
Por Estagiário de Lara (*)
Parece que a tranquilidade habitual dos gabinetes climatizados de Brasília foi subitamente interrompida. Não por uma questão constitucional de grande magnitude, mas pelo medo genuíno de que a luz do sol — o melhor desinfetante, dizem — ilumine contratos e relações que preferiam o conforto da sombra. A movimentação nos bastidores para enterrar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Banco Master revela que, para alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a independência dos poderes é um conceito flexível quando o assunto envolve amigos e familiares.
A pressão agora recai sobre os ombros de Davi Alcolumbre, presidente do Senado, que se vê imprensado entre o dever legislativo e o “pedido carinhoso” de quem detém a caneta mais pesada da República. A ironia é fina. Justamente aqueles que deveriam ser os guardiões da transparência parecem atuar como bombeiros para apagar um incêndio antes mesmo que ele comece.
O que deveria ser apenas mais uma investigação parlamentar se transformou na dor de cabeça favorita da Praça dos Três Poderes. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, figuras centrais do judiciário, teriam entrado em campo pessoalmente para dissuadir a criação da comissão. O argumento oficial nos bastidores é de que uma CPMI “desgastaria a imagem do STF”.
A verdade, no entanto, pode ser bem menos nobre e muito mais numérica. O requerimento para a instalação da comissão já conta com 281 assinaturas, superando com folga o mínimo necessário. Liderada pelo deputado Carlos Jordy e impulsionada pelo Partido Liberal (PL), a mobilização parlamentar sugere que o Congresso cansou de assistir passivamente enquanto o judiciário legisla e, agora, aparentemente também faz lobby.
O ponto nevrálgico desse nervosismo tem nome e sobrenome, além de um valor que faria qualquer trabalhador brasileiro perder o fôlego. Documentos que circulam no Congresso apontam para contratos da advogada Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Estamos falando de um acordo que prevê pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões. Ao final de três anos, a cifra alcançaria a estratosférica marca de R$ 130 milhões.
A justificativa para tal montante envolveria atuação em órgãos como a Receita Federal e o Banco Central. O detalhe curioso, para não dizer trágico, é que nenhum desses órgãos confirma ter visto a cor desse trabalho. Em um depoimento recente, o dono do banco, Daniel Vorcaro, sequer foi questionado sobre esse vínculo, numa daquelas “falhas” de memória institucional que só acontecem quando convém.
Se de um lado temos contratos advocatícios de ouro, do outro temos o lazer garantido. A oposição mira também o envolvimento do ministro Dias Toffoli com o Tayayá Resort, um complexo de luxo no Paraná. As investigações jornalísticas indicam que fundos ligados ao cunhado de Vorcaro adquiriram parte da participação de irmãos do ministro no empreendimento.
Para tornar o enredo ainda mais inverossímil, Toffoli é justamente o relator do processo relacionado ao Banco Master no STF. Suas decisões até agora incluem impor sigilo absoluto à investigação e ordenar que materiais de operações policiais sejam enviados diretamente ao seu gabinete, longe de olhares curiosos. É o clássico caso onde o juiz, o réu e o dono da bola parecem jogar no mesmo time, enquanto a torcida — o povo brasileiro — paga o ingresso.
A blindagem não se restringe apenas ao judiciário. Há relatos de que a influência dos ministros transbordou para o Banco Central. O deputado Carlos Jordy aponta possíveis “pressões institucionais” sobre Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, para favorecer o Banco Master.
A pergunta que fica no ar é simples e direta. Se não há nada a esconder, por que tanto medo de uma CPMI? A atuação desenfreada para impedir a investigação acaba, ironicamente, servindo como a maior prova de que há algo muito valioso — ou muito comprometedor — guardado nos cofres desse banco. Resta saber se Davi Alcolumbre cederá à pressão dos togados ou se permitirá que o Congresso cumpra seu papel fiscalizador.
(*) Jornalista Independente
Fonte: https://revistaoeste.com/politica/toffoli-e-moraes-pressionam-senado-contra-cpmi-do-master/







