Projeto de saúde mental une ciência e saberes tradicionais do povo Mura em Itacoatiara

Iniciativa desenvolvida na Aldeia Correnteza, na TI Rio Urubu, une ciência e saberes tradicionais, para fortalecer as práticas de saúde e bem-estar – Foto: Divulgação

Uma iniciativa inovadora da Afya Faculdade de Ciências Médicas de Itacoatiara, no Amazonas,  está transformando o atendimento psicológico na região do Médio Amazonas. O projeto de extensão, iniciado no segundo semestre de 2025, foca na saúde mental do povo indígena Mura, especificamente na Aldeia Correnteza, situada na Terra Indígena Rio Urubu. A ação busca equilibrar o conhecimento acadêmico com as práticas ancestrais de cura e bem-viver.

O projeto surgiu da necessidade de enfrentar vulnerabilidades emocionais causadas por fatores históricos, como a perda de território e o choque cultural. Segundo a diretora da instituição, Soraia Tatikawa, a proposta é promover uma inclusão real, onde o saber científico não anule a cultura local, mas a fortaleça.

O estado concentra uma das maiores populações indígenas do Brasil e Itacoatiara abriga mais de mil pessoas que se autodeclaram pertencentes a povos originários. Entretanto, o acesso a serviços psicossociais ainda esbarra em barreiras geográficas e na falta de profissionais capacitados para lidar com as particularidades culturais dessas comunidades.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) reconhece que a assistência em áreas remotas é um dos maiores gargalos dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Nesse cenário, o projeto acadêmico surge como um suporte essencial para preencher essa lacuna de atendimento especializado.

Diálogo intercultural e participação da comunidade

A metodologia do projeto prioriza a escuta sensível e a participação ativa dos indígenas. A professora Ádria Cortez, coordenadora da ação, destaca que o planejamento foi construído em conjunto com as lideranças Mura para garantir que as atividades fossem culturalmente adequadas.

Entre as principais ações desenvolvidas na Aldeia Correnteza estão os seguintes pontos:

  • Realização de rodas de conversa que respeitam o tempo e os rituais da comunidade.
  • Dinâmicas de grupo focadas no fortalecimento da identidade cultural.
  • Palestras educativas e consultas médicas integradas.
  • Valorização do uso do idioma local e de práticas comunitárias de acolhimento.

A Aldeia Correnteza conta com 46 famílias e mais de 130 pessoas. O envolvimento das lideranças foi o que permitiu criar um ambiente de confiança mútua entre os acadêmicos e os moradores locais.

Formação humanística dos futuros profissionais de saúde

Além do impacto direto na aldeia, a iniciativa desempenha um papel fundamental na formação dos estudantes de Medicina e Enfermagem. Por meio da disciplina de Projetos de Intervenção e Extensão (Piepe), os alunos vivenciam a realidade amazônica fora dos consultórios tradicionais.

Essa experiência prática contribui para formar profissionais mais empáticos e preparados para as dimensões espirituais e sociais do cuidado. Para a coordenação do curso, o contato direto com as comunidades originárias ensina que existem múltiplas formas de compreender e tratar o sofrimento psíquico.

Visão de futuro e compromisso social

A instituição pretende expandir essa rede de apoio nos próximos anos. O objetivo central é consolidar a faculdade como um agente de transformação social que promove a equidade e o respeito à diversidade cultural.

Os planos para o futuro do projeto incluem as seguintes metas:

  • Aumentar o número de comunidades atendidas na região de Itacoatiara.
  • Estabelecer uma rede de formação continuada específica para saúde mental indígena.
  • Fortalecer o papel da academia como ponte para o desenvolvimento regional sustentável.

A iniciativa reafirma que a saúde mental não deve ser tratada apenas sob uma ótica clínica isolada, mas como um conceito amplo que envolve cultura, território e dignidade humana.

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