
A trajetória de Ali Khamenei no comando do Irã é um dos capítulos mais fechados e complexos da política global contemporânea. Diferente de outros chefes de Estado, ele moldou sua liderança através de um isolamento quase absoluto, evitando viagens ao exterior e recusando entrevistas para veículos nacionais ou internacionais.
Para seus críticos, essa postura era o reflexo de alguém que se considerava acima de qualquer prestação de contas, mantendo o controle total sobre os rumos de uma nação estratégica no Oriente Médio por quase quatro décadas.
A trajetória do sucessor silencioso
Nascido em 19/04/1939 na cidade de Mashhad, Ali Khamenei iniciou sua caminhada no mundo religioso ainda muito jovem. Ele passou por seminários em Najaf e Qom, onde começou a despertar seu interesse pelas questões políticas que fervilhavam na época.
Seu primeiro contato direto com o líder espiritual Ruhollah Khomeini ocorreu durante os protestos contra o projeto de lei das associações estaduais e o referendo da “Revolução Branca” do Xá.
Essa proximidade com Khomeini foi o passaporte para o centro do poder. Antes da vitória da revolução em 1979, Khamenei foi detido diversas vezes pelas autoridades, o que apenas reforçou seu papel como uma figura de confiança dentro do movimento islâmico.
Um mês antes da queda definitiva do regime anterior, ele foi escolhido para integrar o Conselho Revolucionário, instituição que daria as cartas no novo sistema político que surgia.
A ascensão meteórica no novo regime
Com a queda do Xá Mohammad Reza Pahlavi, o vácuo de poder foi preenchido por aqueles que estiveram na linha de frente da resistência. Khamenei assumiu funções de grande relevância no Ministério da Defesa e, ao mesmo tempo, tornou-se um dos líderes do Conselho dos Guardas da Revolução.
No entanto, um de seus papéis mais influentes na consolidação do regime foi sua nomeação como imã de sexta-feira de Teerã. Através de seus sermões semanais, ele conseguia pautar a opinião pública e reforçar as diretrizes religiosas e políticas do novo governo, consolidando sua imagem como um defensor ferrenho dos ideais revolucionários.
O líder que sobreviveu a dois atentados
A vida de Khamenei também foi marcada por momentos de violência extrema. Ele sobreviveu a duas tentativas de assassinato que deixaram marcas permanentes em sua trajetória e em seu corpo.
- O ataque na mesquita: em 27/06/1981, uma explosão durante um discurso na mesquita Abu Zar quase lhe tirou a vida. O dispositivo estava escondido em um gravador e, embora tenha sobrevivido, ele perdeu a mobilidade da mão direita.
- A bomba na universidade: em 15/03/1985, enquanto conduzia orações na Universidade de Teerã, outra bomba explodiu entre os fiéis, matando 14 pessoas. Demonstrando resiliência, Khamenei continuou seu sermão mesmo após o incidente.
- O senso de dever: após o assassinato do então presidente Mohammad-Ali Rajai, Khamenei foi eleito o terceiro presidente do país com 95% dos votos em 02/10/1981.
Os anos de crise na presidência
Seu período como presidente do Irã durou oito anos e foi atravessado por crises profundas. Além das lutas políticas internas entre as facções que disputavam o controle do Estado, o país enfrentava a sangrenta guerra entre Irã e Iraque. A relação com o Parlamento era tensa, o que o forçou a aceitar Mir-Hossein Mousavi como primeiro-ministro contra sua vontade inicial.
Apesar dos atritos, Khomeini via na permanência de Khamenei uma necessidade para a sobrevivência do sistema. Segundo registros da época, o fundador da república caracterizou a candidatura de Khamenei à reeleição em 1985 como um “dever religioso”, o que garantiu a ele um segundo mandato em meio ao caos da guerra e dos assassinatos políticos diários.
A herança definitiva de Khomeini
A morte de Ruhollah Khomeini em 04/06/1989 abriu um debate urgente sobre a sucessão. Ali Khamenei, que na época era o primeiro vice-presidente da comissão de revisão constitucional, foi apresentado como o nome preferido pelo próprio fundador.
Akbar Hashemi Rafsanjani, que presidia a sessão da Assembleia de Especialistas, trouxe a público um relato decisivo sobre uma conversa com o falecido líder.
Rafsanjani afirmou que, ao expressar preocupação com o vazio de liderança, o imã respondeu: “Não há vazio; vocês têm pessoas”. Quando questionado sobre quem seria essa pessoa, Khomeini teria apontado diretamente para Khamenei.
Esse testemunho mudou o consenso dos presentes e, após a aprovação de emendas constitucionais que facilitavam a nomeação de líderes com menor graduação religiosa, Khamenei foi oficializado como o segundo Líder Supremo do país.
Um país marcado pelo isolamento e pela resistência
Ao longo de mais de três décadas como autoridade máxima, Khamenei centralizou o poder e enfraqueceu instituições eleitas, como o governo e o Parlamento. Sob sua batuta, o Irã adotou uma postura de confronto contínuo com os Estados Unidos (EUA) e com o Ocidente, o que resultou em sanções econômicas severas que castigam a economia e o dia a dia da população até hoje.
A repressão a movimentos como o “Movimento Verde” e a marginalização de figuras moderadas criaram um abismo entre o Estado e a sociedade, especialmente entre os mais jovens.
Seu legado é o de um país que se manteve fiel ao discurso da resistência e da segurança nacional, mas que agora enfrenta o desafio de lidar com o descontentamento social e a necessidade de mudanças fundamentais em sua estrutura política.
Fique por dentro
O sistema de poder no Irã é único e coloca o Líder Supremo acima de qualquer outra autoridade, incluindo o presidente eleito. Entender a biografia de Ali Khamenei é essencial para compreender por que o país mantém posturas tão rígidas em fóruns internacionais e como a estrutura militar e religiosa se tornou o verdadeiro pilar de sustentação do regime iraniano nas últimas décadas.










