
O governo brasileiro encerra o ano de 2025 com um discurso de tranquilidade diante das novas barreiras comerciais impostas pela China. Embora o Ministério da Agricultura e o MDIC tentem minimizar o impacto, a decisão de Pequim de limitar a importação de carne bovina a partir de 1º de janeiro de 2026 acende um alerta vermelho que não pode ser ignorado. A “dependência chinesa” cobra seu preço e exige mais do que otimismo diplomático: exige estratégia urgente.
Ao olhar friamente para os números, o Brasil parece ter saído em vantagem. Receber a maior cota individual entre todos os fornecedores mundiais, fixada em 1,1 milhão de toneladas anuais, é um sinal de prestígio e reconhecimento da qualidade sanitária do nosso produto. No entanto, é preciso ler as entrelinhas.
O que o governo classifica como uma posição confortável é, na verdade, um teto de crescimento. Qualquer volume que ultrapasse essa cota será taxado em 55%, o que inviabiliza a competitividade do produto excedente. Para um setor acostumado a bater recordes de exportação ano após ano, ter um limite rígido no seu maior mercado comprador obriga a cadeia produtiva a repensar sua expansão baseada apenas em volume.
O otimismo oficial versus a realidade do mercado
O ministro Carlos Fávaro classifica a medida como “não tão preocupante”, apoiando-se na abertura de 20 novos mercados durante a atual gestão e na ampliação de outros já existentes. A estratégia de diversificação é correta e louvável, mas é preciso questionar a velocidade dessa transição.
Nenhum dos novos mercados abertos possui, individualmente, o apetite voraz da China. Substituir o excedente que o gigante asiático deixará de comprar exigirá um esforço logístico e comercial monumental para pulverizar essa carne em dezenas de países menores. A segurança alimentar chinesa, argumento usado para proteger os produtores locais deles, funciona como um lembrete de que o Brasil não pode colocar todos os seus ovos na mesma cesta.
Entenda os pontos cruciais da nova medida
Para o produtor e para o mercado financeiro, a clareza sobre as regras do jogo é fundamental. A medida chinesa não é um bloqueio total, mas uma reestruturação de mercado que visa fortalecer a pecuária interna da China.
Confira os detalhes que definem o cenário para os próximos três anos:
- Vigência e duração: A regra entra em vigor nesta quinta-feira, 1º de janeiro de 2026, e terá validade inicial de três anos. Isso significa que o cenário está travado até o final de 2028.
- O sistema de cotas: A China estabeleceu um limite global de importação de 2,7 milhões de toneladas. Desse total, o Brasil abocanhou a maior fatia, com 1,1 milhão de toneladas garantidas.
- A sobretaxa punitiva: O gatilho da medida é a tarifa. Tudo o que ultrapassar a cota estabelecida sofrerá uma taxação de 55%. Na prática, isso torna a venda do excedente economicamente inviável, forçando o Brasil a vender apenas até o limite da cota.
- Protecionismo estratégico: A motivação oficial é a proteção dos produtores locais chineses. A China vem investindo pesado em genética e rebanho próprio, sinalizando que a era das importações desenfreadas está chegando ao fim.
O caminho para 2026
A atuação do Brasil na OMC e as conversas bilaterais são importantes, mas não mudarão a realidade imediata. O ano de 2026 começa com um desafio claro para a pecuária nacional: focar em eficiência e valor agregado, já que a expansão por volume encontrou uma barreira física.
Se o “tarifaço” dos Estados Unidos já havia impulsionado a busca por novos parceiros, a cota chinesa torna essa missão uma questão de sobrevivência. O Brasil continua sendo o gigante da carne, mas as regras do jogo mudaram e a adaptação precisará ser rápida.
Fonte: https://www.metropoles.com/brasil/governo-diz-que-mantera-dialogo-com-china-e-omc-sobre-tarifas











