Voz Sideral O que é a verdadeira Umbanda segundo Ramatís

O que é a verdadeira Umbanda segundo Ramatís

Uma leitura espiritual, científica e crítica sobre a religião brasileira em transformação

Por Juscelino Taketomi (*)

A Umbanda é frequentemente associada, no imaginário popular, a rituais exóticos, práticas mágicas ou manifestações folclóricas. Mas, uma leitura mais atenta de determinadas obras espiritualistas revela uma proposta bem diferente: a de uma religião estruturada sobre princípios éticos, científicos e universais.

É nessa perspectiva que se insere a visão de Ramatís, espírito de origem oriental cuja obra, psicografada por diferentes médiuns ao longo do século XX, tornou-se ao mesmo tempo influente e controversa.

No livro Elucidações de Umbanda, psicografado por Norberto Peixoto e atribuído a Ramatís e à entidade Vovó Maria Conga, a Umbanda é apresentada acima de um sistema mágico ou dogmático, como uma ciência espiritual aplicada à cura, à educação da consciência e à reforma moral do ser humano.

Ramatís parte de uma crítica direta à prática desinformada da religião. Para ele, a Umbanda não se sustenta na repetição mecânica de rituais, objetos ou fórmulas. Quando isso ocorre, diz ele, a religião perde seu sentido pedagógico e se aproxima da superstição.

A proposta central do autor é esta:

os elementos externos da Umbanda não possuem poder próprio. Velas, pontos riscados, ervas, atabaques e defumações funcionariam como instrumentos técnicos de organização energética, e não como meios mágicos autônomos. Seu valor está na consciência de quem os utiliza e na finalidade moral do trabalho realizado.

Essa leitura dialoga com o Espiritismo kardecista, especialmente no que se refere à primazia do pensamento e da intenção, embora Ramatís avance em direções que o Espiritismo mais ortodoxo tradicionalmente evita, como o estudo do magnetismo, do ectoplasma e da ação dos elementos naturais no plano espiritual.

Tecnologia espiritual

Um dos pontos centrais da obra de Ramatís é a releitura da figura dos Pretos-Velhos. Longe de serem compreendidos como espíritos simples ou limitados, eles são descritos como consciências altamente evoluídas que adotam deliberadamente a aparência de antigos escravizados.

Segundo Ramatís, essa escolha tem função psicológica e terapêutica: a imagem do ancião humilde dissolve o orgulho do consulente, evita a intimidação intelectual e cria um ambiente de confiança emocional. O aconselhamento, nesse contexto, se sobrepõe à autoridade.

Do ponto de vista energético, a postura corporal, os gestos lentos, o uso do cachimbo e até o estalar de dedos seriam recursos técnicos para absorção, transmutação e descarga de energias densas do campo psíquico do assistido.

O tabaco, por exemplo, não seria utilizado por vício, mas como condensador de fluidos magnéticos, cuja fumaça atua como defumação individual.

Ectoplasma e papel do médium

Para Ramatís, a Umbanda é uma religião de resultados concretos porque opera diretamente no campo energético humano. O elemento-chave desse processo é o ectoplasma, substância semimaterial fornecida principalmente pelos médiuns.

Esse fluido permitiria aos guias espirituais realizar curas, reequilibrar centros energéticos e promover a limpeza espiritual de pessoas e ambientes. No entanto, o autor faz um alerta recorrente: a qualidade do ectoplasma depende diretamente do estado físico, mental e moral do médium.

Alimentação excessivamente pesada, consumo de álcool, vícios, pensamentos negativos e vaidade pessoal comprometeriam o trabalho espiritual, não por punição divina, mas por incompatibilidade vibratória. Daí a ênfase de Ramatís na disciplina, no estudo e na chamada “reforma íntima”.

Na obra, os Caboclos são apresentados como especialistas em magnetismo e manipulação do prana — a energia vital presente no ar, nas plantas e nos elementos naturais. Sua postura firme, o tom de voz elevado e os brados não seriam encenação, mas instrumentos vibracionais capazes de romper campos energéticos densos e formas-pensamento negativas.

Já os Orixás são definidos de maneira ainda mais distante do senso comum. Ramatís rejeita a ideia de divindades antropomórficas e os descreve como centros de força cósmica, leis universais que regem aspectos da vida, como justiça, geração, equilíbrio e movimento.

Nesse modelo, Caboclos, Pretos-Velhos e outras entidades não “são” Orixás, mas espíritos humanos que trabalham sob determinada irradiação energética. Um “Caboclo de Ogum”, por exemplo, seria um espírito especializado na execução da lei e da ordem, e não a personificação do próprio Orixá.

A organização do trabalho

Ramatís também dedica atenção às linhas frequentemente mal compreendidas. Os Exus são descritos como agentes de policiamento astral, responsáveis por lidar com energias densas e pela aplicação da lei de causa e efeito. Não promoveriam o mal, mas refletiriam ao indivíduo as consequências de suas próprias intenções.

As Crianças (Erês), por sua vez, são apresentadas como espíritos de elevada evolução que dominam a vibração da alegria. Segundo o autor, essa frequência seria capaz de dissolver estados profundos de tristeza, depressão e rigidez emocional, onde outras abordagens espirituais não alcançam.

A defumação, nesse contexto, é tratada como um procedimento técnico de limpeza energética, comparável à esterilização de um ambiente hospitalar, no qual cada erva desempenha uma função específica.

Crítica interna e futuro

Ramatís não idealiza a Umbanda. Em textos anteriores, como Missão do Espiritismo, ele compara a religião a um edifício desorganizado, onde cada terreiro funciona segundo critérios próprios, muitas vezes marcados por excessos, vaidade ou ignorância doutrinária.

Ainda assim, rejeita qualquer proposta de eliminação ou negação da Umbanda. Para ele, a diversidade de formas é característica de uma religião jovem, em processo de amadurecimento. O problema não estaria na pluralidade, mas na ausência de consciência sobre seus fundamentos.

Na visão do autor, a Umbanda tende a se transformar profundamente na chamada Era de Aquário, tornando-se menos ritualística, mais educativa e mais voltada à autonomia espiritual do indivíduo.

A leitura de Ramatís não é consensual. É questionada por setores do Espiritismo kardecista mais ortodoxo e também por umbandistas que rejeitam a aproximação com uma linguagem científica ou universalista. Ainda assim, sua obra ocupa um lugar relevante no debate contemporâneo sobre o que é, afinal, a Umbanda.

Mais do que oferecer respostas definitivas, Ramatís propõe perguntas incômodas: qual o sentido real dos rituais?

qual o papel ético do médium? qual a diferença entre tradição e apego?

Sua síntese final é direta: a Umbanda não se sustenta pelo mistério, mas pelo esclarecimento; não pelo espetáculo, mas pela caridade consciente; não pela fé cega, mas pelo entendimento das leis espirituais.

Nesse sentido, sua visão contribui menos para definir uma Umbanda única e mais para provocar uma reflexão essencial sobre o futuro da religião e sua responsabilidade social, espiritual e humana. O debate é necessário e deve continuar.

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