
Por Juscelino Taketomi
Hoje urge reconhecer que o Vale do Javari é mais que uma terra indígena: é um verdadeiro continente fincado no extremo oeste do Amazonas, uma imensidão de 8,5 milhões de hectares de floresta intocada, rios navegáveis e biodiversidade única.
Ali vive a maior concentração de povos indígenas isolados do planeta — homens e mulheres que ainda respiram o mesmo ar de milênios atrás, guardando a memória viva da Terra em sua pureza original.
Mas o que deveria ser um santuário da vida se transformou, aos poucos, em um campo de disputas, cobiças e crimes. As riquezas naturais do Javari — do ouro que dorme sob a terra ao carbono que se acumula nas copas das árvores — tornaram-se alvo de uma nova corrida, uma febre moderna que combina tecnologia, biopirataria e interesses econômicos globais.
Relatórios da Funai revelam que pelo menos sete empresas nacionais e estrangeiras vêm tentando explorar créditos de carbono e biodiversidade dentro do território indígena, muitas vezes com invasões disfarçadas de “projetos ambientais” e manobras que dividem as próprias comunidades. O órgão federal chegou a chamá-las de “biopiratas do carbono”, tamanha a ousadia das operações.
Em dezembro de 2022, um contrato assinado entre a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari) e três empresas — Comtxae, Biotapass e Biota — abriu um perigoso precedente, agora contestado pelo Ministério Público Federal, que pede a anulação do acordo e indenização por danos morais coletivos.
A investigação aponta cláusulas abusivas, ausência de consulta livre e informada aos indígenas e até riscos de contaminação e dizimação de povos isolados.
Financeirização da floresta
O Javari, que já sofre com o garimpo, a extração ilegal de madeira e o tráfico de animais, agora enfrenta uma nova frente de ameaça: a financeirização da floresta.
O que antes era explorado com motosserra e mercúrio, hoje se tenta capturar com contratos e cifras em dólares — um garimpo de papel e promessas verdes, mas igualmente destrutivo.
As operações conjuntas da Funai, Polícia Federal e ICMBio têm procurado conter o avanço das ilegalidades. Só a Operação Kampô, realizada em julho de 2025, causou prejuízo de R$ 18 milhões ao garimpo ilegal na bacia dos rios Jutaí e Bóia, destruindo dragas, rebocadores e redes de comunicação usadas pelos criminosos.
Ainda assim, a pressão sobre o território cresce, impulsionada pela ganância e pela ausência do Estado nas fronteiras mais remotas da Amazônia.
É nesse cenário que se aproxima o período pré-eleitoral de 2026 — e a preocupação é inevitável. O crime organizado, hoje fortemente enraizado em várias regiões do Estado, vê na Amazônia profunda um terreno fértil para o avanço de seus interesses. E o Vale do Javari, com suas rotas fluviais que se conectam ao Peru e à Colômbia, é uma das áreas mais estratégicas dessa disputa.
A influência do narcotráfico, do garimpo e da biopirataria sobre lideranças locais e movimentos políticos é uma ameaça real e crescente. A fragilidade institucional e a distância dos centros de decisão tornam o território ainda mais vulnerável à cooptação e ao uso eleitoral de recursos ilícitos.
Questão de soberania
Por isso, é urgente que a questão do Vale do Javari seja tratada com responsabilidade de Estado e não apenas de governo. A proteção desse território não é só uma causa indígena: é uma questão de soberania nacional, de segurança ambiental e de integridade democrática.
O Javari precisa de presença efetiva, não de promessas. Precisa de políticas públicas duradouras, não de operações esporádicas. Precisa de vigilância tecnológica, inteligência policial e respeito às comunidades, não de contratos obscuros assinados na sombra da floresta.
Enquanto o mundo inteiro discute os limites do aquecimento global e o valor do carbono, a Amazônia continua a ser explorada à margem da lei, e os povos que a protegem — invisíveis e isolados — seguem ameaçados por um sistema que transforma tudo em mercadoria, até o ar que respiramos.
Tratar o Vale do Javari com seriedade é, hoje, uma tarefa civilizatória. O futuro da Amazônia e da própria democracia brasileira passa pela defesa desse território. Porque quem controla o Javari, controla uma porção da floresta, mas, principalmente, controla uma parte essencial da alma do Brasil.











