
O cenário político de Brasília volta a ser sacudido por um nome que, há décadas, frequenta as manchetes policiais e políticas com a mesma intensidade que desperta paixões e ódios: Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A recente representação da Polícia Federal enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF), que cita o filho mais velho do presidente Lula em meio às apurações de fraudes bilionárias no INSS, exige uma análise cautelosa, despida de torcida, mas atenta à gravidade dos fatos.
Não estamos falando de uma investigação trivial. O esquema liderado por Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, teria desviado mais de R$ 6 bilhões de aposentados e pensionistas, a parcela mais vulnerável da população. Nesse contexto, o surgimento do nome de Fábio Luís, apontado como possível “sócio oculto” em transações suspeitas, eleva a temperatura da crise e coloca à prova a independência das instituições.
O elo perigoso e as coincidências
Para o cidadão comum, as conexões reveladas pela “Operação Sem Desconto” parecem, no mínimo, desconfortáveis. A Polícia Federal não investiga pessoas aleatoriamente; ela segue o rastro do dinheiro. E esse rastro, segundo os investigadores, passa por Roberta Luchsinger, empresária e amiga pessoal de Lulinha.
O que chama a atenção não é apenas a amizade, mas a triangulação financeira. A identificação de repasses que somam R$ 1,5 milhão de uma consultoria ligada ao fraudador para a empresária, somada a mensagens onde ela supostamente afirma que o dinheiro seria “para o filho do rapaz”, cria um cenário probatório que precisa ser esclarecido. Não se trata de criminalizar amizades, mas de explicar por que dinheiro de origem supostamente ilícita estaria circulando entre pessoas tão próximas ao poder.
Os pontos que exigem esclarecimento
Para entender a dimensão do problema e separar o joio do trigo, é fundamental observar os detalhes técnicos que embasam a suspeita da PF e o contraponto necessário da defesa.
- A tese do sócio oculto: A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que Lulinha poderia atuar nas sombras, utilizando terceiros para intermediar interesses junto ao esquema de descontos associativos indevidos. Essa linha de investigação ganha força com o depoimento de Edson Claro, ex-funcionário do esquema, que afirmou ter ouvido do próprio chefe sobre negócios com o filho do presidente.
- A logística compartilhada: Além das transações financeiras, a apuração sobre uma viagem no mesmo voo entre o primogênito de Lula e o operador do esquema sugere uma proximidade física que contradiz a tese de total desconhecimento. Em investigações de colarinho branco, a logística muitas vezes revela o que os contratos tentam esconder.
- O argumento da defesa: Do outro lado, a defesa toca em um ponto nevrálgico do nosso sistema judiciário: o vazamento seletivo. O advogado Marco Aurélio de Carvalho sustenta que as citações são ilações usadas para desgaste político. Roberta Luchsinger, por sua vez, oferece uma explicação comercial para os valores recebidos, alegando consultoria na área de canabidiol, um mercado em expansão que nada teria a ver com as fraudes previdenciárias.
Entre a justiça e a política
É imperativo que a Polícia Federal tenha total liberdade para investigar, doa a quem doer. A frase do presidente Lula de que “quem dever, paga” precisa valer na prática. Se houver comprovação de que o filho do presidente se beneficiou de dinheiro roubado de aposentados, a resposta da lei deve ser exemplar.
Por outro lado, não podemos ignorar o histórico de espetacularização de inquéritos no Brasil. A simples menção em uma representação policial não equivale a culpa. O risco de pré-julgamento é alto e pode servir a interesses que nada têm a ver com a justiça.
O que a sociedade espera é transparência absoluta. O inquérito, que corre sob sigilo, precisa apresentar provas robustas e não apenas convicções. Até lá, Fábio Luís permanece na desconfortável posição de suspeito em um caso que mistura a complexidade das fraudes financeiras com a eletricidade da polarização política. O desfecho deste caso dirá muito sobre a maturidade das nossas instituições em separar o crime da política.











