratégico do calendário ambiental da região. A espécie, que recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Amazonas neste ano de 2026, vive o seu período de maior abundância nos rios locais entre os meses de julho e setembro, durante o fenômeno da vazante.
O aproveitamento do pico da safra permite ao município comprar o produto por valores mais acessíveis, socorrendo também os pescadores artesanais que enfrentam dificuldades de escoamento.
A administração municipal defende que a compra direta fortalece o setor primário e garante o acesso à principal fonte de proteína animal consumida na região, cujo índice chega a 33 quilos por pessoa ao ano na zona urbana.
Fatores climáticos
O início do programa coincide com alertas técnicos emitidos por órgãos de monitoramento ambiental. A atuação do fenômeno climático El Niño na Amazônia projeta uma redução no volume de chuvas e o aumento severo das temperaturas na região nos próximos meses. Esse panorama meteorológico costuma dificultar a navegação e elevar o preço dos alimentos nos mercados tradicionais da capital.
Diante do risco de uma seca acentuada, a estocagem e distribuição planejada surgem como um amortecedor inflacionário para as famílias de baixa renda. A moradora Fabrício Silva e a aposentada Carionete Costa e Silva relataram que a chegada do insumo representa uma ajuda importante no orçamento doméstico. Da mesma forma, a dona de casa Eucilene, indígena originária do Alto Solimões e residente no bairro Cidade de Deus, expressou alívio ao garantir o sustento de cinco pessoas da sua residência por meio do lote recebido.
Desafios do assistencialismo
O grande debate em torno do “Jaraqui da Gente” gira em torno da continuidade e da abrangência do projeto. Para que o programa social não seja classificado apenas como uma ferramenta de apelo popular temporário, o planejamento orçamentário da prefeitura precisa demonstrar transparência nos critérios de escolha dos bairros e na origem dos recursos utilizados para subsidiar as compras.
Garantir o bem-estar da população da periferia exige que o poder público vá além de entregas sazonais de alimentos. O equilíbrio administrativo demanda que o município utilize o período de fartura nos rios para desenhar redes permanentes de cozinhas comunitárias e feiras de fomento técnico, assegurando que o suporte social seja sinônimo de desenvolvimento sustentável e dignidade para as comunidades manauaras.
Fonte: ASCOM | Alessandra Taveira











