
Os investimentos em energia solar nos Estados Unidos avançam em um ritmo que atropela as decisões políticas de Washington. Embora o presidente Donald Trump tente dar fôlego ao setor de carvão e deixe de lado os incentivos para fontes limpas, os painéis fotovoltaicos continuam batendo recordes no país e lideram com folga a expansão da capacidade elétrica americana.
Dados consolidados divulgados pelo think tank global de energia Ember, em conjunto com o relatório da Associação das Indústrias de Energia Solar (SEIA) e da empresa de análise Wood Mackenzie, comprovam que o avanço tecnológico e as forças de mercado estão superando as barreiras regulatórias federais.
Em maio, pela primeira vez na história, as usinas solares entregaram mais eletricidade à rede nacional do que as usinas a carvão. A energia solar respondeu por 12,8% da geração do país, enquanto o carvão registrou 12,2%, marcando a quarta menor participação mensal da sua história.
Virada na matriz elétrica
A mudança no setor não é um evento isolado, mas o resultado de uma tendência estrutural de longo prazo que enfraquece progressivamente os combustíveis fósseis mais poluentes.
“Há anos a energia solar vem ganhando peso na matriz elétrica dos EUA”, afirma Nicolas Fulghum, analista sênior de energia e dados da Ember. “Ao mesmo tempo, a produção a carvão foi perdendo espaço: primeiro deixou de ser a maior fonte no mix norte-americano e, ao longo dos anos, caiu ainda mais.”
Em maio, a energia solar se posicionou como a terceira maior fonte de eletricidade nos Estados Unidos, ficando atrás somente do gás natural e da energia nuclear. Esse marco foi favorecido pelo comportamento do setor carbonífero, que atingiu o seu mínimo histórico mensal em abril e apresentou uma recuperação muito tímida no mês seguinte, abrindo espaço para o avanço definitivo dos painéis fotovoltaicos.
Explosão no consumo elétrico
A transformação ocorre em um momento crítico para a infraestrutura americana. Após duas décadas de consumo de eletricidade praticamente estagnado, a demanda por energia nos Estados Unidos está registrando uma forte aceleração. Essa nova realidade é impulsionada por fatores específicos:
- O funcionamento de grandes centros de processamento de dados voltados para a inteligência artificial.
- A expansão da atividade industrial interna e manufatureira.
- A eletrificação acelerada dos sistemas de transporte e de aquecimento residencial.
Esse aumento no consumo exige fontes de rápida implementação e custos competitivos. A queima de carvão, petróleo e gás natural libera dióxido de carbono, o que retém calor na atmosfera e agrava o aquecimento global. Por outro lado, as opções solar, eólica, geotérmica, hídrica e nuclear são praticamente livres de emissões de carbono.
A expectativa de analistas da Ember é que o fenômeno de maio se repita com mais frequência ao longo dos próximos meses, permitindo que a geração solar supere a do carvão em termos anuais dentro de poucos anos. A força conjunta das renováveis já se provou eficaz no passado, quando a combinação de energia eólica e solar superou o carvão.
Em determinados meses de primavera, a força dos ventos faz com que a energia eólica, sozinha, ultrapasse a fonte fóssil. Os dados mensais e horários são monitorados de perto pela Administração de Informação sobre Energia (EIA).
Globalmente, a transição segue um ritmo veloz. Projeções da Agência Internacional de Energia (AIE) apontam que as fontes renováveis vão se transformar na maior força energética do planeta, respondendo por quase 45% de toda a produção de eletricidade mundial até o ano de 2030.
Política versus mercado financeiro
Buscando cumprir promessas de campanha e proteger bases aliadas, Donald Trump anunciou um plano de investimentos de US$ 700 milhões para subsidiar centrais termoelétricas antigas e estimular a exportação de carvão americano. Em pronunciamento na Casa Branca, o presidente defendeu a relevância da commodity.
“O carvão é um ótimo negócio”, disse Donald Trump, afirmando ainda que “em termos de produção de energia, não há nada comparável”.
A visão governamental, contudo, encontra ceticismo no ambiente corporativo e financeiro. Executivos do setor argumentam que decretos políticos não conseguem alterar a lógica de rentabilidade do mercado financeiro.
“Trump pode dizer que o carvão está voltando, mas os investidores aplicam o dinheiro onde obtêm melhor retorno”, afirma Martin Pochtaruk, diretor executivo e fundador da fabricante de painéis solares canadense Heliene.
Ele aponta que, no cenário atual, a busca por lucratividade elegeu a energia solar como o combustível de crescimento mais rápido do mundo.
Em contrapartida, a equipe de comunicação da presidência defende que a estratégia adotada visa garantir a resiliência do sistema de abastecimento nacional.
