
Por Juscelino Taketomi
É verdade que determinados textos não pedem concordância imediata e não se oferecem à leitura apressada, mas àquela que aceita mover o eixo do olhar, ainda que isso implique abandonar zonas de conforto conceitual.
Foi esse o efeito, nos anos 1990, da provocadora reportagem publicada pela revista Planeta sob o título “Os Orixás são extraterrestres?”. Longe do sensacionalismo fácil, o texto insinuava uma fratura no modo tradicional de pensar o sagrado, convidando o leitor a considerar ontologias não convencionais para aquilo que, há séculos, se nomeia como divino.
Décadas depois, autores como Jan Val Ellam, em suas reflexões sobre a chamada “Revelação Cósmica e o Fator Extraterrestre”, retomam e sofisticam essa hipótese. Não para reduzir Orixás a visitantes espaciais, mas para questionar as categorias com as quais descrevemos consciências não humanas, não terrenas ou não materiais.
Ellam propõe que certos seres, historicamente identificados como Orixás, seriam formas de existência originárias de um universo adjacente, de natureza mais sutil — por vezes descritas como plasmáticas — cuja plena realização exigiria um processo radical: atravessar o limiar entre universos, entrar na matéria, sofrer a experiência da carne, da limitação, do esquecimento e da morte.
Segundo essa hipótese, apenas após viver a condição humana — com sua dor, sua moralidade e sua finitude — essas consciências alcançariam um estado híbrido e irreversível: aquilo que Ellam chama, em termos próprios, de “estado de Orixá”.
Trata-se, convém insistir, de uma construção metafísica, não de uma tese científica estrita. Um modelo explicativo que tenta nomear a estranheza persistente que envolve essas potências na história religiosa da humanidade.
Comentário de Pena Verde
É justamente nesse ponto que se torna fundamental o longo e cuidadoso comentário do índio Pena Verde, manifestado mediunicamente por meio do sensitivo Antônio Barreiros, a propósito do assunto.
Com serenidade didática e profundidade simbólica, Pena Verde oferece um deslocamento decisivo da questão. Para ele, na Umbanda, os Orixás não são espíritos individualizados, tampouco entidades que atravessam universos em busca de experiência encarnatória. São, antes, emanações diretas do Princípio Criador, forças puras da natureza, potências energéticas que equilibram o Universo e sustentam a jornada humana.
Para tornar essa ideia mais próxima da compreensão humana, Pena Verde propõe uma analogia notável: a correlação entre o cérebro humano e as sete linhas da Umbanda.
Assim como o cérebro se organiza em estruturas interdependentes — cérebro propriamente dito, cerebelo e tronco encefálico, subdivididos em lobos funcionais — também as sete linhas expressam funções específicas de uma mesma mente universal. Vejamos:
Oxalá, como a consciência plena e integradora, corresponde à mente superior. Pretos Velhos, ao equilíbrio e à coordenação da experiência. Iemanjá, à sustentação das funções vitais. Oxóssi, ao raciocínio e à direção. Ogum, à ação e à sensação. Xangô, à linguagem, ao julgamento e à compreensão. Iansã, à percepção, ao movimento e à visão dinâmica da realidade.
O cérebro humano, dividido em hemisférios — esquerdo e direito, yin e yang — simboliza a busca incessante pelo equilíbrio. Não se trata de partes isoladas, mas de uma única mente operando por múltiplas funções.
Terra e sua missão de expansão
A partir dessa analogia, Pena Verde aprofunda a reflexão: a Terra é um ser cósmico consciente, vivendo sua própria missão de expansão. Como toda consciência, ela possui uma “mente” que se manifesta por vibrações, impulsos e campos organizadores.
Essas vibrações — mal compreendidas no passado pela limitação da linguagem humana — foram interpretadas como seres ou divindades individuais, recebendo o nome de Orixás. Contudo, conforme Pena Verde, o Orixá não é uma entidade isolada, mas o conjunto das sete vibrações fundamentais que formam a grande mente planetária.
Nesse sentido, a tentativa de explicar os Orixás como seres extraterrenos individualizados falha por não considerar sua atuação conjunta, sistêmica e impessoal. Enquanto se busca resposta projetando categorias humanas para fora — seja no céu religioso, seja no espaço cósmico — perde-se o essencial: a correlação.
Como lembra Pena Verde, quando Cristo afirma que “o que está em cima é como o que está embaixo”, aponta para uma lei de espelhamento universal. A mente humana reflete a mente do Criador, assim como a mente planetária reflete princípios cósmicos mais amplos. Toda criatura possui seu correlato.
Essa leitura dialoga, de modo fecundo, com as reflexões de Wagner Borges, que adverte contra a confusão entre símbolo e literalidade. Para ele, Orixás, anjos ou devas não são descrições objetivas da realidade última, mas formas culturais de traduzir forças e consciências que operam além da matéria.
As representações antropomórficas não são fotografias do invisível, mas linguagens pedagógicas para a mente humana. Quando alguém sente a vibração de um Orixá, não está necessariamente diante de uma figura personalizada, mas em contato com um campo de consciência organizado, que se expressa como energia, direção e impacto psíquico profundo.
Consciência, natureza, criação
O comentário de Pena Verde não nega a ousadia das hipóteses cosmológicas contemporâneas, mas as reinsere num eixo mais amplo e mais antigo: o da correlação entre consciência, natureza e criação.
Talvez o erro não esteja em perguntar se os Orixás são extraterrestres, mas em formular a pergunta a partir de categorias excessivamente humanas. Orixás não seriam “outros” que vêm até nós, mas o modo como o Todo se organiza para sustentar a vida, a mente e a evolução.
Se assim for, os terreiros não são apenas lugares de culto, mas pontos de ressonância. E o mistério não pede submissão cega nem negação racional — pede lucidez, humildade e abertura para perceber que o sagrado pode ser muito menos pessoal do que desejamos, e infinitamente mais vasto do que supomos.
Quebrar o véu da ignorância, nesse caso, não é escolher entre fé ou razão, céu ou espaço, mito ou ciência.
É aprender a ler o invisível sem absolutizar as próprias lentes.










