Meio ambiente A floresta amazônica ainda sangra e o Amazonas patina na inércia

A floresta amazônica ainda sangra e o Amazonas patina na inércia

No Dia Mundial do Meio Ambiente, apesar da queda expressiva do desmatamento, o Amazonas ainda enfrenta secas extremas, impasses sobre a BR-319, atraso no zoneamento ecológico e o desafio de transformar a floresta preservada em desenvolvimento para quem vive nela.

Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, o Amazonas chega com uma notícia que há poucos anos parecia improvável: o desmatamento está em queda consistente e acelerada. Em 2025, o estado registrou redução de 62% no desmatamento em relação ao pico de 2022, segundo o sistema Prodes do INPE, passando de 2.594 km² para 979 km². E o início de 2026 confirma a tendência: entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, a queda foi de 32% em relação ao ciclo anterior, conforme o Imazon.

No contexto da Amazônia Legal, os primeiros meses de 2026 fecharam com o segundo menor índice de desmatamento para o período desde que o DETER começou a medir. Foram cerca de 400 km² derrubados entre janeiro e março, uma queda de 8% em relação a 2025. No acumulado de agosto de 2025 a março de 2026, a redução chega a 36%, com 1.460 km² destruídos, o menor valor em oito anos.

O relatório do MapBiomas de maio de 2026 traz um dado interessante: em 2025, o desmatamento no Brasil ficou, pela primeira vez, abaixo da barreira de um milhão de hectares. A queda foi de 20,6% em relação ao ano anterior. Outra métrica que impressiona: 65% das áreas com alerta de desmatamento foram alvo de ações concretas das autoridades em 2025. Em 2019, esse índice era de apenas 5%.

Ponto positivo

O número de operações de fiscalização ambiental na Amazônia cresceu quase 148% em relação ao ciclo anterior, com 1.754 ocorrências registradas. Apreensões de madeira cresceram 65% e a retenção de minérios avançou 170%.

Apesar da boa notícia, especialistas insistem que não é hora de comemorar. O Cerrado, outro grande bioma brasileiro, está no caminho inverso: subiu 15% no desmatamento no primeiro trimestre de 2026, com 1.466 km² destruídos. E mesmo na Amazônia, a tendência positiva pode ser revertida no segundo semestre, o período seco, quando concentra a maior parte da derrubada anual.

O ano em que a Amazônia quase quebrou

Antes de celebrar os avanços, é preciso olhar para a ferida ainda aberta. O biênio 2023-2024 foi um dos mais devastadores da história recente da Amazônia. Uma combinação explosiva de El Niño intenso, aquecimento do Atlântico Norte e desmatamento acumulado produziu o que pesquisadores chamaram de “colapso ambiental em curso”.

Em 2024, a seca extrema afetou 9 em cada 10 Terras Indígenas na Amazônia. Mais da metade dos municípios amazônicos passaram o ano inteiro em seca. A área sob influência da seca extrema saltou de 873 mil hectares em junho para mais de 21 milhões em setembro, um aumento de 2.300% em apenas três meses. Em Manaus, o Rio Negro atingiu mínima histórica. A estiagem forçou 35 mil pessoas no Amazonas a se deslocarem de suas comunidades.

“O que vivenciamos não foi uma estiagem isolada, mas um colapso ambiental em curso. A crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar”, disse Toya Manchineri, coordenador-Geral da COIAB.

As queimadas de 2024 completaram o quadro. Segundo o MapBiomas, a área queimada no Brasil cresceu 79% em relação ao ano anterior, superando 30 milhões de hectares. A Amazônia foi o bioma mais atingido. E, segundo pesquisadores do Imazon, em 2024 a degradação florestal (incêndios que não chegam a desflorestar completamente) emitiu 2,5 vezes mais gases de efeito estufa do que o desmatamento, dados que oficialmente não são contabilizados pelo Brasil nas suas metas climáticas.

O problema invisível

Incêndios florestais que não configuram “desmatamento” pela metodologia oficial não entram nas estatísticas de emissões do Brasil. Em 2024, esse tipo de degradação emitiu 2,5× mais CO₂ equivalente que o desmatamento computado, uma lacuna enorme nos compromissos climáticos nacionais.

O La Niña que entrou no fim de 2024 trouxe alívio às chuvas em 2025 e explica em parte a queda no desmatamento e nos incêndios. Mas especialistas alertam que os impactos acumulados de anos de extremos climáticos não se recuperam na mesma velocidade com que chegam, e que o período seco de 2026 será o verdadeiro teste.

