
Por Juscelino Taketomi
Em 1966, Sérgio Porto, sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, compôs o monumental “O Samba do Crioulo Doido” para provar que, quando a realidade perde o juízo, a sátira deixa de ser exagero e vira ata notarial.
Naquele tempo, obrigavam as escolas a enfiar herói histórico em carro alegórico como quem enfia sardinha em lata. O desfecho foi uma coisa maluca: Dom Pedro dançando com Tiradentes enquanto a lógica desfilava de muletas, pedindo licença poética para atravessar a avenida.
Sessenta anos depois, imaginávamos já ter visto todas as combinações possíveis entre Carnaval e delírio nacional. Eis que a Acadêmicos de Niterói, em um fevereiro chuvoso de 2026, decide homenagear ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva, vivo, operante, candidato em estado latente, na Marquês de Sapucaí. O que era samba virou santinho com plumas e o que era alegoria virou palanque com iluminação cênica.
Os defensores falaram em “liberdade artística”. Claro. Evidente. Cristalino. Tão cristalino quanto pastel de vento anunciado como alta gastronomia molecular.
O enredo não economizou nos símbolos: refrão com nome do presidente repetido à exaustão, número 13 piscando mais que pisca-alerta em congestionamento pré-feriado, adversários reduzidos a caricaturas de parque temático. Houve ex-presidente fantasiado de palhaço preso, houve faixa presidencial “subtraída” em pleno carro alegórico e até ala de latas de conserva com bíblia sob o braço, numa sátira à família tradicional, a qual, a esta altura, talvez já tenha solicitado refúgio em Petrópolis, alegando perseguição carnavalesca.
O presidente acompanhou tudo do camarote, desceu, cumprimentou, acenou. Faltou apenas distribuir santinho na dispersão e prometer feijoada no segundo turno. A primeira-dama ensaiou desfilar, mas alguém soprou prudência ao pé do ouvido: “Melhor não. Ainda confundem comissão de frente com comitê central”. Preservou-se, assim, a liturgia do cargo, como uma entidade mística que, no Carnaval, costuma vestir fantasia de colombina e sair para brincar.
Os juristas, convocados às pressas, empenharam-se em explicar que não se tratava de campanha antecipada, mas de exaltação estética. Devem ter folheado tratados medievais para sustentar que jingle não é jingle quando executado por surdo e tamborim. A equação era delicada: se barrasse, censura. Se liberasse, cultura. Se punisse depois, hermenêutica criativa com adereço barroco.
No fim, a única consequência imediata foi o rebaixamento da escola para a segunda divisão do carnaval fluminense. E aí reside a ironia fina, digna do velho Stanislaw: a agremiação que subiu no palanque desceu na apuração. Se a Sapucaí fosse urna eletrônica, diríamos que o resultado teve caráter pedagógico.
Carnaval aceita sátira, crítica e deboche. São seus nutrientes básicos. Mas quando a avenida se converte em palanque e o enredo assume ares de plataforma de governo, corre-se o risco de trocar comissão de frente por comissão eleitoral e mestre-sala por marqueteiro.
A oposição agradece, o centro articula, o mercado ajusta planilhas e o eleitor, um personagem folclórico e imprevisível, observa com espanto indignado. O fiel já estava convencido antes do primeiro repique. O adversário permaneceu adversário. E o indeciso, aquele que realmente decide eleições, talvez tenha concluído que, se o samba é do petista doido, o voto não precisa ser.
A Acadêmicos de Niterói acabou prestando, sem querer, um serviço à ciência política: demonstrou que aplauso não é sinônimo de sufrágio e que purpurina não substitui programa de governo. Há desfiles que sobem a ladeira da popularidade e outros escorregam na própria exuberância.
Se Stanislaw Ponte Preta estivesse na arquibancada da Sapucaí, anotaria no caderninho: “No Brasil, quando o samba é demais, até a cuíca pede habeas corpus”. E talvez completasse: “Misturar Carnaval com calendário eleitoral é correr o risco de descobrir que o enredo é livre, mas a apuração é soberana”.
Carnaval, por aqui, começa em samba e termina em súmula. No fim, sempre há um jurado levantando plaquinha, às vezes na Sapucaí, às vezes na urna.
Rir, ao menos por enquanto, ainda dispensa autorização do TSE e nota oficial da comissão julgadora. Mas convém cautela: ainda há muito tamborim por rufar até a próxima apuração. E, em política, quem não cuida bem do carro alegórico pode descobrir, tarde demais, que a avenida é larga, mas a descida é rápida.










