Quando Brasília acelera o gasto, Manaus sente no chão de fábrica

No fim, o PIM não depende só de incentivos — depende do Brasil manter um ambiente em que o consumidor consiga comprar e a indústria consiga planejar

Por Nelson Azevedo (*)

O Brasil chega a 2026 puxado por duas cordas. De um lado, a pressão social e federativa por mais entrega — saúde, educação, investimento e proteção de renda. Do outro, a exigência do mercado por previsibilidade fiscal para manter juros e câmbio sob controle. Esse conflito não é teórico: ele aparece no preço do crédito e na confiança do consumidor, e é exatamente aí que o Polo Industrial de Manaus (PIM) ganha ou perde tração.

Educação e Saude

A parte mais “automática” do gasto é aquela que cresce por regra. Educação básica (Fundeb) e pisos de saúde/educação sobem por desenho institucional, com pouca margem de ajuste no curto prazo. Isso sustenta renda e serviços em muitos municípios e ajuda a manter algum nível de consumo nacional — o que, para Manaus, costuma significar demanda mais firme por bens duráveis e semiduráveis (eletroeletrônicos, informática e duas rodas). Ao mesmo tempo, essa rigidez comprime o espaço para despesas discricionárias e torna mais difícil acomodar choques sem cortar onde dói: investimento e custeio.

Cumprir a regra fiscal

Quando o orçamento aperta, investimento público vira a primeira “válvula de ajuste”. Se a regra fiscal estiver sendo cumprida com folga, o investimento ajuda a economia a girar e pode melhorar gargalos — e, para o PIM, isso tem efeito direto no custo-Brasil (logística, energia, previsibilidade de suprimentos). Mas se a conta fechar no limite, a execução de investimento oscila, e a indústria de Manaus continua pagando o preço da distância e da infraestrutura irregular, além de perder o impulso indireto que obras e compras públicas dão ao ciclo econômico.

Depende do binômio crédito + consumo

Precatórios e subsídios são o ponto onde o mercado costuma ficar mais sensível, porque mexem com a percepção de risco e com a credibilidade do ajuste. Mesmo quando parte dessas despesas tenta ficar “fora do cálculo”, o desembolso existe e tende a ser precificado no risco-país. Para Manaus, isso importa porque o PIM depende muito do binômio crédito + consumo: juro alto esfria o crediário, alonga estoques e derruba volumes; câmbio instável encarece componentes e insumos, comprimindo margem e pressionando preço final — um veneno especialmente forte para eletroeletrônicos e informática.

Em ano eleitoral…

Emendas parlamentares entram como “mercado político” do orçamento: crescem e disputam o mesmo espaço do gasto que poderia reforçar investimento estruturante. Em ano eleitoral, a tendência é aumentar pressão por execução rápida e pulverizada. Para o PIM, isso costuma gerar um efeito ambíguo: pode irrigar bases locais e ativar consumo no curto prazo, mas raramente resolve gargalos logísticos e de competitividade que exigem planejamento e continuidade.

Na expectativa do cenário macro

O Polo Industrial de Manaus chega a 2026 com sinais recentes de força em faturamento e emprego, mas o que vai decidir o ritmo é o ambiente macro. No cenário-base (arcabouço sustentado, ruído fiscal controlado), a trajetória mais provável é crescimento moderado: duas rodas e bens de informática seguem puxando, com emprego alto e investimento privado mais seletivo (automação, eficiência energética e linhas de maior giro). No cenário de aperto (pressão fiscal elevando juros e bagunçando câmbio), o polo sente primeiro: duráveis perdem fôlego, margem aperta e a indústria fica defensiva — até pode crescer nominalmente, mas com ganho real pequeno.

O risco existencial e o operacional

No pano de fundo, a segurança institucional da Zona Franca segue como âncora: a ZFM está prorrogada até 2073 e a reforma tributária trouxe proteções constitucionais ao diferencial competitivo, além de prever instrumentos e um fundo de diversificação. Isso reduz o risco “existencial”, mas não elimina o risco “operacional”: 2026 vai cobrar regulamentação clara e execução competente para que a transição tributária diminua incertezas, destrave investimento e permita ao PIM avançar do modelo de montagem para mais adensamento e inovação.

Trocando em graúdos

O termômetro prático para 2026 é simples: se os juros baixarem e o crédito destravar, Manaus vende; se o câmbio estabilizar, Manaus respira; se o orçamento executar investimentos com continuidade, Manaus ganha competitividade; e, se a regulamentação da reforma tributária para a ZFM for clara e previsível, o polo melhora o seu horizonte de decisão. No fim, o PIM não depende apenas de incentivos — depende de o Brasil manter um ambiente em que o consumidor consiga comprar e a indústria consiga planejar.

(*) Nelson é economista, empresário e presidente do SIMMMEM – Sindicato da Indústria Metalúrgica, Metalomecânica e de Materiais Elétricos de Manaus, conselheiro do CIEAM e da CNI e vice-presidente da FIEAM.

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