O Plano de Bioeconomia

Uma das apostas mais concretas do ex-governo Wilson Lima, para o desenvolvimento do estado, chegou à sua fase mais visível. O Plano Estadual de Bioeconomia do Amazonas foi lançado internacionalmente durante a COP30, em Belém, em novembro de 2025, após um processo participativo iniciado em 2019 que percorreu todos os 62 municípios do estado.

O decreto que formalizou o plano foi assinado pelo governador no início de 2026. A execução tem horizonte de 2025 a 2030, ou, na versão regulamentada por lei, de 2026 a 2031, garantindo continuidade administrativa mesmo após a troca de governo prevista para outubro de 2026. A estratégia é transformar cadeias produtivas locais, incentivar a industrialização de insumos da floresta e gerar emprego e renda no interior, reduzindo a dependência econômica da capital.

O plano determina prioridade para negócios que envolvam mulheres, jovens, agricultores familiares e comunidades tradicionais. Em 2026: lançamento de plataforma de cadastro de empreendimentos comunitários e formação de 50 agentes de crédito rural. Em 2027: 10 editais para fortalecimento de cadeias produtivas e dois Núcleos de Desenvolvimento da Sociobioeconomia.

No plano federal, o governo Lula lançou em abril de 2026 o Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia (PNDBio), a estratégia brasileira até 2035. Em paralelo, a Embrapa iniciou uma série de oficinas para consolidar a agenda na região, baseando-se em 40 oficinas de consulta realizadas entre 2024 e 2025 com comunidades tradicionais e agricultores familiares.

O alinhamento entre os planos estadual e federal é visto como a maior janela de oportunidade da história recente para a bioeconomia amazônica.

Para especialistas, o desafio não é o plano de bioeconomia em si, mas a capacidade de fazê-lo “sair do papel”. A distância entre a política pública e o projeto que chega à comunidade ribeirinha permanece o maior obstáculo da bioeconomia amazônica.

O PIB do Amazonas cresceu de R$ 108,1 bilhões em 2019 para R$ 179,8 bilhões em 2025, alta de 66%. Mas especialistas alertam que esse crescimento continua concentrado no Polo Industrial de Manaus e no setor de serviços. A bioeconomia representa ainda uma fatia pequena, e escalonar cadeias produtivas da floresta para abastecer mercados nacionais e internacionais exige infraestrutura, logística e regulação que ainda estão em construção.

Zoneamento emperrado na ALEAM

O Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) é o instrumento de planejamento territorial que define, com base em estudos científicos de clima, vegetação, economia e população, quais áreas são aptas para agricultura, pecuária, extrativismo, conservação e urbanização. É, em tese, a espinha dorsal de qualquer estratégia séria de desenvolvimento sustentável.

No Amazonas, o ZEE foi elaborado pela Sedecti e parou por aí. O projeto aguarda análise da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) há quase 20 anos, sem que o tema sequer tenha sido debatido formalmente em plenário. Roraima e Rondônia já transformaram o zoneamento em lei, o que lhes permitiu avançar em políticas agrícolas e de fomento sustentável. O Acre, ao concluir seu ZEE há mais de uma década, consolidou cadeias produtivas de borracha, castanha e óleos vegetais.

“O zoneamento ecológico-econômico é um planejamento do futuro, com equilíbrio entre a natureza e o desenvolvimento. Esse assunto nunca mais foi debatido no Poder Legislativo”, destacou à imprensa, em dezembro de 2025, Glênio Seixas, ex-prefeito de Barreirinha e pré-candidato à Aleam nas eleições de 2026.

Atualmente, a implementação está sendo discutida de forma regionalizada, começando pela Sub-Região do Purus, no Sul do Amazonas. Desde 2023, o deputado Adjuto Afonso (União Brasil) articula reuniões com municípios como Boca do Acre e Apuí. Em julho de 2025, representantes de municípios do sul do estado se reuniram com Wilson Lima para discutir a implantação efetiva. Mas tudo parou por aí.

Impacto real da ausência do ZEE

Sem o ZEE homologado, o Amazonas não consegue implementar plenamente a Lei Florestal (como a redução da Reserva Legal em áreas consolidadas), não operacionaliza o seguro safra, dificulta o acesso a financiamentos com taxas menores e não oferece segurança jurídica para investimentos sustentáveis.

A retórica da bioeconomia e dos créditos de carbono “só se materializa quando amparada por um marco técnico e legal que territorialize essas agendas.”

