
Por Estagiário De Lara
A política brasileira nunca decepciona quem gosta de ironia. Enquanto o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), se prepara para a sua sétima disputa presidencial aos 80 anos, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), resolveu jogar uma bomba no colo da classe política.
O parlamentar de 44 anos protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que propõe o fim da reeleição para presidente da República. A jogada tenta frear o uso da máquina pública, mas também serve como um xadrez antecipado para 2030.
A conta da eleição
A justificativa para acabar com a reeleição tem números astronômicos. Um relatório do Banco BTG Pactual apontou que a gestão federal injetou cerca de R$ 88 bilhões em medidas de transferência de renda e crédito apenas neste ano eleitoral. O objetivo é turbinar a popularidade custe o que custar.
A lista de bondades com o dinheiro do pagador de impostos inclui iniciativas conhecidas e novas apostas no mercado financeiro.
- Programas: “Luz do Povo”, “Gás do Povo”, “Reforma Casa Brasil” e “Minha Casa Minha Vida” lideram os gastos.
- Estímulos: crédito consignado privado e o saque aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Colapso fiscal
O problema de gastar dinheiro que não existe é que a conta sempre chega. No ano passado, o déficit primário cresceu 32%, a dívida pública bateu recorde histórico, as estatais tiveram o maior rombo da história e o Brasil gasta cerca de R$ 1 trilhão por ano apenas com os juros mais altos em duas décadas. A situação é tão grave que até aliados admitem o perigo iminente.
“Em 2027 seja quem for o próximo presidente da República não governa com essas regras fiscais sem gerar inflação dívida pública e detonar economia”, alertou a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet.
Ela mesma reconhece que políticos de olho na reeleição não se preocupam com o futuro do país, comprovando o mérito da proposta de Flávio Bolsonaro de barrar o uso irresponsável dos gastos públicos em vésperas de pleito.
4º mandato
Apesar do barulho, a Proposta de Emenda à Constituição não deve atrapalhar os planos do atual chefe do Executivo. Leis que alteram o processo eleitoral precisam entrar em vigor um ano antes da eleição. Ou seja, a corrida para o quarto mandato do petista está garantida sem sobressaltos jurídicos.
“Eu quero lhe dizer que eu vou completar 80 anos mas pode ter certeza que eu tô com a mesma energia de quando eu tinha 30 anos de idade e vou disputar um quarto mandato no Brasil”, declarou Luiz Inácio Lula da Silva.
O clima da campanha, no entanto, passou longe do antigo lema de paz e amor e assumiu um tom bélico.
“Essa eleição vai ser uma guerra“, avisou o petista, orientando seus apoiadores a não aceitarem críticas calados e a deletarem adversários.
Enquanto o atual presidente se agarra ao poder aos 80 anos, a atitude de Flávio Bolsonaro de abrir mão de um possível segundo mandato cria um efeito dominó interessante. O desapego ao cargo atrai o apoio de outros presidenciáveis que já estão de olho na cadeira para 2030. Ao prometer que não tentará a reeleição, o senador fortalece alianças e pavimenta o caminho com o apoio de quem deseja o mar da política, mas não quer esperar muito tempo no porto.
O debate sobre o fim da reeleição expõe a ferida dos gastos públicos no Brasil. Enquanto a máquina federal abre os cofres com programas bilionários para tentar garantir vitórias nas urnas, o risco de um apagão fiscal no próximo mandato assombra a economia. A proposta apresentada pelo senador carioca pode não impedir a candidatura do atual presidente em 2026, mas muda o jogo das alianças da direita, transformando o fim da perpetuação no poder em uma valiosa moeda de troca eleitoral para o futuro.










