O império do pangasius: a ascensão silenciosa que mudou o mercado global

Foto: Divulgação

O mundo despertou para uma nova realidade em 2024. Dados da FAO confirmaram o domínio do Vietnã no mercado global de pescados cultivados. O país ultrapassou a marca de 1,75 milhão de toneladas anuais de pangasius e agora se consolida entre os maiores produtores de peixes de cultivo do planeta. Enquanto Noruega e Chile lideram com salmão, o Vietnã construiu silenciosamente um império baseado no peixe-gato de água doce.

A ascensão começou nos anos 2000, quando as autoridades vietnamitas apostaram na aquicultura industrial. Hoje, o setor movimenta bilhões de dólares em exportações, abastecendo mais de 80 países, do Oriente Médio à América Latina.

O pangasius: o peixe que virou fenômeno global

Conhecido no Brasil como panga, o pangasius conquistou mercados por três fatores essenciais: carne branca, sabor neutro e preço acessível. Ele se tornou rapidamente uma alternativa econômica para cardápios em restaurantes, escolas e hospitais ao redor do mundo.

O segredo vietnamita reside em uma cadeia verticalizada que controla cada etapa da produção, desde a seleção genética dos reprodutores até o embarque dos filés congelados. Empresas gerenciam fábricas de ração, laboratórios de larvicultura, fazendas de engorda e frigoríficos com padrões industriais rigorosos.

O ciclo produtivo é altamente eficiente:

  • Rendimento: Alevinos se transformam em peixes adultos prontos para abate em apenas sete a nove meses.
  • Aproveitamento: O rendimento após filetagem supera 40%, uma taxa que poucas espécies conseguem alcançar.
  • Manejo: Viveiros atingem densidades elevadas sem comprometer a qualidade, graças a sensores de oxigênio dissolvido e protocolos sanitários rígidos.

Três pilares do domínio vietnamita

Analistas internacionais apontam três fatores decisivos que sustentam a hegemonia do Vietnã na produção de pangasius:

  1. Custo de produção imbatível: O pangasius sai mais barato que a tilápia, o salmão e até o camarão cultivado, garantindo competitividade global.
  2. Oferta constante: A produção opera sem interrupções sazonais, garantindo um fornecimento regular ao longo do ano.
  3. Padronização industrial: A uniformidade dos filés facilita a logística internacional e a distribuição em larga escala.

A favor do país também está a geografia, com temperatura estável e grande disponibilidade hídrica. A expansão aquícola também teve um grande impacto social, tirando centenas de milhares de pessoas da agricultura de subsistência e formalizando empregos em comunidades rurais.

Brasil na mira: a polêmica da tilápia vietnamita

A expansão vietnamita não se limita ao pangasius. Recentemente, o país asiático passou a mirar o mercado brasileiro com outro produto: a tilápia.

Essa movimentação gerou reação imediata da Peixe BR, entidade que representa os piscicultores nacionais. O Brasil é um dos maiores produtores de tilápia da América Latina, com uma cadeia consolidada que emprega milhares de famílias e movimenta bilhões de reais anualmente. A possível entrada da tilápia vietnamita acendeu um sinal de alerta no setor.

Representantes da Peixe BR defendem a proteção da produção nacional, argumentando que:

  • A indústria nacional investiu pesadamente em tecnologia e sustentabilidade.
  • A importação massiva pode comprometer a cadeia local devido a custos de produção artificialmente baixos no Vietnã.
  • Existem diferenças significativas nas legislações trabalhista, ambiental e nos subsídios governamentais, o que cria condições desiguais de competição.

O debate ganha força à medida que o Vietnã busca diversificar seus destinos de exportação. Com alta capacidade industrial e logística azeitada, o país asiático vê no Brasil uma oportunidade de expandir sua presença na América do Sul.

Pressão externa impulsiona inovações ambientais

Como toda produção intensiva, a criação vietnamita enfrentou críticas de organizações internacionais sobre o manejo de água, o destino de efluentes e a origem das rações. A resposta do setor foi dada por meio de investimentos pesados em sustentabilidade.

Grandes produtores implementaram:

  • Depuradores biológicos e viveiros de sedimentação.
  • Sistemas de recirculação parcial de água.
  • Fórmulas de ração que reduziram a dependência de farinha de peixe.

Relatórios recentes mostram que os grupos líderes operam em conformidade com normas de mercados exigentes, como Europa e Estados Unidos. A pressão externa, que poderia ter freado o crescimento, acabou impulsionando a eficiência e a redução de custos por hectare.

Projeções e soberania alimentar

O Ministério da Agricultura do Vietnã projeta ultrapassar 2 milhões de toneladas anuais nos próximos anos. Novos sistemas automatizados de engorda e viveiros mais profundos permitem densidades maiores sem comprometer o bem-estar animal.

O pangasius deixou de ser apenas um peixe comum do Sudeste Asiático. Hoje, ele protagoniza uma cadeia globalizada, moldada por engenharia hídrica, manejo intensivo e logística internacional de alta eficiência. A ascensão vietnamita prova que a aquicultura moderna é um dos motores mais importantes da economia alimentar do século XXI, e não apenas um complemento da pesca tradicional.

Com a possível chegada da tilápia vietnamita ao Brasil, essa história está longe de terminar. O próximo capítulo promete debates acalorados entre a defesa da produção nacional e a abertura comercial, uma disputa que envolve empregos, sustentabilidade e soberania alimentar.

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