Juscelino Taketomi O Mulateiro da Praça da Polícia está sendo devorado em silêncio e...

O Mulateiro da Praça da Polícia está sendo devorado em silêncio e Manaus precisa acordar

O Mulateiro do Clube da Madrugada pede socorro no Centro Histórico de Manaus - Foto: Divulgação

Por Juscelino Taketomi

Na tarde do último dia 13, uma colega jornalista enviou-me, pelo WhatsApp, fotografias que me doeram nos olhos e na consciência. Não era apenas uma árvore nas imagens. Era uma ferida aberta no coração do Centro Histórico de uma Manaus insensível.

As fotografias mostravam o velho Mulateiro da Praça Heliodoro Balbi, nossa antiga Praça da Polícia. O Mulateiro estava imenso, altivo, ainda belo, mas marcado. Cansado. Totalmente vulnerável.

Minha colega lamentava o abandono de um dos símbolos mais eloquentes da memória cultural amazonense. E, de fato, há descasos que são administrativos. Outros são morais. Mas, este, envolvendo o Mulateiro, me pareceu a união dos dois.

Na manhã seguinte, fui à praça como quem visita um enfermo querido. E quando me aproximei do Mulateiro, senti que não estava diante de uma árvore qualquer. Vi que, realmente, ele era um patriarca. Um sobrevivente.

O Mulateiro — de casca lisa que se renova como quem troca de pele para continuar vivendo — sempre me pareceu um escritor vegetal. Perde a casca, mas não perde a memória. E memória, naquela praça, é matéria sagrada.

Foi sob a sombra daquela árvore que, em 22 de novembro de 1954, nasceu o Clube da Madrugada. Ali, reuniram-se jovens que ousaram sacudir o provincianismo e arejar as letras amazonenses. Carlos Farias de Carvalho, Celso Melo, Fernando Collier, Francisco Ferreira Batista, Humberto Paiva, José Pereira Trindade, João Bosco Araújo, Luiz Bacelar, Raimundo Teodoro Botinelly de Assumpção, Saul Benchimol — nomes gravados na placa hoje caída ao chão, como se a história tivesse sido empurrada para debaixo da poeira.

Outros gigantes vieram depois: Jorge Tufic, Antísthenes Pinto, Ernesto Penafort, Arthur Engrácio, Moacir Andrade, Van Pereira, Alencar e Silva, Alcides Werk, Max Carpenthier. Sob aquela copa discutiram poemas, lançaram livros, brigaram por ideias, sonharam grande. O Mulateiro não assinou manifestos, mas sustentou todos com sua sombra generosa.

Hoje, porém, o contraste dói. A placa comemorativa repousa inclinada no chão, oxidada, com parafusos enferrujados, como uma lápide improvisada. Não celebra. A placa lamenta. Não honra. Ela acusa. o que mais me inquietou não foi apenas o abandono visível. Foi o silêncio interior do tronco.

Moradores e frequentadores da praça relatam o que testemunhei com meus olhos, que cupins estão corroendo o Mulateiro por dentro. A árvore, que parece vigorosa por fora, começa a se tornar oca. A madeira interna está sendo devorada em silêncio, como tantas vezes acontece com o patrimônio público: a destruição não grita, ela rói. É o drama das coisas vivas: apodrecem primeiro por dentro.

As raízes grossas e retorcidas da árvore estão expostas, pedindo manejo técnico adequado. O tronco apresenta cavidades que precisam de avaliação urgente de engenheiros florestais e agrônomos especializados em arborização urbana. Não se trata de alarmismo. Trata-se de prevenção.

O Mulateiro é mais que centenário. É testemunha física de um dos movimentos intelectuais mais importantes da história cultural do Amazonas. Não é qualquer árvore. É patrimônio vivo.

Permitir que os cupins avancem é permitir que a nossa memória seja devorada fibra por fibra. Por isso, este não é apenas um texto de saudade. É, sim, uma crônica de desesperado apelo.

Que o Governo do Estado do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa e dos órgãos ambientais competentes, e que a Prefeitura de Manaus, por meio do Concultura, da Semmas e do Implurb, promovam imediatamente uma avaliação técnica fitossanitária completa do Mulateiro.

Após a avaliação, que sejam providenciadas medidas como o tratamento contra cupins e pragas internas, recuperação estrutural do tronco, se ainda houver tempo, bem como proteção e manejo adequado das raízes expostas, restauração e reinstalação digna da placa comemorativa. Tudo esse conjunto de medidas será profundamente relevante para que Governo Estadual e Prefeitura Municipal eduquem e reconectem a população com o significado daquele espaço.

Preservar o Mulateiro não é saudosismo ornamental. É política cultural séria. É inteligência urbana. Cidades que negligenciam seus símbolos maiores tornam-se paisagens sem alma — e Manaus já perdeu árvores demais, casarões demais, histórias demais.

O velho Mulateiro ainda está de pé. Troca de casca como sempre fez. Talvez esperando que nós também troquemos a nossa. Ele espera que troquemos a casca da indiferença pela casca da responsabilidade.

Então, que não seja preciso vermos o Mulateiro tombar para entendermos a importância de sua sombra. Que as autoridades ajam com rapidez, porque o tempo corre com pressa e os cupins não esperam.

 

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