Para analistas, a paralisação do ZEE na Aleam por duas décadas reflete um problema estrutural da política amazônica: a dificuldade de converter estudos técnicos de excelência em normas que organizem o território. O estado detém 97% da cobertura vegetal preservada, um ativo extraordinário, mas sem o instrumento jurídico que o organize, esse potencial se converte lentamente em riqueza real para quem vive na floresta.

ONGs: parceiras ou travas ao desenvolvimento?

Poucas questões dividem tanto a opinião pública amazônica quanto o papel das organizações não governamentais na região. Para um lado, são atores insubstituíveis na defesa da floresta e das comunidades. Para o outro, representam interesses externos que engessar o desenvolvimento de uma população que precisa de infraestrutura, renda e oportunidades.

Os números ajudam a dimensionar a presença: segundo levantamento do Ipea de 2019, existem mais de 102 mil organizações da sociedade civil com sede em municípios da Amazônia Legal. As mais relevantes, como ISA, Imazon, FAS, FVA, WWF e Greenpeace, têm décadas de atuação, estruturas robustas e financiamento nacional e internacional, inclusive do Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES.

O que as Ongs fazem de positivo: monitoramento do desmatamento com dados que o governo não produziria (INPE, Imazon, MapBiomas); acesso a populações remotas sem serviços públicos básicos (saúde, educação, energia); formalização de territórios indígenas e apoio jurídico a comunidades tradicionais; pesquisa aplicada para políticas de conservação e uso sustentável, e captação de recursos internacionais que não chegam por outros meios.

As críticas frequentes contra elas podem ser listadas assim: judicialização de obras de infraestrutura sem alternativas para os afetados; discurso do “desenvolvimento sustentável” que, segundo críticos, perpetua a pobreza na região; financiamento por países poluidores que impõem restrições à soberania amazônica; atuação em territórios indígenas sem mandato claro das comunidades e falta de transparência em alguns casos sobre uso de recursos e resultados.

A CPI das ONGs no Senado, em 2023, expôs a polarização. Enquanto senadores como o relator Eduardo Braga (AM) defendem que o “modelo do desenvolvimento sustentável só aumenta a pobreza”, outros parlamentares e especialistas ressaltam que em Rondônia, o único estado amazônico com mais famílias fora do Bolsa Família, as ONGs tiveram papel relevante na transição para cadeias produtivas legais.

“Essas ONGs são sustentadas pelos maiores poluidores do planeta. E em nome da sustentação ambiental, criamos reservas e abrimos mão de explorarmos petróleo, ouro, minérios, nióbio, e damos em troca bolsas de R$ 200 pra população”, destacou o senador Eduardo Braga durante a CPI das ONGs, em 2023.

A questão mais espinhosa é a judicialização. A ação do Observatório do Clima contra os editais da BR-319, em abril de 2026, e a decisão judicial que suspendeu as licitações dias depois, são o exemplo mais recente de como ONGs (e o sistema judicial) podem paralisar projetos de infraestrutura por anos.

Para os defensores da floresta, isso é exatamente o mecanismo de freio necessário numa região vulnerável. Para os que vivem à beira da BR-319 sem acesso a saúde, mercados ou internet, é mais uma década perdida.

A resposta mais honesta talvez seja: as ONGs no Amazonas não são monolíticas. Algumas têm atuação exemplar com comunidades; outras refletem agendas externas sem arraigamento local. O marco regulatório das organizações da sociedade civil, hoje frágil, é o que determina a diferença entre uma e outra, e é nele que o debate deveria se concentrar.

A BR que divide a Amazônia

Construída pelo regime militar em 1972, a BR-319 liga Manaus a Porto Velho atravessando 885 km do coração da Amazônia. Desde 1988, quando o Governo Federal abandonou sua manutenção, o trecho central de 339 km virou barro intransitável na cheia e poeira sufocante na seca. É a única ligação terrestre do Amazonas com o restante do país.

Em 26 de maio de 2026, o presidente Lula visitou pessoalmente as obras no chamado “trecho Charlie” da rodovia, afirmando que ela seria “ambientalmente a estrada mais moderna do mundo.” O governo anunciou investimento de R$ 20 bilhões e um modelo inédito de monitoramento ambiental: torres de observação, estações meteorológicas, central de alertas e fiscalização integrada ao longo de todo o corredor.

