
Por Juscelino Taketomi
Manaus se acostumou a matar as próprias lembranças. Mata o Centro Histórico aos poucos, deixa apodrecer o Largo São Sebastião, abandona o Parque Senador Jefferson Péres, esquece o Mestre Chico sob o peso da sujeira e do descaso. Agora, no meio desse mesmo desmantelo, vai assassinando também o Sauim-de-Coleira.
Pouca gente sabe por onde ele ainda anda. Eu o vi numa manhã abafada, entre as sombras de um fragmento de mata encurralado entre uma loja de materiais de construção e um condomínio erguido na brutalidade do cimento. O pequeno macaquinho me observava de um galho fino, quase seco, com aqueles olhos grandes e escuros que pareciam carregar uma pergunta antiga.
Era ele. O Sauim-de-Coleira. O Saguinus bicolor. O bichinho de rosto claro e corpo escuro que a Prefeitura de Manaus escolheu como símbolo oficial da cidade. “Símbolo”, palavra que me veio amarga, com gosto de ferrugem e ironia.
Penso nele toda vez que vejo a floresta desaparecer da Zona Norte, da Zona Leste e dos arredores de Manaus, onde a cidade cresce como uma febre descontrolada. Penso nele quando atravesso ruas que nasceram depressa demais, abertas a golpes de máquina sobre o barro e o igarapé. Penso nele quando escuto uma motosserra trabalhando no meio da tarde e ninguém aparece para impedir. Nenhum fiscal. Nenhuma autoridade. Nenhuma ONg de ocasião. Nenhuma vergonha.
Manaus cresce. O Sauim encolhe. E a figura dele continua estampada em placas, logotipos e discursos oficiais, bonita e inútil como uma flor de plástico sobre um túmulo.
A ciência diz que o Sauim perdeu oitenta por cento da população desde 1997. Oitenta por cento. Em menos de trinta anos, quatro de cada cinco desapareceram da floresta onde viveram por séculos. Não fugiram. Não migraram. Foram apagados.
Os que restam vivem espalhados em pequenas manchas de mata cercadas por ruas, muros, fios elétricos e cães domésticos. Vivem como sobreviventes de uma guerra que ninguém admite existir.
A cada ano, centenas de quilômetros quadrados de floresta desaparecem dentro da área onde a espécie ainda tenta resistir. Quem souber fazer as contas talvez descubra a data exata da sentença final.
O poder público parece assistir a tudo com uma serenidade obscena. O Plano Diretor de Manaus virou peça decorativa. As leis ambientais repousam em gavetas enquanto condomínios avançam sobre áreas protegidas como se fossem donos do mundo. A especulação imobiliária entra na mata com a tranquilidade de quem sabe que nada lhe acontecerá. E o sauim, que não vota, não financia campanha e não inaugura obra, perde mais um pedaço de floresta. Depois outro. Depois outro. E mais outro.
Às vezes eu me pergunto o que pensa um homem ao assinar uma autorização irregular. Se ele já parou para observar um grupo de sauins atravessando as copas das árvores com a delicadeza nervosa dos animais ameaçados. Se já ouviu seus chamados agudos cortando o silêncio da mata no fim da tarde. Talvez não. Talvez veja apenas números, lotes e metros quadrados.
Talvez esse homem nunca tenha sabido que cada grupo possui apenas uma fêmea reprodutora. Que a fragmentação da floresta isola famílias inteiras. Que o isolamento empobrece o patrimônio genético da espécie e empurra o animal lentamente para a extinção. Mas essas coisas raramente cabem numa reunião sobre expansão urbana.
Há pesquisadores que dedicam a vida ao Sauim-de-Coleira. Gente séria do INPA, da UFAM e do Instituto Sauim-de-Coleira. Pessoas que acordam cedo para contar indivíduos, mapear corredores florestais, estudar hábitos, tentar salvar o que ainda respira.
Eu admiro muito essa gente. Porque sei que trabalham contra o tempo, contra a burocracia e, sobretudo, contra a indiferença.
Relatórios se acumulam em mesas de repartições onde sempre existe algo considerado mais urgente. Sempre haverá um viaduto, uma avenida, um loteamento ou uma campanha eleitoral mais importante que um pequeno primata ameaçado.
Enquanto isso, o Sauim dorme entre palmeiras e cipós, alimenta-se de frutas, insetos e néctar, espalha sementes pela floresta e ajuda silenciosamente a manter de pé um equilíbrio ecológico que nós destruímos sem compreender.
Ele nunca pediu nada além do direito de continuar vivo. Em troca, nós o atropelamos nas avenidas abertas sobre sua mata. Nós o eletrocutamos nos fios que cortam seu território. Nós soltamos cães sobre os corredores verdes onde ele tenta sobreviver. E depois, com sorrisos cínicos, estampamos sua imagem como emblema oficial da cidade. Como se o símbolo absolvesse o crime. Não absolve.
Todo mês de outubro, Manaus comemora aniversário entre fogos de artifício, discursos inflamados e celebrações sobre a grandeza da maior cidade da Amazônia. Eu escuto os fogos e lembro daquele pequeno sauim me olhando do galho fino naquela manhã abafada.
Ainda penso no olhar do singelo macaquinho. Penso na pergunta muda que havia ali. Talvez a resposta mais honesta seja esta: nós sabemos o que estamos fazendo. Sabemos que é errado. Sabemos que pode ser irreversível. E continuamos assim mesmo.
Isso não é desenvolvimento. Isso é extinção com placa de inauguração. Isso é assassinato.