“O presidente reverteu as políticas devastadoras da esquerda, salvou a indústria do carvão norte-americana, evitou o fechamento de mais de 17 gigawatts de capacidade e salvou vidas em períodos de maior procura”, afirmou Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, em nota oficial.
Barreiras e incentivos judiciais
Mesmo diante de ações federais restritivas, que incluíram o cancelamento de projetos eólicos e solares, barreiras burocráticas para travar o licenciamento ambiental e o corte de US$ 7 bilhões em verbas destinadas a programas de energia solar acessível, o setor de energia limpa manteve a liderança. Nos últimos cinco anos, a energia solar foi a principal fonte de nova capacidade instalada no país.
De acordo com a SEIA e a Wood Mackenzie, a energia solar associada aos sistemas de armazenamento por baterias dominou as finais de obras no primeiro trimestre, representando 91% de toda a nova capacidade inserida na rede elétrica americana.
“Em um momento em que a demanda por eletricidade dispara, os ataques políticos e regulatórios estão freando exatamente os recursos de que dependemos”, afirma Darren Van’t Hof, presidente e diretor executivo interino da SEIA. “Bloquear o único setor que está efetivamente construindo nova capacidade é uma aposta arriscada que só vai fazer subir as contas de eletricidade.”
A disputa também ocorre nos tribunais federais. Organizações civis contestaram judicialmente a decisão da Agência de Proteção Ambiental (EPA) de suspender o programa de subsídios “Solar for All”. Um tribunal de distrito extinguiu a ação inicial alegando falta de jurisdição, mas os autores mantêm um recurso pendente no Tribunal Federal de Reclamações.
Em outra frente jurídica, o setor de energia limpa obteve uma vitória expressiva. Um juiz federal invalidou determinações do Serviço de Impostos Internos (IRS) que limitavam o acesso a créditos fiscais para novos empreendimentos eólicos e fotovoltaicos.
Embora o governo atribua a alta do preço da energia ao avanço das fontes limpas, analistas independentes indicam que o encarecimento das tarifas decorre da combinação entre o forte consumo, o sucateamento das linhas de transmissão, a ocorrência de eventos climáticos extremos e o impacto econômico global decorrente da guerra no Irã, desencadeada pela gestão de Trump.
Paradoxo nos estados conservadores
O aspecto mais revelador da expansão da energia limpa nos Estados Unidos é a sua distribuição geográfica. O crescimento do setor não está concentrado em regiões historicamente progressistas, mas sim em redutos eleitorais associados ao próprio partido governista.
De acordo com o mapeamento da SEIA, os estados que deram a vitória a Trump na eleição presidencial de 2024 concentraram 74% de toda a capacidade solar instalada no primeiro trimestre de 2026. O país superou a marca histórica de 6 milhões de sistemas solares ativos, distribuídos em quatro grandes frentes:
- Grandes usinas de utilidade pública conectadas à rede de transmissão.
- Sistemas comerciais de atendimento industrial.
- Projetos fotovoltaicos comunitários compartilhados.
- Instalações residenciais de pequeno porte posicionadas em telhados.
Entre as dez regiões que lideram a instalação de novos painéis solares, destacam-se estados de forte inclinação conservadora:
- Texas
- Flórida
- Ohio
- Indiana
- Michigan
- Arizona
- Mississippi
“Hoje conseguimos aproveitar a energia solar a um custo inferior ao de qualquer outra fonte de energia”, afirma Johanna Neumann, diretora sênior da campanha por 100% de energias renováveis do Environment America Research and Policy Center. “É escalável. E é também a nossa fonte de energia renovável mais abundante. Por isso, é difícil travar uma boa ideia, sobretudo quando a economia também está do seu lado, como acontece com a energia solar.”
Indicadores do painel de monitoramento da instituição revelam que 32 estados americanos já geram pelo menos 10% de suas vendas de eletricidade no varejo a partir de usinas solares, eólicas ou geotérmicas, um avanço expressivo na comparação com os 18 estados registrados em 2016. O avanço é perceptível na região Sul do país, com destaque para a velocidade de implementação na Flórida, no Arkansas e no Mississippi.
“Penso que existe nos Estados Unidos a percepção errada de que a energia limpa é coisa para as costas e para as cidades liberais”, afirma Johanna Neumann. “A verdadeira história das energias renováveis escreve-se nos 50 estados.”
A realidade do mercado elétrico norte-americano evidencia que, embora as políticas públicas possam atrasar ritmos de instalação ou criar fricções burocráticas temporárias, a eficiência de custos e as demandas da nova economia digital impõem uma direção clara para o futuro da matriz energética global.