Mas a obra está no centro de uma batalha jurídica e política sem precedentes. Em abril de 2026, o DNIT publicou quatro editais de licitação para a pavimentação, usando como base a nova Lei do Licenciamento Ambiental (lei 15.190/2025), que permite em alguns casos dispensar estudos completos de impacto. O Observatório do Clima entrou na Justiça argumentando inconstitucionalidade e uma juíza federal acatou o pedido, suspendendo as licitações em 29 de abril. A seguir, a desembargadora Maria do Carmo Cardoso, presidente do TRF1, derrubou a decisão da juíza.

O nó do licenciamento

O Ibama classifica a BR-319 como de “significativo impacto ambiental”, o que pela Constituição obriga a elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA). O governo usa a nova lei para tentar enquadrá-la como “manutenção de infraestrutura preexistente”, o que dispensaria esse estudo. Uma licença prévia foi emitida pelo Ibama em 2022, no governo Jair Bolsonaro, mas técnicos do órgão sempre alertaram para os riscos de desmatamento especulativo no entorno.

Os dados do entorno são contraditórios. De um lado, positivos: o desmatamento na faixa de 50 km de cada lado da BR-319 caiu 75% entre 2022 e 2025. De outro, preocupantes: um levantamento do Observatório BR-319 de 2023 mostrou que a malha de ramais ilegais em quatro municípios da região (Canutama, Humaitá, Manicoré e Tapauá) é quase seis vezes maior que a extensão da própria rodovia. E a história mostra que a simples expectativa de pavimentação já fez o desmatamento especulativo dobrar após a licença prévia de 2022.

Os argumentos pró-pavimentação são estes: a BR é a única ligação terrestre de Manaus ao restante do Brasil; a pobreza extrema no interior é o maior driver do desmatamento predatório; infraestrutura rodoviária pode viabilizar fiscalização permanente e presença do Estado; queda de 75% no desmatamento no entorno da rodovia entre 2022 e 2025, e o “Plano 319”, que estabelece cronograma de proteção ambiental integrado à obra.

Os argumentos contrários dizem que estradas na Amazônia induzem abertura de ramais ilegais; que a licença prévia de 2022 já gerou desmatamento especulativo dobrado; que 26 ramais ilegais foram abertos antes mesmo da obra começar; que a obra avança sem aguardar conclusão das licenças e dos EIAs obrigatórios, e que o plano de proteção não tem recursos garantidos nem integração real ao licenciamento.

No fundo, a BR-319 encarna a tensão irresoluta da Amazônia: o estado mais preservado do país é também um dos mais pobres e isolados. A rodovia pode ser o vetor do desenvolvimento que beneficia os moradores do interior ou o caminho que leva o arco do desmatamento ao coração da floresta. Provavelmente, como quase tudo na Amazônia, será as duas coisas ao mesmo tempo.

O “Plano 319”, acordo costurado em julho de 2025 entre os ministérios dos Transportes e do Meio Ambiente, tenta ser o equilíbrio, combinando cronograma de obras com ações de proteção ambiental. Para o Observatório do Clima, é insuficiente: “não dá para construir agora e proteger depois”. Para o senador Eduardo Braga e os moradores do interior que aguardam a rodovia há décadas, qualquer proteção que postergue mais a obra é, ela própria, uma forma de abandono.

O que fazer agora?

O Amazonas de 2026 é um estado de contradições extraordinárias. Detém 97% de cobertura vegetal preservada e registra, ao mesmo tempo, o segundo maior índice de desmatamento entre os estados brasileiros. Tem um Plano de Bioeconomia lançado internacionalmente em Belém, mas um Zoneamento Econômico-Ecológico parado na Aleam há duas décadas. Viu o desmatamento cair 62% em três anos, mas enfrenta a ameaça de que uma estrada reverta esses ganhos. Tem ONGs de monitoramento que são referência mundial, e uma população que se sente tutelada por elas.

O que os dados desta reportagem revelam, no conjunto, é que o Amazonas está sendo razoavelmente bem cuidado no combate ao desmatamento, melhor do que em qualquer ponto da última década. Mas que a promessa de um desenvolvimento que inclua quem vive na floresta ainda é mais discurso do que realidade.

O Plano de Bioeconomia existe; falta a capilaridade para chegar nas comunidades. O ZEE foi elaborado; falta a vontade política para transformá-lo em lei. A BR-319 começa a ser pavimentada; falta o arcabouço de proteção que torne essa obra uma vitória para todos.

Neste 5 de junho, o Amazonas tem motivos reais para comemorar e razões urgentes para não se deixar levar pela complacência.

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